terça-feira, junho 20, 2006

O primeiro dia (1794) William Blake


Coloquei a gravura ao lado para ilustrar a idéia de rigor e precisão.
Pintada por William Blake e intitulada O primeiro dia (1794), tal gravura "representa a regularidade encontrada em cada nível do universo conhecido, desde o maior até o menor de todos, e normalmente em formas que podem ser expressas em equações matemáticas. É como se o universo mesmo contivesse a racionalidade. Como disse alguém um dia, é como se 'Deus fosse matemático'" (Bryan Magee. História da Filosofia). 

Como vocês podem observar, a imagem representa um Deus que possui em suas mãos um compasso - instrumento de precisão. E, de fato, o título "O primeiro dia" alude, neste contexto, ao momento da criação do universo (supostamente criado por Deus). Portanto, a figura remete, ao menos em linhas gerais, à tese do criacionismo. Isso me leva a pensar naquilo que os filósofos chamaram de argumento do desígnio e que Hume, nos Diálogos Sobre a Religião Natural, também discute. 

O argumento do desígnio é o argumento mais difundido e bem aceito da religião natural em favor da existência de Deus. Há várias versões deste argumento, mas em sua forma mais abrangente ele reza que a partir da aparente ordem, beleza e desígnios do universo, podemos legitimamente inferir a existência de um criador, possuidor de atributos naturais e morais, tais como inteligência, poder, sabedoria, benevolência, justiça e misericórdia. Embora Hume, na voz do personagem Cleanthes, não pense exatamente num ordenador matemático, a análise que ele faz do argumento do desígnio tem uma íntima relação com as idéias que a imagem nos desperta. Mas aqui vou apontar ao menos dois problemas que Hume levanta nos Diálogos: por que pensar num único ser ordenador e não em vários seres ordenadores? Ou por que não pensar que a própria matéria possa ter um princípio organizador interno responsável por toda essa ordem aparente?

2 comentários:

Diego F. G. F. disse...

Ao menos no meu ponto de vista digo que podemos estabelecer que há Ordem no universo; a matéria não surge e desaparece do nada, toda ação gera uma reação, e as energias de atração e repulsão são constantes o que nos permite a existência de formas físicas continuas (imaginemos se os átomos ora se atraíssem ora se repelissem desordenadamente). Particularmente penso nisso como prova de que existe um equilíbrio (ordem) no cosmos.
Quanto a nossa primeira dificuldade (por que Principio e não princípios); valho-me da frase de um filosofo teólogo: "O monoteísmo foi um grande mal para o mundo". Todas as culturas antigas enumeravam deuses e deusas em panteões e em belas histórias. Se pararmos para pensar que essas culturas contem os gregos (grande manancial de conhecimentos diversos E cultura abastada) e os egípcios (Que erigiram monumentos absolutamente inexplicáveis, fruto de uma sabedoria maior que certamente não possuímos), somos inclinados a pensar que eles pudessem estar certos.
Incluindo porém o segundo ponto, que se demonstra interessantíssimo, afirmar que a matéria contem em si, princípios organizadores internos não seria o mesmo que dizer que o cosmos é inteligente? E por que temos que nos apegar ao uma idéia tão retrograda como: “Deus é um velho barbudo, com um chicote na mão para punir os pecadores, que se senta altíssimo num trono de ouro no meio das nuvens do paraíso”? Penso que se podemos falar de um principio intrínseco a toda partícula que é de natureza ordeira, por que não poderia residir ai o Deus que é buscado?
Certamente muitas séries de pensamentos fazem mal a mente humana, e mesmo eu que já fui ateu devo dizer, que com uma analise lógica é quase impossível para qualquer um negar um “Deus” mesmo que seja apenas como “principio e ordem”, atributos que devem caber a algo.


p.s. Nada contra velhos barbudos, a pintura é muito bela...

Marília Côrtes disse...

Caro Diego.
Se entendi bem, quando você fala em surgimento e desaparecimento da matéria, acho que o que você está querendo dizer é que a matéria se transforma, não é? Com efeito, a matéria não desaparece. Nós não temos acesso pela experiência ao surgimento e desaparecimento da matéria, mas apenas à sua transformação. E essa transformação pode ser fruto – como disse antes e você também menciona – de princípios ordenadores intrínsecos à matéria.
Sobre monoteísmo e politeísmo. Penso que o defensor do monoteísmo tem de enfrentar realmente a dificuldade que você assinala. Sobre isso estamos de acordo. Contudo, acredito que um litígio apenas entre o monoteísta e o politeísta seria provavelmente vencido pelo primeiro. Platão e Aristóteles, para citar apenas os dois maiores filósofos gregos, nunca deram crédito ao politeísmo.
Em relação à inteligência do cosmos, a meu ver, não está de modo algum excluída a possibilidade do cosmos ser na realidade caótico e o princípio ordenador ser apenas uma imposição de nossa subjetividade às coisas.
Um abraço!