quarta-feira, junho 21, 2006

Comentário ao comentário de Lui Fernando


Caro Lui,

Muito obrigada pelo comentário. Ele não deixa de ser oportuno porque me dá a chance de esclarecer algumas coisas. Você diz que “se olharmos para a enxurrada de bobagens e futilidades que a TV despeja nos lares brasileiros, o referido quadro soa como algo inteligente”. Mas veja bem: se eu adotasse aqui essa perspectiva, a qual vou chamar de perspectiva de juízos comparativos, não veria nenhum problema nisso que você diz. Contudo, não estou nem um pouco convencida de que devemos adotar juízos comparativos em relação ao que a TV nos oferece. A adoção de tais juízos nos conduz facilmente a praticarmos uma generosidade indevida. A minha frustração, a qual você considera perder um pouco de razão, encontra sua razão no seguinte ponto: está relacionada com as exigências que faço e não com as possíveis comparações, tais como a que você fez.


Não posso deixar de assinalar também, meu querido Lui, mais alguns pontos de desacordo contigo. Você está preocupado com o fato de a filosofia ser popularesca ou pretensiosa. Porém, a primeira preocupação soa incoerente porque se adotarmos a tua perspectiva, isto é, a dos juízos comparativos, a filosofia facilmente será conduzida ao “popularesco”. Já a segunda preocupação me parece equivocada porque a filosofia é e sempre foi pretensiosa (mesmo e, principalmente, fora do dia a dia).

A propósito, desculpe-me, mas não estou lembrada do seu nome. De onde você é mesmo?

terça-feira, junho 20, 2006

O Príncipe de Maquiavel


Caros ex-alunos

Soube que teve gente desesperada por não saber nada de Maquiavel. Para tentar aliviar esse desespero, administro aqui uma gotinha do que significa virtude para o príncipe, segundo Maquiavel. O príncipe virtuoso, para Maquiavel, é aquele que tem êxito em chegar e manter-se no poder. Sua virtude está em mediar as situações que a necessidade impõe e a fortuna oferece. “Assim, é preciso que, para se conservar, um príncipe aprenda a ser mau, e que se sirva ou não disso de acordo com a necessidade” (Maquiavel. O Príncipe | cap XV). “... quando um príncipe se apóia apenas na fortuna, arruína-se de acordo com as variações daquela". " Julgo feliz, também o que harmoniza sua maneira de agir com as características de cada época, e infeliz aquele cujo modo de proceder discorda dos tempos” (cap. XXV). Pode-se dizer, pois, que para o príncipe de Maquiavel, a virtude não pode ser confundida com a moral (uma relação comumente feita), embora ele possa até possuir princípios morais. Porém, no exercício de sua função, tais princípios devem (de acordo com a necessidade) ser abstraídos, devendo o príncipe agir com o máximo de esperteza e atenção à sorte.

O primeiro dia (1794) William Blake


Coloquei a gravura ao lado para ilustrar a idéia de rigor e precisão.
Pintada por William Blake e intitulada O primeiro dia (1794), tal gravura "representa a regularidade encontrada em cada nível do universo conhecido, desde o maior até o menor de todos, e normalmente em formas que podem ser expressas em equações matemáticas. É como se o universo mesmo contivesse a racionalidade. Como disse alguém um dia, é como se 'Deus fosse matemático'" (Bryan Magee. História da Filosofia). 

Como vocês podem observar, a imagem representa um Deus que possui em suas mãos um compasso - instrumento de precisão. E, de fato, o título "O primeiro dia" alude, neste contexto, ao momento da criação do universo (supostamente criado por Deus). Portanto, a figura remete, ao menos em linhas gerais, à tese do criacionismo. Isso me leva a pensar naquilo que os filósofos chamaram de argumento do desígnio e que Hume, nos Diálogos Sobre a Religião Natural, também discute. 

O argumento do desígnio é o argumento mais difundido e bem aceito da religião natural em favor da existência de Deus. Há várias versões deste argumento, mas em sua forma mais abrangente ele reza que a partir da aparente ordem, beleza e desígnios do universo, podemos legitimamente inferir a existência de um criador, possuidor de atributos naturais e morais, tais como inteligência, poder, sabedoria, benevolência, justiça e misericórdia. Embora Hume, na voz do personagem Cleanthes, não pense exatamente num ordenador matemático, a análise que ele faz do argumento do desígnio tem uma íntima relação com as idéias que a imagem nos desperta. Mas aqui vou apontar ao menos dois problemas que Hume levanta nos Diálogos: por que pensar num único ser ordenador e não em vários seres ordenadores? Ou por que não pensar que a própria matéria possa ter um princípio organizador interno responsável por toda essa ordem aparente?

segunda-feira, junho 19, 2006

O primeiro dia

Rigor e precisão

Olá novamente moçada!

Gostaria de retomar aquela idéia de rigor e precisão exposta na carta de John Locke a Philippe de Limborch. Notaram que precisar tem dois sentidos? Aproveito essa deixa para falar de um problema (grave) que percebi dando aulas, trocando cartas e avaliando vocês. Gente: uma coisa é certa! O Português do Brasil vai muito mal. Quero dizer, a língua portuguesa, meninada, a nossa rica e bela língua portuguesa. E vocês têm que prestar atenção nisso. Sabem por quê? Porque do jeito que a nossa língua vai indo por água abaixo, daqui a muito pouco tempo vamos estar a grunhir em vez de conversar. Daí que para que isso não aconteça, afinal, há algo que nos diferencia dos animais (rsrs), deixo aqui uma outra regrinha para a gente conversar. 

Eu admito e aceito (com restrições que aqui não vêm ao caso) que com a Internet, Messengers, Orkuts, e-mails e toda essa velocidade estonteante que se instalou nas comunicações, criou-se uma nova linguagem, tipo fast-food, para atender a esse nosso novo ritmo. Mas vamos fazer algumas distinções. Neste blog eu me proponho a uma atividade filosófica (ainda que a conta-gotas) e não um bate-papo sem compromisso. E uma das características da atividade filosófica é o rigor. Essa é uma palavra que todo mundo conhece, mas que também deve ser procurada no dicionário. Simplesmente para que a concepção de filosofia que expresso aqui fique bem clara. Como assim, rigor? É simples: por favor, evitem ao máximo a linguagem de Messenger, tipo naum , aki, axei, kibom, hiuhasiauhisuhaisudhf e semelhantes. Eu aceito que vocês errem e façam interjeições. Mas gostaria que quando tratarmos de questões filosóficas, por favor, que sejam bem formuladas, bem escritas. Ah (interjeição)! Podem dar umas risadinhas quando se tratar de alguma comunicação mais pessoal, mas tentem escrever com um certo rigor, cuidando das palavras, de escrevê-las na forma correta, usar vírgulas, acentos, concordâncias verbais, etc... 

Esse é um treino indispensável não só para vocês que vão ter de fazer a redação do vestibular, mas para toda e qualquer pessoa que pretende se comunicar por escrito. Não tenham vergonha de errar. Tenham de não tentar acertar, se for o caso. Eu pedirei licença para corrigi-los e não passarei nenhum sermão. Não vai valer tirar sarro. Entendo que seja, talvez, difícil escrever corretamente para quem não está acostumado a ler e a escrever bastante. Aliás, esse é o grande caminho para se escrever bem: ler e escrever bastante. Portanto, não tenham preguiça de ler. Sugiro que vocês façam dos livros grandes amigos. Com preguiça até podemos ir a alguns lugares (a uma praia, talvez), mas posso garantir que jamais iremos mergulhar nas profundas águas da filosofia.

Francine Van Hove

quarta-feira, junho 14, 2006

Sobre o quadro "Ser ou não ser?" do Fantástico


Foi ao ar no programa Fantástico do último domingo [11.06.06] o quadro pretensamente filosófico “Ser ou não Ser?”, apresentado por Viviane Mosé. O tema do programa configurou-se em torno da concepção de Disputa, Guerra ou Conflito. Viviane Mosé apresentou algumas situações criadas pelos homens, nas quais se dão a disputa, o conflito, ou mesmo a guerra. Entre essas situações pudemos ver algumas competições que fazem parte do contexto de certas culturas indígenas, dos jogos olímpicos e copas do mundo. A concepção de disputa escolhida para desenvolver o tema foi aquela encontrada nas teorias do filósofo Nietzsche. Várias outras concepções de conflito foram ali salpicadas, em especial, a dos gregos em geral (generalização inapropriada a meu ver) e a de Sócrates. Porém, é preciso distinguir bem cada uma delas. Mas isso eu só conseguiria fazer em aulas, ou com um texto de no mínimo 50 páginas (acho que vocês prefeririam aulas rsrsrsrsrs). Do modo como as concepções foram apresentadas, pareceu que Nietzsche e Sócrates convergem em seus pensamentos. Contudo, entre Nietzsche e Sócrates há mais divergências do que convergências. Vale lembrar que Sócrates era um apologista do logos e Nietzsche um contundente crítico do logos (Cadê o dicionário, moçadinha?).

De fato, o tema é bastante instigante, mas confesso que fiquei com uma sensação de frustração. Apesar de se poder considerar a proposta do programa válida, na medida em que, no mínimo, contribui para despertar a curiosidade de alguns (provavelmente poucos) interessados, uma coisa é certa: ele peca por induzir o telespectador à superficialidade e confusão. Esse é o problema de se tentar tratar de filosofia em poucos minutos. Talvez não se deva imputar culpa à apresentadora. A meu ver o programa, por sua própria natureza (a de apresentar o tema em apenas alguns minutos), não permite o aprofundamento necessário para que a obscuridade e confusão dêem lugar à clareza e precisão. A pressa é uma das maiores inimigas da filosofia.

sexta-feira, junho 09, 2006

Aos meus caríssimos ex-alunos do Colégio Universitário



Olá moçada!

Conforme prometi, declaro aberto este espaço para aquela nossa (famosa) interlocução filosófica. Bom, algumas coisas têm de ficar bem claras, e algumas regras bem definidas. Uma coisa que me preocupa é como a gente pode travar aqui uma conversa (interlocução) que seja profícua. Olhem só essa palavra! Tenho quase certeza de que a maioria de vocês não sabe o que ela significa. Portanto, lá vai a primeira regra:
Não vai dar para a gente conversar sobre filosofia se vocês não se dispuserem a ser amigos de ao menos um bom dicionário de português. Vamos lá, sem preguiça! Dicionário à mão! Melhor, quem tiver um no computador, mantenha-o aberto (sugestões de dicionários de português eletrônicos: Aurélio Século XXI e Houaiss). Procurem (ou digitem) essa palavrinha esquisita que eu coloquei aí para vocês - profícua. Temos de enriquecer nosso vocabulário. Vocês podem até dizer: ah... eu tenho uma idéia do que é, posso imaginar, inferir o sentido a partir da frase contemplada em seu todo, etc... Bom, ter uma idéia (imaginar, inferir) é algo muito vago que implica uma série de outras coisas. Para a gente compreender qualquer coisa é preciso, de fato, ter ao menos uma idéia dessa coisa. Mas em filosofia é preciso muito mais do que isso. É preciso alcançar uma idéia precisa das coisas, ou seja, do que queremos saber, entender, compreender. E o primeiro passo para isso é conhecer e precisar os termos (e as idéias) que vamos empregar nas questões e respostas.

Para ilustrar...


Para ilustrar o que disse, caros ex-alunos, vale citar uma carta que o filósofo John Locke (1632-1704) escreveu a Philippe de Limborch [em 12 agosto 1701].


“Assim como você, eu penso que convém evitar toda obscuridade e ambigüidade no uso das palavras; mas gostaria de acrescentar que mesmo aqueles que querem isso não conseguem sempre evitar a obscuridade. As idéias que se observam no espírito dos homens – e sobretudo daqueles que procuram a verdade – são, com efeito, muito mais numerosas que as palavras de qualquer língua que dispomos para exprimi-las. Disso se segue que os homens (a quem não é próprio inventar à vontade palavras novas a cada vez que eles têm necessidade de dar significado a idéias novas), utilizam a mesma palavra para designar idéias diferentes, sobretudo quando estas lhes são vizinhas. É isto que faz com que, no discurso, a obscuridade e o sentido incerto não sejam raros, quando é necessário alcançar a precisão e a exatidão. E não é somente o espírito daqueles que escutam que é vítima, mas também o espírito daqueles que falam”.

Bom, moçadinha, é claro que o velho e bom Locke pega pesado aqui. Não precisamos ser tão rigorosos assim. Mas vamos ao menos tentar seguir seus conselhos de modo a não nos tornarmos vítimas da obscuridade e do sentido incerto, nem vitimar aqueles que nos escutam.

segunda-feira, junho 05, 2006

Curso sobre Kant

Segue o programa do curso sobre Kant para graduandos e pós-graduandos da UEL. O curso está aberto para interessados.

Curso sobre Kant 
Por Marília Côrtes de Ferraz 
Mestre em Filosofia pela UNICAMP

1. PROGRAMA
1.1. Introdução ao pensamento de Kant Análise dos prefácios A e B da Crítica da Razão Pura (CRP) 1.2. A distinção entre conhecimento empírico e a priori Análise da Introdução da CRP (seções I-III) 1.3. Juízos sintéticos a priori. Análise da Introdução da CRP (seções IV-VII) 
1.4. A terceira antinomia da Crítica da Razão Pura. Dialética transcendental. Antinomia da razão pura. Terceiro conflito das idéias transcendentais 
1.5. Análise da Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Boa vontade. Dever. Imperativos em geral. Imperativo categórico. Liberdade.

2. CRONOGRAMA (HIPOTÉTICO)

* encontros semanais Junho 2006: 
  1. Introdução ao pensamento de Kant, Julho 2006: 
  2. A distinção entre conhecimento empírico e a priori, Agosto 2006: 
  3. Juízos sintéticos a priori, Setembro 2006: 
  4. A terceira antinomia da CRP, Outubro 2006: 
  5. Análise da Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Novembro 2006: 
  6. Análise da Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Fevereiro 2007: 
  7. Análise da Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Março 2007: 
  8. Análise da Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Abril 2007: 
  9. Análise da Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Maio 2007: 



3. BIBLIOGRAFIA

ALQUIÉ, Ferdinand (s/d): La morale de Kant. Centre de Documentations Universitaire, Place de la Sorbonne Paris V. 
BECK, Lewis White (1966): A Commentary on Kant’s Critique of pratical reason. Chicago: The University of Chicago Press. 
ESTEVES, J C Ramos (2000): “Kant tinha de compatibilizar natureza e liberdade no interior da filosofia crítica? Studia kantiana 2 (1): 53-70. 
HÖFFE, Otfried (1993): Introduction à la philosophie pratique de Kant. La morale, le droit e la religion. Tradução de Francois Rüegg e Stéphane Gillioz. Paris: Vrin. 
KANT, Immanuel. (FMC): Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Tradução de Paulo Quintela. São Paulo, Abril Cultural, 1980. 
KANT, Immanuel (CRP): Crítica da Razão Pura. Tradução de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. Lisboa, Calouste Gulbenkian, 1994.

domingo, junho 04, 2006

Liberdade e Imputabilidade Moral em Hume


Eis o resumo da minha dissertação de Mestrado, defendida na UNICAMP em 2006



A dissertação examina a análise de Hume dos conceitos de liberdade e imputabilidade moral. O texto de referência para a pesquisa é a seção VIII da Investigação sobre o entendimento humano. Mostro, a partir do estudo dessa seção, em que sentido os conceitos de liberdade e necessidade são compatíveis para Hume. Para tanto, analiso o compatibilismo humeano enfatizando a unidade explicativa que o autor esposa claramente na obra citada. De fato, Hume, em seu exame das noções de liberdade e necessidade anuncia introduzir novidades que prometem ao menos algum resultado na decisão da controvérsia entre a doutrina da necessidade e a doutrina da liberdade (da vontade). Ele propõe um ‘projeto de reconciliação’ (reconciling project) que consiste em mostrar que liberdade e necessidade são perfeitamente compatíveis entre si, e que afirmar que as ações humanas são livres não é afirmar que estejam fora do âmbito da necessidade, mas apenas que se realizaram sem constrangimento. Em seguida, esclareço as razões que conduzem à crença na vontade livre, crença esta infundada, segundo Hume. Por fim, procuro estabelecer as conseqüências que o compatibilismo humeano traz para a noção de responsabilidade moral. Hume entende que não só é perfeitamente possível explicar os juízos morais pelo seu compatibilismo, como também que o seu compatibilismo é a única alternativa de fato consistente para dar conta dos ajuizamentos que fazemos acerca da moralidade. Entendo que a explicação dos juízos morais de imputabilidade oferecida por Hume representa uma hipótese altamente persuasiva e com vigor suficiente para responder a objeções geralmente apresentadas pelos incompatibilistas.