quarta-feira, setembro 23, 2009

Relíquia de Amor

Toda vez que faço arrumações em meu quarto – que agora virou quarto de estudos ─ acabo revendo cartas e papéis que há muito estavam ali guardados. Sempre encontro umas coisinhas interessantes... relíquias, eu diria, que marcaram minha vida.

Abri uma gaveta e encontrei hoje, pela milésima vez em tantos anos que guardei daqui pra lá e de lá pra cá, um livrinho pequenininho (desculpe a redundância, leiam como pura ênfase no tamanhinho dele), de capa dura, intitulado Amor Total.
Este Amor Total é, na verdade, um pequeno soneto de Vinicius de Moraes que neste caso se apresenta numa edição ilustrada (com flores, folhas, pássaros e borboletas coloridas) por Joan Berg - Editora Record.

Eis o soneto:

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

(Vinicius de Moraes)


Bom, este soneto ganhei de presente de um outro poeta.

Ao abrir o livro, encontro uma dedicatória assim:

Marília:
Mostra teu desenho do amanhã
(por certo colorido e em paz)
que eu assisto:
raiando o dia colorido
como teu desenho vivo.

Ao final, depois do soneto, mais algumas palavras daquele que me presenteou:

Nossa vida
um dia despertará
em uma imensa primavera

Sei esperar
sem precisar dormir
o vôo da andorinha
que me foge
como você

mas estou aqui
te esperando
como quem nunca separou

(Antônio Thadeu Wojciechowski, em 23/07/80)

[ai ai ai Guiguis... não precisa ficar com ciúmes, pois nosso amor já mudou de folhas, pétalas e plumagens, mas continua (um) presente!!!]

sexta-feira, setembro 04, 2009

Lucidamente insano



Hoje acordei com vontade de escrever sobre literatura. Na verdade isso não aconteceu só hoje. Volta e meia eu acordo assim, mas acabo entretida em outros compromissos. Lembrei-me que a alguns posts abaixo, À Lolita eterna refletida em meu sangue, prometi que um dia ainda transcreveria mais algumas partes dessa obra que considero um deleite para os amantes, assim como eu, das belas palavras. Eis-me aqui, agora, para cumprir minha promessa (senão ficarei desacreditada rs).

Bom, é claro que não me refiro a belas palavras vazias, ou, digamos assim, pobres de significados. Palavras podem ser sonoramente belas, mas triviais, pouco ou quase nada significativas. Estas não me interessam. Quando falo em belas palavras refiro-me àquelas que nos invadem cortantes, no meio do peito e por todos os lados; palavras que suscitam idéias que te arrebatam e te arrebentam. Belas porque profundas, belas ainda que trágicas. Lolita tem esse poder: suscita idéias grávidas de significados dilacerantes.

Numa determinada altura do livro, quase ao final, o personagem Humbert Humbert diz que seu “pulso marcava, num minuto, quarenta pulsações, no outro, cem”. Gostei dessa idéia. Fiquei a pensar: que descompasso! Que aflição, que desequilíbrio, que mal-estar deve causar essa sensação (como se eu já não a tivesse sentido). Imaginei-me assim, analogamente, com um de meus pulsos aceleradíssimo, disparado, batendo cem vezes por minuto, e o outro slow motion, pesado, quase parando: a paixão corroendo, "as veias a doer" (p.19) e a procurar "uma presença sedativa" (p.33).

É claro que você pode sentir-se assim sendo afetado de diversas maneiras, como, por exemplo, quando encontramos, de repente, alguém por quem estamos velada e irresistivelmente apaixonados (na adolescência acontece muito, nos adolescentes tardios também rs, e por que não nos adultos?), e ficamos tímidos, não sabemos como nos comportar, perdemos a espontaneidade, temos medo ou vergonha de que a pessoa descubra ou perceba, receamos revelar nossa paixão (quem já se viu violentamente apaixonado desse modo sabe do que estou falando).

Mas esse não é o contexto no qual Humbert Humbert descreve o ritmo descompassado de sua pulsação. Ele já havia perdido Lolita, já havia se rasgado, enlouquecido: seu coração já se tornara “um órgão histérico”. Humbert procurava Lolita, de modo doente, incansável, obsessivo. Num certo dia, Humbert recebera uma carta de Lolita comunicando-lhe que havia se casado, que iria ter um bebê, e que passava por tristezas e dificuldades. Dolly pedia-lhe dinheiro. Humbert investigara o endereço, ensaiara a morte violenta do marido (Mr. Richard F. Schiller), e fora atrás dela.


“Não me foi possível ─ ai de mim! ─ conservar no estômago a primeira refeição, mas considerei essa indisposição física apenas um contratempo trivial, limpei a boca com um lenço de tecido fino e diáfano tirado de dentro do punho e, tendo como coração um bloco de gelo, uma pílula na língua e a morte inapelável no bolso traseiro da calça, meti-me elegantemente numa cabina telefônica em Coalmont e disquei para o único Schiller existente na velha lista destroçada” (p.366-367).

Após rastrear o endereço, Humbert atinge o seu “cinzento objetivo”. Ao chegar à casa de Lo, sofrido, “velho e frágil”, permanece imóvel ali em frente, sentado em seu velho sedan azul, durante vários minutos. Este é precisamente o momento do descompasso de seus pulsos.

Depois de vê-la “fraca e imensamente grávida [...] as faces, pálidas e sardentas, estavam fundas” (p.368-369), Humbert pergunta-lhe, rosnando, com a mão no bolso, se seu marido estava em casa. Enquanto isso a olha e pensa: “Não podia matá-la, claro, como alguns pensaram. Eu a amava, os senhores compreendem. Era amor à primeira vista, à última vista e a todas as outras vistas, sempre” (p.369).

Muita coisa se passara neste encontro triste, tenso, terno e dramático ao mesmo tempo, até que Humbert lhe entregasse o dinheiro. Ele conhecera Dick, o marido, e percebera que não estava à procura daquele homem. Não foi ele quem roubou Lolita. A cena, cheia de detalhes, se desenrola até que, antes de ir embora, Humbert, com aquele "tumor oculto da paixão inenarrável" (p. 80), tenta convencer Lolita a ir com ele: - “Lolita ─ disse-lhe eu ─ [...] Daqui até aquele velho carro... há uma distância de vinte, vinte e cinco passos. É uma distância muito curta. Dê agora esses vinte e cinco passos. Agora. Neste momento. Venha assim como você está. E viveremos felizes para sempre” (p.380). Lolita recusa. Questiona se ele só lhes dará o dinheiro que necessitam se ela for a um motel com ele. - Não, responde Humbert. Ele pensa:

“Ela compreendeu tudo errado: ─ quero que você deixe esse seu Dick incidental, bem como este buraco medonho, e venha viver comigo, e morrer comigo, e ‘tudo’ comigo. [...] Pense bem Lolita”. De qualquer modo, porém, mesmo que você se recuse receberá o seu ... trousseau” (p. 381)."Entreguei-lhe um envelope contendo quatrocentos dólares em dinheiro, além de um cheque de três mil e seiscentos dólares. Cautelosa, incerta, recebeu meu petit cadeau ─ e, então, sua testa se tornou de um belo cor-de-rosa. [...] Cobri o rosto com a mão e rompi nas lágrimas mais ardentes que jamais derramei. Senti que elas me escorriam por entre os dedos e pelo queixo, que me queimavam ─ e meu nariz se entupiu, e eu não podia parar, e ela, então, tocou em meu punho (p.381).

- Morrerei, se você tocar em mim ─ disse-lhe. ─ Você sabe que não irá comigo. Não há nenhuma esperança de que você vá? Diga-me apenas isso” (p.381).

E ela diz não! Depois de algumas justificativas dela e um diálogo sofrido, ele faz mais uma tentativa.

“- Uma última palavra – disse-lhe, em meu cuidadoso e horrível inglês. – Você está absolutamente certa de que... não amanhã, nem depois de amanhã, por certo, mas... bem, de que um dia, qualquer dia, não voltará para minha companhia? Criarei um Deus novo em folha e, com gritos penetrantes, elevarei a Ele o meu agradecimento, se você me der uma microscópica esperança (p.383)”. Ah... uma microscópica esperança! Era tudo o que ele precisava. Mas... - Não – respondeu Lolita sorrindo. Não!

"Adeus! - cantou ela, o meu doce, imortal e morto amor americano. Sim, porque ela está morta e é imortal" [...] "Vi-me, em seguida, dirigindo o carro em meio do chuvisqueiro do dia agonizante, com os limpadores do pára-brisa a funcionar com toda rapidez, mas incapazes de competir com as minhas lágrimas” (p.384).

Dali em diante, Humbert dirige-se a seu grand final. Mas antes, com aquela fascinante estética verbal que, por si só, fala pela pena de Nabokov, passa por mais algumas de suas miseráveis lembranças. Eis algumas delas:

“Guardo ainda outras lembranças enevoadas que se desdobram agora em monstros de dor desprovidos de membros. [...] eu nada conhecia acerca da mente de minha querida e que, era bem possível, atrás daqueles horríveis lugares-comuns juvenis, havia nela um jardim e um crepúsculo, e o portal de um palácio ─ vagas e adoráveis regiões que me eram lúcida e absolutamente proibidas, em meus andrajos poluídos e miseráveis convulsões, pois eu, não raro, percebia que, vivendo como vivíamos, ela e eu, num mundo completamente mau, nos sentíamos estranhamente constrangidos sempre que procurávamos discutir [...]. Ela costumava revestir sua vulnerabilidade de um ar de fastio e impertinência vulgar, enquanto que eu, empregando em meus comentários, desesperadamente impessoais, um tom de voz tão artificial que me eriçava os pêlos, provocava em minha ouvinte tais explosões de grosseria que tornavam impossível o prosseguimento da conversa, minha pobre e magoada criança” (p.388-389)!

“Eu a amava, Lolita. Eu era um monstro pentápode, mas amava-a. Era uma criatura desprezível, bruta, torpe e tudo o mais, mais je t’aimais, je t’aimais. [...] Lembro-me de certos momentos ─ chamemo-los geleiras do paraíso ─ em que, depois de saciar-me dela... após esforços fabulosos, insanos, que me deixavam bambo e listrado de azul, eu a tomava nos braços, afinal, com um mudo gemido de ternura humana (sua pele brilhava à luz do gás neon vinda, através das frestas dos estores, do pátio da estalagem, seus cílios fuliginosos embaciavam-se, os olhos cor de cascalho eram mais vagos do que nunca... enquanto o mundo todo não era senão uma pequena paciente ainda mergulhada na confusão de um anestésico, após uma grande operação) e a ternura se transformava em vergonha e desespero e eu embalava a minha leve e solitária Lolita em meus braços de mármore, e gemia em seus cálidos cabelos, e acariciava-a a esmo, e pedia-lhe, mudamente, que me abençoasse e, no auge dessa agoniada e generosa ternura humana (com a minha alma verdadeiramente dependurada de seu corpo nu, e prestes a arrepender-se), súbito, ironicamente, horrorosamente, a luxúria tornava a nascer e... ‘Oh, não!’, exclamava Lolita com um suspiro dirigido ao céu. E, num momento, a ternura e o azul ─ tudo se despedaçava” (p.389-390).

(NABOKOV, Vladimir. Lolita. Tradução de Brenno Silveira. São Paulo: Abril Cultural, 1981).