sábado, julho 30, 2016

Canção da Partida



Pousa de leve
Inda que um breve
Momento, a tua mão de neve
Sobre meu triste coração
Ainda é cedo…
Guarda o segredo
E pousa leve, como a medo,
Sobre minha alma a tua mão.
Como é que na alma
Pousa uma palma
De mão e como é que a acalma
De toda a dor que não tem fim?
Não sei sabê-lo.
No meu cabelo,
Ao menos, pousa, com desvelo,
Tua mão leve, de marfim.
Que é a vida? Nada.
A sorte? Estrada
Que leva só a alma enganada
Por onde vai e onde não quer…
Que é a alma? Um sono?
Ser? O abandono
De ser, e as folhas que no outono
O ouvido sente anoitecer…

[Fernando Pessoa. In: Poesia 1918-1930. Assírio & Alvim, 2005]

sexta-feira, julho 15, 2016

Anonimato

Caro anônimo, é minha atenção que você quer? Então, aproveite...



Quem é você para dizer qualquer coisa a respeito do que eu devo ou não fazer agora ou em qualquer tempo? Você não sabe de nada, my dear, absolutamente nada, a não ser o que você pesca e presume fuçando a vida dos outros pelos blogs e redes sociais. Por que não me envia teus comentários diretamente em meu email, em teu próprio nome? Tem medo de quê? De que eu te meta um processo? Larga de ser covarde!

Ao ler o que eu escrevo, fofo, você não consegue distinguir o que é realidade e o que é ficção. Não conhece a minha capacidade de confundir os sinais, jogar com ambiguidades, inventar e inverter personagens e situações, servir-me de estratégias literárias e recursos retóricos. Você não tem acesso ao que penso e sinto, tampouco à minha vida real e atual. Tem que se contentar com tua imaginação paranoica. Qualquer dado que você tenha é público, baby (coisa de facebook e blog). Minha vida real e privada não te pertence.

Qual o propósito de teus comentários “anônimos”? Não me esqueceu? Tá com saudades, 'amore' rs? Por que te interessa tanto meu blog? Aliás, por que você lê o meu blog? Por que te interessa saber o que gosto ou deixo de gostar? Por que te preocupas com o que sinto, o que guardo em meu coração ou faço da minha vida? Ora, por que você não me esquece?

Sabe de nada, inocente...


domingo, julho 03, 2016

Entorpecida


"Foi no teatro que conheci John e descobri o poder de uma voz. Ela fluiu para mim como notas de órgão, fazendo-me vibrar. Quando ele repetiu meu nome e errou a pronúncia, soou como uma carícia. Era a voz mais grave e encorpada que eu já tinha ouvido. [...] Ele seguiu falando, olhando para mim, mas eu não estava ouvindo. [...] Cada vez que ele falava, eu me sentia caindo em uma espiral vertiginosa, caindo nas malhas de uma voz maravilhosa. Era uma verdadeira droga."

[Nin, Anaïs. Delta de Vênus, p. 68-69]