quinta-feira, setembro 30, 2010

Existência de Deus e Natureza Divina

RESUMO - ANPOF 2010
Águas de Lindoia - SP

[04/10/2010 - 08/10/2010]
Existência de Deus e Natureza Divina nos Diálogos sobre a Religião Natural de Hume: uma análise do argumento de Demea

Demea alega no início dos Diálogos sobre a Religião Natural (D) que não se discute entre pessoas razoáveis a existência de Deus, mas apenas a sua natureza.  Ele também sustenta que a existência de Deus é uma “verdade certa e auto-evidente” (D II: 27). Mas cabe perguntar: Demea se compromete ao longo dos Diálogos com a alegada verdade indubitável e auto-evidente? Acredito que não. Penso que o compromisso de Demea com o teísmo tradicional pode ser considerado um compromisso forte. Mas esse compromisso não deixa de ser afetado pela confusão de Demea entre argumentos a priori e a posteriori, embora pareça não ser afetado pelo fideísmo místico da existência de Deus como uma “verdade certa e auto-evidente”. Entendo que essa intervenção inicial de Demea, bem como de algumas outras declarações que parecem isoladas (conforme tentarei mostrar nesta comunicação), tem mais valor retórico do que propriamente argumentativo. Ademais, quanto à sua declaração (e também a de Fílon) de que a existência de Deus não está em questão, mas apenas a sua natureza, salta aos olhos que os Diálogos versam não só sobre a natureza de Deus, mas também sobre a sua existência. Tudo bem que os três personagens se apresentem de acordo quanto à proposição de que Deus existe. Mas se a existência de Deus fosse, de fato, uma “verdade certa e auto-evidente”, penso que não haveria tanta dificuldade, tampouco tanta discordância assim, nem seria necessário apresentar complexos argumentos e uma prova em favor dela. Nós a tomaríamos facilmente como certa e auto-evidente e discutiríamos apenas a sua natureza. Todavia, para que a discussão sobre a natureza divina faça sentido, é necessário assentar, com base em bons argumentos, a sua existência. E tanto Cleantes quanto Demea se esforçam para estabelecer as bases da existência divina confrontando as provas e argumentos que cada um julga mais apropriados a ela. O principal argumento de Demea a favor da existência de Deus pode ser assim resumido: a determinação da existência de algo somente pode ser pensada ou a partir do acaso, ou do nada, (ou, ainda, de uma causa que exista por si). Mas é absolutamente impossível que alguma coisa produza a si mesma ou seja causa de sua própria existência. O acaso (no sentido de ausência de causa, bem entendido) é uma palavra sem significado (cf. D IX: 119). Do nada, não pode ser, pois o nada não produz coisa alguma. Logo, um efeito singular deve ter sua causa última remetida à noção de um Ser necessariamente existente. Apenas um ser necessariamente existente pode trazer consigo a razão de sua existência e permitir, assim, que se torne significativa toda a sucessão de causas e efeitos particulares (cf. D IX: 119). Isto considerado, a comunicação tem como objetivo a descompactação deste argumento e o exame das críticas que Cleantes e Fílon fazem a ele, bem como de outras possíveis críticas às alegações em favor da existência de Deus sustentadas por Demea.

terça-feira, setembro 07, 2010

O Adolescente de Dostoiévski

Numa daquelas minhas passeadinhas pelo shopping resolvi (como quem não quer nada, embora eu sempre queira alguma coisa) entrar na livraria. É comum que eu faça isso. Vou ao shopping para pagar umas contas e acabo saindo com mais algumas. É claro que sempre me dirijo à prateleira de livros de filosofia (que, aliás, na livraria do nosso shopping é bem pobre e ruinzinha) e depois (ou antes) à de literatura. Dou aquela voltinha básica, cheia de desejos (e futuras novas dívidas... ai ai ai!).

Fiz esse movimento e me estendi um pouco: fui às estantes de livros para jovens adolescentes, já que duas de minhas filhas estão em plena teenager: fourteen e sixteen. Vi vários livros “moderninhos” que achei que elas gostariam de ler, mas livros que a meu ver estavam, ao menos naquele momento, muito longe de transmitirem o que eu gostaria que elas lessem. Queria algo de mais consistente. Mas, claro, adequado à idade delas. Hesitei entre vários, uns eu achava mais adequados, outros menos inadequados, e outros ainda completamente fora de propósitos. Na verdade minha dificuldade em escolher é que meus gostos e interesses são naturalmente e em grande parte muito diferentes dos delas (pois eu já estou bem crescidinha hehehe!). Por isso, no fundo, não costumo ler livros para adolescentes (e acho que vou ter que me inteirar mais sobre eles, ao menos para tentar educá-las melhor).


Eu me consumo um bocado ao vê-las tão dispersas (ou concentradas demais) em multishows, televisões, celulares, videoclipes e programas da internet. Não que eu ache que essas coisas sejam nocivas. Penso que toda essa tecnologia nos trouxe grandes vantagens e avanços em vários sentidos. Bem usada é uma maravilha! Mas o que me preocupa é perceber que o interesse geral da moçadinha teen está concentrado demais na vida hightech e passa a anos-luz do interesse por um bom livro de literatura. Tá certo que eu quando era teen não era lá uma leitora tão assídua. Eu me inclinava à leitura, lia, mas ainda timidamente. De qualquer modo percebia que ler bons livros era algo muito importante. Por isso, em meio às dispersões e loucuras daquela época, volta e meia eu descolava um bom livro pra ler, especialmente romances.

Putz... que mania que eu tenho de fazer rodeios. Vamos ao ponto!

Pensei: ─ Será que eu não encontraria aqui algum que viesse ao encontro dos interesses dela e também dos meus? Algum bom livro que me deixasse satisfeita em saber que elas gostaram de ler? Algum que despertasse nelas o gosto pela boa leitura? Nessa dúvida cruel, para minha surpresa, dei de cara com O Adolescente de Dostoiévski. Senti uma esperança e prazer enormes naquele momento. Eu não sabia (desculpem a ignorância) que Dostoiévski havia escrito esse livro. Li vários outros dele, mas desse eu nunca tinha ouvido falar. Folheei algumas páginas. Vi que Dostoiévski escreve-o em primeira pessoa (e eu adoro a escrita na primeira pessoa... rs um de meus traços egocêntricos!). Vi que se tratava do pensamento de um personagem adolescente: uma trama dostoievskiana contada por um protagonista adolescente de aproximadamente duzentos anos atrás, ou seja, que viveu num tempo, num país e sociedade completamente diferentes da nossa, e mais, de um adolescente que vive e pensa com a cabeça e a imaginação de um ser denso e subterrâneo como Dostoiévski ─ o próprio, of course!

Pensei: ─ acho que elas não vão gostar. Não me parece apropriado à idade delas, mas vou arriscar, mesmo porque eu já não conseguia mais desgrudá-lo de minhas mãos. Eu estava sedenta de curiosidade !!! Levei o livro pra casa, mostrei-o a elas e, de fato, minhas suspeitas se confirmaram: elas não se mostraram propriamente interessadas nele. Eu, ao contrário, devorei-o em dois dias.

Eis então uma amostrinha da ideia central do adolescente Arkádi Makárovitch Dolgorúki, filho bastardo (um dado crucial da trama) de Andrei Petróvitch Versílov e de uma criada, Sófia Andréiena, casada com um dos servos de Versílov.

Num encontro na casa de Dergatchov, onde se reuniam alguns colegas, Arkádi se envolve numa discussão que se tratava “de uma afirmação de Kraft [um dos colegas], um tanto surpreendente, de que o povo russo é um povo de segunda categoria, que serve unicamente de matéria a uma raça mais nobre” (p.44). Bom, como se pode perceber, o assunto é sério! A discussão toma vários rumos: passa pelas ideias de patriotismo, do bem da humanidade, da liberdade de pensamento, de preconceitos, enfim...

A princípio Arkádi apenas ouvia tencionando “não entrar na discussão para evitar julgamentos”, pois nunca fora “afeito a reuniões sociais, grupinhos e coisas do gênero” (p.43). Mas conforme o clima vai esquentando Arkádi se empolga e rompe seu silêncio percebendo que não havia mais volta. Ele “receava que aquela turma de filósofos de plantão ficasse sabendo de sua ideia e fizesse picadinho dela” (p.46). Ao abrir a boca e proferir uma de suas opiniões Arkádi ouve uma voz bastante sarcástica se destacando no grupo. Um professor, chamado Tikhomírov desafia-o (à queima-roupa) a apresentar sua ideia. Vejam só!


“... que me deixem em paz no meu canto! Vou viver sozinho, sem depender de ninguém, arcando com as consequências disso; enquanto tiver dois rublos no bolso, não farei nada pela humanidade ou por quem quer que seja. A liberdade individual me interessa acima de tudo. Minha dívida com a sociedade é paga por meio dos impostos, e espero com isso garantir minha segurança. Não se pode exigir mais nada de mim. Talvez no fundo eu pense diferente; talvez eu queira, sim, servir à humanidade, e o farei, quem sabe muito melhor do que qualquer monge ou benfeitor. Mas não acho justo que cobrem isso de mim, que me obriguem a ser caridoso, a submeter minha liberdade pessoal em prol de uma suposta liberdade coletiva. Se não mexer uma palha para o bem-estar comum, devo ainda assim ter minha liberdade garantida. Está na moda ficar se agarrando no pescoço dos outros e chorar por amor à humanidade. Moda, só isso. Por que devo amar o próximo, ou a um irmão imaginário de uma humanidade futura que não vou conhecer, e que tampouco me conhecerá? Um dia a humanidade também sumirá do mapa sem deixar vestígios, e a Terra vai virar uma bola de gelo que voará no espaço vazio ao lado de um monte de bolas de gelo iguais a ela. Não há nada mais maluco para se imaginar do que isso! Por que, por que ser generoso quando tudo dura apenas um instante?

─ Blá-blá-blá! ─ gritou uma voz.

Joguei-me no abismo. E queria cair depressa, para não ter tempo de ser barrado por ideias contrárias. Queria convencer a todos de uma vez, atropelá-los com meus pensamentos sem que houvesse réplica. [...] Sim, há o argumento de que agir em favor da humanidade também é parte do interesse individual. Mas não vejo razão nisso. Tenho só uma vida para viver! Prefiro eu mesmo conhecer meu interesse e viver para mim. Os outros que se lixem” (p.47-48)!

Bom, provavelmente algumas pessoas agora estejam com o estômago revirado, achando o fim da picada esse discurso do adolescente. Ele mesmo diz: “Sei que a liberdade de pensamento é de digestão um tanto difícil para o estômago da moral, que não é nada elástico. Para mim, o mais importante é ter encontrado um ideal. Pouco importa que ele seja o mais errado do universo. Talvez eu o aperfeiçoe e consiga transmiti-lo mais claramente dentro de uns dez anos” (p.67).

Ora ora, mas essa ideia é só o começo da picada rsr. Não quero aqui estragar o prazer da descoberta daqueles que ainda não leram esse livro. Como disse, essa é só uma amostrinha dos temas demasiado humanos, tão recorrentes no pensamento deste autor, digamos assim, de peso pesado: intrigas, brigas de família, disputas de heranças, jogatina, conflitos morais, paixões, amor, ódio, enfim, traições, temores, dúvidas, incertezas e contradições relatadas por um jovem idealista que vive como quem “dança no fio da navalha à beira de um abismo” (para parafrasear meu amigo Rodrigo Fregnan).

(Dostoiévski, Fiódor. O Adolescente; adaptação e apêndice Diego Rodrigues. São Paulo: Companhia das Letras, 2010).

[depois disso obviamente terei de voltar à livraria, de preferência acompanhada de minhas próprias adolescentes, pra que cada uma delas escolha um livro que venha ao encontro de seus interesses e gostos. acho que o livro (embora dito “adaptado”) estava classificado na estante e seção inapropriadas: não é porque o título é O Adolescente que sua leitura cai bem aos adolescentes, especialmente desses nossos “tempos modernos”, embora eu acredite na possibilidade de que alguns adolescentes possam se interessar por essa magnífica obra. quem sabe (I hope), quando minhas filhas crescerem mais um pouquinho elas passem a apreciar Dostoiévski].