quarta-feira, novembro 11, 2009

Vaidade das vaidades: uma paixão vital


Hoje resolvi fazer aquela brincadeirinha de abrir um livro numa página qualquer para saber o que ele teria a me dizer de bom e interessante, e que eu pudesse fazer comentários, de preferência, também, interessantes e bons (rsrs). Isso foi às 7:00 hs da manhã, quando me preparava para ir à academia cuidar um pouco, se Platão estiver certo, do cárcere da minha alma (pois se tenho que manter minha alma durante toda a minha vida num cárcere, que seja então num cárcere bem cuidado e agradável de se habitar).

Escolhi abrir o livro das citações de Eduardo Gianetti, já que ali se encontram boas e interessantes citações, especialmente, de filósofos e literatos. Perguntei a mim mesma: o que este belo e bom livro tem a me dizer right now? Abri, assim, ao acaso, na página 226, capítulo III.8 sobre “Ética pessoal: vícios, virtudes, valores”, intitulado, Vanitas Vanitatum, et Omnia Vanitas (Vaidade das vaidades, tudo é vaidade). Aliás, devo confessar, sem cerimônia, um título muito apropriado à ocasião, à minha própria pessoa e, conforme a opinião da maioria das mais eminentes figuras deste mundo, muito apropriado a qualquer pessoa; poder-se-ia mesmo dizer: a vaidade é própria da natureza humana.

É claro que ela deve variar em grau ou intensidade de pessoa para pessoa, mas, ao fim e ao cabo, o que eles dizem é que somos todos seres vaidosos (je suis d’accord). E isso, pelo que se vê, ocorre tanto pelo bem quanto pelo mal. Porém, em geral, fala-se da vaidade como algo muito negativo, uma guerra entre egos obesos (sabe-se que o desejo de admiração, reconhecimento e glória, quando levado ao exagero, transforma-se num dos sete pecados capitais). Todos se vangloriam de perceber a vaidade nos outros, mas quase ninguém a percebe em si próprio (o que não é o meu caso: percebo nos outros e em mim própria haha). Embora possamos mesmo constatar que existe uma verdadeira guerra de vaidades (num sentido negativo) entre as pessoas, por outro lado penso que a vaidade, numa certa medida e, de preferência, na medida certa (quem sabe qual é?) é uma característica positiva da nossa natureza: uma paixão vital!


Ao que tudo indica, Malebranche (La recherche de la verité) concordaria comigo (hehehe, na verdade eu é que concordo, em parte, com ele), pois eis o que o eminente padre diz: “Os homens não estão cientes do calor que emana de seu coração, embora ele dê vida e movimento a todas as outras partes do seu corpo. [...] O mesmo se dá com a vaidade: ela é tão natural para o homem que ele não a percebe. E, embora seja isso que dê, por assim dizer, vida e movimento à maioria dos seus pensamentos e desígnios, isso ocorre de um modo que é imperceptível para o sujeito”. Bom, eu diria quase imperceptível, tanto que na sequência Malebranche usa o termo ‘suficientemente’. “[...] Os homens não percebem suficientemente que é a vaidade que dá ímpeto à maioria de suas ações” (p.224). Não sei se na sequência da obra Malebranche depreciará o valor da vaidade (pois a citação se encerra aí), mas, a partir do que foi dito acima, pode-se reconhecer que a vaidade é, no mínimo, um elemento essencial em nossa vida.

La Rochefoucauld (Maxims), por sua vez, ao que parece, também concebe de modo positivo a presença da vaidade em nossa natureza quando afirma: “a virtude não iria longe se a vaidade não lhe fizesse companhia” e que “se alguma vez chegamos a admitir as nossas deficiências, fazemos isso por vaidade” (p.226).

Adam Smith (The theory of moral sentiments) segue mais ou menos a mesma linha quando assinala: “o desejo de obter a estima e a admiração de outras pessoas, quando se dá por meio de qualidades e talentos que são objetos naturais e apropriados da estima e da admiração, é o amor real da verdadeira glória; uma paixão que, se não é a melhor da natureza humana, está certamente entre as melhores. A vaidade é com freqüência nada mais que a tentativa de usurpar prematuramente essa glória antes que seja devida. Embora seu filho, antes dos vinte e cinco anos, não passe de um pretensioso, não desespere, por isso, de que ele se torne, antes de chegar aos quarenta, um homem sábio e valoroso, com real aptidão para todos os talentos e virtudes em relação aos quais não passa, no presente, de um vazio e exibido dissimulador. O grande segredo da educação reside em direcionar a vaidade para os objetos apropriados” (p.232-233).

Hugh Blair (On the proper estimate of human life) pensa que “embora todos os homens estejam de acordo sobre a doutrina geral da vaidade do mundo, tal é a sedução do amor-próprio que, não obstante, quase todos se vangloriam de que o seu próprio caso é uma exceção à regra comum” (p.224).

Na linha dessas reflexões, Nietzsche (Human, all too human), talvez o mais assumido vaidoso de todos os vaidosos, aquele que explica, em Ecce Homo, por que ele é tão sábio, tão inteligente e por que escreve livros tão bons, dá a velha e habitual alfinetada: “Aquele que nega possuir vaidade normalmente a possui de forma tão brutal que instintivamente ele fecha os olhos diante dela para não se ver obrigado a desprezar a si mesmo” (p.226).

Carlos Drummond de Andrade (Passeios da ilha), por seu turno, fala de si próprio do seguinte modo: “por muito que examine a minha vaidade, não lhe vejo o mesmo tom desagradável da dos outros. O que é uma vaidade suplementar” (p.224).

Já Hume abre sua autobiografia “My Own Life” escrevendo: “é difícil para um homem falar por muito tempo de si mesmo sem vaidade, portanto serei breve” (p.233).

Para encerrar, deixo aqui as palavras de Pascal (Pensées) a respeito do assunto:

“A vaidade está tão arraigada no coração do homem que um soldado, o ajudante de um soldado, um cozinheiro, um porteiro, todos vivem a se gabar e a procurar admiradores, e mesmo os filósofos [eu diria que, em geral, principalmente os filósofos] desejam tê-los. E aqueles que escrevem contra a vaidade desejam ter a glória de escrever bem; e aqueles que leem o que estes escreveram desejam a glória de ter lido isso; e eu, que escrevo este ataque à vaidade, talvez alimente também o mesmo anseio de glória: e talvez também os que leem isto” (colchetes meus, p.228).


(Citações extraídas de GIANETTI, Eduardo. O livro das citações: um breviário de ideias replicantes. São Paulo: Companhia das Letras, 2008 [cap. III8]. As páginas referem-se às citações encontradas no livro de Gianetti, e não às encontradas nas obras dos autores citados).

sábado, novembro 07, 2009

Sobre filosofia



Há um ano, precisamente entre os dias 27 e 31 de outubro de 2008, aconteceu na UNIOESTE o XIII Simpósio de Filosofia Moderna e Contemporânea, assim como neste ano, entre 26 e 30 de outubro, ocorreu o XIV. Na época do XIII eu era ainda professora de lá, e, por conta disso, além de participar do simpósio como apresentadora de trabalho, logo após, fui convidada por alguns alunos meus do primeiro ano de filosofia, responsáveis também pelo programa "Latrina" da Kula Radioweb Universitária , a dar uma entrevista sobre filosofia.

Bom, por mais que eu estude filosofia nunca acho fácil falar sobre ela (a gente sempre acaba dizendo algumas besteiras), ainda mais assim, numa rádio, onde há uma transmissão pública, em maior escala, da minha voz, de minhas ideias, opiniões e conhecimentos. De qualquer modo, encarei o desafio e lá fui eu. Antes de ir é claro que pedi que eles me dessem ao menos algumas dicas sobre as questões que iriam fazer. Assim, eu teria ao menos uma ideia do terreno em que iria pisar.

As questões eram basicamente as seguintes: o que é filosofia? o que me levou a fazer filosofia? por que escolhi estudar especialmente o filósofo escocês David Hume? qual a importância do simpósio para a universidade, para os alunos e demais participantes? e por que a discussão filosófica é importante nos simpósios, congressos, encontros, universidades e escolas?

Pensei um pouco sobre elas e achei que uma certa ordem me ajudaria a seguir um raciocínio X. Combinamos, então, a ordem das perguntas, mas na hora H a entrevistadora, no calor de um certo e natural nervosismo, inverteu a ordem. E é claro que isso já bagunçou um pouco o meu coreto, mas não o suficiente para eu perder totalmente o rebolado. Achei até que foi bom, assim a entrevista se deu de modo mais espontâneo.

Minha idea era transcrevê-la aqui, mas como estou quase sempre correndo atrás do tempo para que ele não me engula, e a entrevista tem 21' e 10", resolvi, já que a Rádio é Web e está disponível na internet, passar o link a quem possa interessar. Adianto que ali, quase como sempre, deixei de dizer algumas coisas que deveria ter dito, deixei de precisar pontos importantes; e disse coisas também que, talvez, não devesse, ou ao menos não disse do modo como gostaria de ter dito, o que acho perfeitamente normal numa situação como essa, em que por mais tranquilo que alguém possa ficar, uma certa taquirritmia sempre ocorre, o sangue esquenta, o pensamento escapa, as palavras faltam, a língua enrola, enfim... rola um certo descompasso entre o que pensamos, dizemos e gostaríamos de ter dito.

Quanto ao nome do programa, Latrina, não me perguntem por que ele tem esse nome tão sui generis, pois eu mesma ainda não entendi. Aliás, na verdade, eles não me explicaram naquele dia, estávamos com o tempo contado, e, depois, acabei calando a pergunta. Várias vezes pensei em perguntar, mas sempre acontecia alguma coisa que fazia com que eu deixasse pra lá. Agora, ao ouvir novamente a entrevista, fiquei com vontade de saber. Vou perguntar e depois eu conto, tá?

Eis o link: é só acessar e fazer o download!