terça-feira, agosto 17, 2010

Schopenhauer, as mulheres e os homens


Caro Fernando, obrigada pelo comentário em http://mariliacortes.blogspot.com/2010/03/arte-de-lidar-com-as-mulheres.html. Minhas observações estouraram o número de caracteres no campo dos comentários, por isso, publiquei-as aqui.



Infelizmente não tenho comigo, de modo completo, essa parte da filosofia de Schopenhauer. Meus comentários foram com base nas pequenas citações contidas no pequeno excerto que citei. Sei que isso traz o inconveniente de nos levar a imprecisões e equívocos interpretativos ─ por não contemplar a profundidade e extensão da teoria que o filósofo apresenta. Schopenhauer é um grande filósofo, mas que, como qualquer outro, pode cometer alguns pecados filosóficos, talvez não por estar completamente equivocado, mas simplesmente por fazer afirmações peremptórias que, a meu ver, não passam de hipóteses mais ou menos prováveis. Digamos que a hipótese de Schopenhauer seja mais do que menos provável em alguns aspectos! Digamos que a hipótese de Schopenhauer não seja completamente implausível, mas também que não se constitui numa verdade universal e necessária, tal como ele parece pretender. Que ela seja plausível... (o que já é bastante!).

Bom, devido à falta de um material em mãos para consultar, qualquer coisa que eu diga aqui será apenas a partir do que você citou e comentou: de minha parte, então, faço aqui rasos e arriscados (talvez até suicidas) comentários ao pé da letra (sem levar muito em conta o espírito), repletos muito mais de perguntas do que de respostas.

Segundo você, Schopenhauer diz:  "o homem dificilmente alcança a maturidade da sua razão e das suas capacidades intelectuais antes dos vinte e oito anos de idade; a mulher, aos dezoito. Trata-se também de uma lógica: uma lógica bem medida. Por isso, as mulheres permanecem crianças ao longo de toda a sua vida, vendo apenas o que está próximo, prendendo-se ao presente, tomando a aparência das coisas pelas coisas em si e dando prioridade a ninharias em detrimento de assuntos mais importantes:"

Pergunto: Quer dizer que as mulheres amadurecem (quanto à razão e suas capacidades intelectuais) aos 18 anos e, ao mesmo tempo, permanecem crianças ao longo de toda a sua vida, e que por isso essas faculdades são nelas mais falhas e imperfeitas? Quer dizer que quanto à razão e suas capacidades intelectuais as mulheres “estacionam” aos 18 anos? Mulheres amadurecem (de que modo: emocionalmente apenas?) permanecendo imaturas intelectualmente? Como assim? Não posso deixar de pensar que alguma inconsistência permeia esse raciocínio, ainda que, talvez, eu não possa prontamente indicá-la.

 Você diz que o autor justifica que os homens têm intelectos superiores aos das mulheres no parágrafo "Maturidade - masculina e feminina" (p. 16) afirmando que "quanto mais nobre e perfeita é uma coisa, mais tarde e mais lentamente ela atinge a maturidade.” Ora, com base em que Schopenhauer afirma isso? O que nos garante que as coisas são de fato assim? Talvez Schopenhauer tenha uma bom fundamento para dar suporte a isso: mas qual seria exatamente? Não sei como (ao menos a partir do século 20) é possível alguém dizer que tem conseguido constatar isso de forma empírica, tal como você disse.

Você conclui: "portanto, segundo o autor, os homens apreendem a inteligência das mães (tem lógica porque na maioria das sociedades de todos os tempos os filhos passam mais tempo com as mães do que com os pais), mas esta inteligência não nasce e fica por aí, esta inteligência vai evoluindo ao longo dos anos como está evidenciado no parágrafo que citei, chegando a um ponto que supera a inteligência das mães".

Quer dizer que os filhos, ao passarem mais tempo com as mães (“estacionadas”, sempre crianças, infantis e incapazes de desenvolver seus intelectos) desenvolvem suas inteligências naturalmente (herdadas das mães, segundo Schopenhauer) num ritmo 10 anos mais lento do que os de suas mães, e que, por isso, as superam em inteligência? Ele fala em herança ou desenvolvimento de inteligência? É essa inteligência herança genética ou, digamos assim, adquirida e desenvolvida pela educação? Não sei, mas parece haver algum parafuso solto aí.

Tudo bem que temos nos homens, como você bem assinala, os maiores exemplos de grandes feitos em várias áreas por toda a história. Mas não poderíamos atribuir este fato também a várias outras causas e circunstâncias? Todo mundo sabe que as mulheres por milênios foram subjugadas à força masculina (inegavelmente maior). Não bastaria que as coisas fossem assim para impedi-las de desenvolverem seus talentos e/ou capacidades intelectuais? Em alguns períodos da história, por exemplo, as mulheres nem mesmo eram consideradas cidadãs, e estavam muito mais próximas do status dos escravos do que de qualquer acesso às importantes áreas do conhecimento, ou de qualquer caminho que pudesse levá-las a desenvolver seus “supostos” talentos (fosse como escritora, cientista, política, filósofa ou coisa que o valha). E será que era por que elas não tinham inteligência e talento para mudar isso, ou porque estavam constrangidas pela necessidade (de um lado pela própria natureza ─ mais sensível, frágil e delicada ─ e, de outro, pelo subjugo da força masculina)? A superioridade masculina nesse aspecto (da força física) é mesmo superior!



Todo mundo sabe também que às mulheres sempre foram delegados os cuidados com os filhos e atividades domésticas em geral. Não nego que a natureza, num certo sentido, moldou-as para a gestação e cuidado com os filhos, mas penso que nem por isso deixou de conceder-lhes razão e inteligência (em muitos casos, maior do que em muitos homens) para mudar aquilo que é possível nessa história. E penso que isso sim pode, agora, ser constatado de forma empírica. Veja nos últimos tempos a quantidade de mulheres que ascenderam ao poder político; a quantidade de mulheres superando muitos homens nas atividades econômicas, administrativas, científicas, acadêmicas, etc, e ainda dando conta dos filhos e atividades domésticas. É claro que alguém pode argumentar que a proporção é muito pequena. Mas o que nos garante que as mulheres não possam vir a superar, numa proporção cada vez maior, os homens em suas aptidões intelectuais? Será mesmo que os homens permanecerão sempre realizando maiores feitos que as mulheres, em todos esses campos do conhecimento, nessa proporção tão desmedida? Tenho dúvidas de que isso esteja determinado geneticamente ad infinitum por uma diferença em nossas constituições intelectuais.

Você diz: 'É de salientar que este autor estava ligado ao mundo das artes, aliás, ele próprio gostava de tocar flauta, e ele também faz muita referência às mulheres nas suas actividades': "Com toda a razão, poder-se-ia chamar o sexo feminino de não-estético. Nem para a música, nem para a poesia, tampouco para as artes plásticas as mulheres têm, real e verdadeiramente, talento e sensibilidade... (p. 63). Assim, como a lula, também a mulher gosta de se esconder na dissimulação e de nadar na mentira’, e de facto, o teatro vive da mentira, já que o que se representa não é o que está a acontecer na realidade”.

O que dizer, então, da quantidade de homens artistas (famosos e premiadíssimos) de teatro e televisão? Seriam eles lulas que gostam de se esconder na dissimulação e nadar na mentira? Ou eles seriam, por conta desses seus talentos, efeminados? Por acaso a poesia, a pintura e as artes plásticas tratam da realidade? Elas também não são representações? Ou os talentosos e sensíveis homens que produziram verdadeiras obras primas ao longo de todos esses séculos nessas áreas retrataram a realidade e reproduziram a própria coisa em si? Onde está a lógica bem medida em tudo isso?

Well, embora eu também tenha Schopenhauer em alta conta, ao menos em relação à parte que melhor conheço (e que no fundo é pouca) de sua filosofia, acho que a argumentação dele nesse assunto, se não for completamente equivocada (e olha que não acho que seja completamente), se mostra bastante arriscada, parcial, preconceituosa e dogmática, ao menos na maneira pela qual ele as apresenta. Talvez fosse o caso de ele apenas cultivar um pouco de papas na língua. Não tenho a menor inclinação para levantar bandeiras feministas e achar que as mulheres são superiores ou exatamente iguais aos homens (tampouco inferiores, exceto em força física), mas também não posso deixar de observar toda essa falta de compostura verbal. Que ele é um grande filósofo, ah... isso ele é, mas que fala umas besteiras, carrega nas tintas e é rabugento, ah... isso ele também faz e é! Não dá pra ouvir tudo isso e ficar quieta, ainda que ele tenha argumentos razoavelmente plausíveis para dar apoio às suas teses.

[imagem 2 | Francisco de Zurbarán | Hércules destrói o leão de Nemeia |1634 ]