quarta-feira, outubro 30, 2013

Eros e Thanatos

Num daqueles dias em que perambulo ao léu... procurando qualquer coisa que arrebente ou arrebate meu coração, ou mesmo que o estraçalhe de uma vez por todas, encontrei esse belo hino de Lou Andreas-Salomé. Não resisti à tentação. Não resisti a esse impulso de vida... e de morte! Voici!

Hino à Morte

No dia em que eu estiver no meu leito de morte
Faísca que se apagou -,
Acaricia ainda uma vez meus cabelos
Com tua mão bem-amada
Antes que devolvam à terra
O que deve voltar à terra,
Pousa sobre minha boca que amaste
Ainda um beijo.
Mas não esqueças: no esquife estrangeiro
Eu só repouso em aparência
Porque em ti minha vida se refugiou
E agora sou toda tua.

(NOVAES, Adauto (org.) Os Sentidos da Paixão. São Paulo: Cia das Letras, 1987)


[Jardin du Luxembourg. La fontaine Médicis. Polyphemus surprising Acis and Galatea (1866). Auguste-Louis-Marie Jenks Ottin (1811-1890)]

domingo, outubro 20, 2013

Dos umbrais do inferno


"... os pensamentos são tiranos que retornam várias e várias vezes para nos atormentar."


“... pois que é que existe, ante mim, que não esteja ligado a ela? Que é que não me lembra dela? Não posso sequer olhar para o chão, pois vejo as feições dela esculpidas nestas lajes. Em cada nuvem, em cada árvore enchendo o espaço; à noite, refletindo-se em cada objeto; durante o dia, vivo cercado pela imagem dela! Os mais vulgares rostos de homem ou de mulher, minhas próprias feições, zombam de mim com a sua semelhança. O mundo inteiro é uma terrível coleção de lembranças da existência dela e de que a perdi”!

[...]

“Não tenho medo, nem pressentimento, nem esperança de morte. [...] Contudo, não posso continuar assim! Tenho que me lembrar de respirar, tenho quase que lembrar meu coração de bater! Vivo como se me impulsionasse uma mola endurecida: é constrangido que realizo o ato mais insignificante, desde que esse ato não dependa daquele pensamento único; é constrangido que reparo em qualquer coisa viva ou morta, se ela não está associada à ideia que é para mim universal. Um único desejo alimento, e todo o meu corpo, todas as minhas faculdades anseiam por atingi-lo. Vêm ansiando por isso há tanto tempo, e tão inflexivelmente, que estou convencido de que esse desejo será satisfeito, e em breve, porque já devorou minha existência: já fui tragado pela expectativa de sua realização. [...] Oh, Senhor, que luta sem fim e como eu quisera vê-la acabada!"

(BRONTË, Emily. O Morro dos Ventos Uivantes. Tradução de Rachel de Queiroz. São Paulo: Abril, 2010. [p.404-405])

terça-feira, outubro 01, 2013

Da tristeza


"Falar está acima de minhas forças, minha língua engrola, uma chama sutil percorre-me as veias, mil ruídos confusos soam-me aos ouvidos e o véu da noite estende-se sobre os meus olhos" (Catulo apud Montaigne. Ensaios I).

[Portrait of a Woman, by Anna Lea Merritt (1844-1930)]