sexta-feira, agosto 17, 2018

Imóvel e perene



"Eu sou bela, ó mortais! como um sonho de pedra" (...), diz a Beleza, essa divindade impassível cujo "(...) olhar, largo olhar" é feito de "clarões eternais".


Baudelaire | A Beleza | In: As Flores do Mal | Tradução de Jamil Haddad | São Paulo | Max Limonad | 1981



Resting | 1876 | by Victor Gabriel Gilbert | 1847-1933 | oil on canvas

quarta-feira, agosto 15, 2018

Besteirol




Adoro sonhos. Os sonhos do sono. Os sonhos da imaginação,
dos delírios e ilusões. Mas adoro também os sonhos de goiabada e de doce de leite. Ontem de tarde comprei um sonho de goiabada. Fui comê-lo há pouco. Fiz aquele café preto bem quente. O sonho estava um pesadelo de tão duro. Foi um sonho broxante.

Sempre como sonhos. E sempre sonho muito. Acho que posso dizer, então, que conheço os sonhos (inclusive, em uma época da minha vida, quando morei em Curitiba, eu mesma fazia meus sonhos - sonhos de goiabada... e fritos). Certamente esse sonho que comprei não foi feito no dia. Ou, se foi, o padeiro, a massa, a receita e o comerciante são todos ruins. Creio que nunca comi um sonho tão enganoso...

Londrina 
31.10.2015
10 hs

(desta vez, no original, sem edições)


segunda-feira, agosto 13, 2018

A alma de volta


VII

Que te devolvam a alma
Homem do nosso tempo.
Pede isso a Deus
Ou às coisas que acreditas
À terra, às águas, à noite
Desmedida,
Uiva se quiseres,
Ao teu próprio ventre
Se é ele quem comanda
A tua vida, não importa,
Pede à mulher
Àquela que foi noiva
À que se fez amiga,
Abre a tua boca, ulula
Pede à chuva
Ruge
Como se tivesses no peito
Uma enorme ferida
Escancara a tua boca
Regouga: A ALMA. A ALMA DE VOLTA.




Hilda Hilst — 'Alma
Poemas aos homens do nosso tempo.
In júbilo, memória, noviciado da paixão .
homenagem a Pavel Kohout


sábado, agosto 11, 2018

Eca...


Há pouco vivi um episódio dramático com uma barata. A primeira que vi neste pequeno e aconchegante apartamento. Certamente entrou pela janela. Era grande e voadora. Asquerosa e nojenta (como toda barata): eca!. Surpreendi-a na parede do meu quarto. Um ohhhorror!

Primeira coisa que pensei: não há um homem para matá-la. Eu mesma terei de dar conta dela. Eu mesma terei de enfrentá-la. Não há veneno. E ela não pode sumir, pois a pior coisa que existe é saber que há uma barata em algum lugar e não encontrá-la. Corri para pegar uma vassoura temendo perdê-la de vista. Não a perdi. 

- Ai, ai, ai meudeus, e agora? 

Arremessei a vassoura contra ela, mas ela escapou. Horror dobrado. Que luta inglória. Tentei de novo e não consegui. E ela sumiu. Endoideci. 

Pânico total. Só um veneno poderia aniquilá-la. Corri na vizinha, toda chorosa, pedindo um veneno peloamordedeus. Ela não tinha. Por sorte chegava uma outra vizinha. Pedi a ela. E essa tinha. Voltei armada e comecei a espirrar veneno debaixo e detrás da cama, criados-mudos, cantos do chão e do teto. Aproveitei e passei no banheiro, na sala e na cozinha - quase me envenenei junto. 

E fiquei só observando... até que a avistei, toda-toda-horrorosa, num dos criados-mudos, praticamente dentro do meu nécessaire. Mas ela estava na borda e caiu. Começou a baratear tontamente. Peguei a vassoura novamente e golpeei-a várias vezes. Mas ela estava louca, tentando sobreviver heroicamente. A fdp grudou na vassoura... hugh... eca... Abri a janela, toda trêmula e agitada, e atirei-a para fora. Que alívio! É mesmo de arrepiar! 

Depois, fiquei imaginando (do ponto de vista da barata) o que ela pensaria ao ver um SER gigante, pálido, cheio de antenas loiras esvoaçantes, olhos e "patas" enormes, e uma boca cheia de dentes, gritando, pulando pra cá e pra lá, com umas armas esquisitas em umas patas mais esquisitas ainda - um SER enlouquecido... etc... etc... etc... e me lembrei, mutatis mutandis, de A Metamorfose do Kafka.



Me and my notebooks  

Chapecó-SC 
19/10/2015
segunda-feira
00:26 h


domingo, agosto 05, 2018

Diletantes, diletantes!





Os escritos filosóficos considerados menores de Arthur Schopenhauer, Parerga e Paralipomena [1851] (traduzido por Restos e Acessórios), traz um título bastante estranho, mas que se esclarece em seu subtítulo: "Pensamentos isolados, todavia ordenados sistematicamente, sobre diversos assuntos".

Pode-se dizer que essa obra é uma espécie de coletânea de pequenos ensaios filosóficos sobre temas variados. Nela, Schopenhauer discute questões fundamentais que já foram desenvolvidas em algumas de suas obras anteriores como, por exemplo, em O mundo como vontade e representação [1818] ou em Sobre o fundamento da moral [1840], mas discute também assuntos mais prosaicos como, por exemplo, em Sobre as mulheres, a natureza, o valor e a aptidão das mulheres - um escrito polêmico sobre o qual já  me meti a comentar aqui - o que, por sua vez, causou a fúria de grande parte do meu parco exército de leitores anônimos (cujos comentários ofensivos não foram publicados), e alguns pequenos debates interessantes.

Contudo, não vim aqui para falar sobre as mulheres, mas sim para apresentar uma curiosa passagem de A arte de escrever: uma pequena coletânea de cinco escritos extraídos dos Parerga e Paralipomena (na tradução de Pedro Süssekind) que a LP&M, em sua primeira edição, publicou em 2005. Em tais ensaios, Schopenhauer tece considerações a respeito de diversos assuntos relacionados à literatura. 

Ele critica de modo sempre muito contundente e, às vezes, até mesmo muito engraçado, mal-humorado (as usual), e, ainda, de modo injusto, a literatura de consumo, buscando identificar a decadência da literatura por intermédio de uma crítica aos escritores eruditos de sua época, sobretudo da Alemanha. Conforme Süssekind assinala, nestes curtos ensaios ele também defende "um outro tipo de produção literária que possa ser contraposto ao então vigente" (p.9). Mas o ponto aqui não é esse.





 Vamos à passagem:

"Diletantes, diletantes! - Assim os que exercem uma ciência ou uma arte por amor a ela, por alegria, per il loro diletto [pelo seu deleite], são chamados com desprezo por aqueles que se consagram a tais coisas com vistas ao que ganham, porque seu objeto dileto é o dinheiro que têm a receber. Esse desdém se baseia na sua convicção desprezível de que ninguém se dedicaria seriamente a um assunto se não fosse impelido pela necessidade, pela fome ou por uma avidez semelhante. O público possui o mesmo espírito e, por conseguinte, a mesma opinião: daí provém seu respeito habitual pelas 'pessoas da área' e sua desconfiança em relação aos diletantes. Na verdade, para o diletante, ao contrário, o assunto é o fim, e para o homem da área como tal, apenas um meio. No entanto, só se dedicará a um assunto com toda a seriedade alguém que esteja envolvido de modo imediato e que se ocupe dele com amor, con amore. É sempre de tais pessoas, e não dos assalariados, que vêm as grandes descobertas" (Schopenhauer | Sobre a erudição e os eruditos | § 6 | p.23).

Well, nada impede alguém da área de se ocupar de seu assunto com amor, e de um assalariado fazer grandes descobertas. Quer dizer, "alguém da área" e "ocupar-se de seu assunto com amor" não são coisas necessariamente excludentes, tampouco um "assalariado" fazer "grandes descobertas". Mas sabemos que Schopenhauer possui uma verve acalorada, considerada muitas vezes no mínimo politicamente incorreta, e o que ele quer mesmo dizer é que "para a imensa maioria dos eruditos, sua ciência é um meio e não um fim, [...] e que a verdadeira excelência só pode ser alcançada, em obras de todos os gêneros, quando elas forem produzidas em função de si mesmas e não como meios para fins ulteriores" (§ 4, p.21). 

No entanto, os fatos parecem contradizer essa teoria se pensarmos, por exemplo, nas condições sob as quais, de acordo com o que a história nos conta, muitas vezes, Balzac e Dostoiévski produziram suas obras, ou seja, para pagarem suas dívidas.  Talvez se Schopenhauer tivesse incluído um 'apenas', a frase acima citada teria soado melhor: "a verdadeira excelência só pode ser alcançada, em obras de todos os gêneros, quando elas forem produzidas em função de si mesmas e não [apenas] como meios para fins ulteriores". Pois nada impede que os artistas, literatos, escritores e filósofos se sustentem ou ganhem dinheiro com a arte e/ou a ciência que os envolvem con amore, ou com as quais eles se envolvem per amore. 


domingo, julho 29, 2018

O dia do juízo


"Aviso: a não ser que prefirais o inferno ao céu (pois há gosto para tudo, e o inferno de muitos - ó preciosa liberdade de escolher – é o céu de inumeráveis), de nenhum modo, e nem por isso, deveis descuidar-vos em vida, tendo presente que o vosso reino, este, aquele, ou aqueloutro, começa no lugar em que tiverdes apoiado os pés. Que até lá, a existência vos pese menos que uma pá de cal. 
Saudações e paz." 

Rosário Fusco | in: Dia do Juízo |  Rio de Janeiro | José Olympio | 1961 | p.250


Juízo Final | 1570 | by Marten de Vos



Encontrei a citação acima, por acaso, quando navegava à procura de informações sobre esse autor tão interessante e, ao mesmo tempo, tão pouco conhecido. Fusco é considerado um escritor maldito que traz em sua escrita preocupações já discutidas por tantos outros escritores e filósofos: as relações entre o homem e Deus, o bem e mal, o real e o ilusório, a dor e o sofrimento, o sentimento de culpa, o instinto e a moralidade dos costumes, os infernos psíquicos and so on

Porém, eu ainda nem li o romance, última obra dele, apesar de ter ficado curiosíssima, em virtude da mordacidade da citada passagem e de todas as outras coisas que li a respeito dele e de suas obras. Mas, registre-se, eu nem acredito nesse tal dia do juízo final, embora o tema, como crença muito difundida entre as diversas religiões, seja filosoficamente instigante. That's all!


***

[Ops, mais uma coisa: sobre esse tema, Juízo Final, tratei numa entrevista informal "sobre o fim do mundo", em 2006, tempo em que ideia levava acento e ainda se usava trema. Acesso em http://mariliacortes.blogspot.com/search/label/Ju%C3%ADzo%20Final  São IX questões dispostas em ordem inversa, isto é, deve-se rolar a página até o fim e iniciar a leitura debaixo para cima. Fiz uma revisão, mudei algumas imagens, mas não alterei em nada as minhas respostas ].


segunda-feira, julho 23, 2018

Click




Sorria!

Você está sendo
vigiado
controlado
monitorado
criticado
julgado

oh, não
nada disso
apenas
fo-to-gra-fa-do

Sorria mesmo assim!


quinta-feira, julho 19, 2018

domingo, julho 15, 2018

Refrigescere


A Pantera
(No Jardin des Plantes, Paris)

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.



[ Rainer Maria Rilke | Novos poemas I | (1907) | In: CAMPOS, Augusto de (organização e tradução) | Coisas e anjos de Rilke | São Paulo | Perspectiva | 2013 | p. 120-121 ]




(não entendo nada de alemão, mas eis, abaixo, o poema na língua original)



Der Panther
(Im Jardin des Plantes, Paris)

Sein Blick ist vom Vorübergehn der Stäbe
so müd geworden,dass er nichts mehr hält.
Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe
und hinter tausend Stäben keine Welt.

Der weiche Gang geschmeidig starker Schritte,
der sich im allerkleinsten Kreise dreht,
ist wie ein Tanz von Kraft um eine Mitte,
in der betäubt ein grosser Wille steht.

Nur manchmal schiebt der Vorhang der Pupille
sich lautlos auf -. Dann geht ein Bild hinein,
geht durch der Glieder angespannte Stille –
und hört im Herzen auf zu sein.

[Rainer Maria Rilke | in “Neue gedichte – I” (1907)]



Rilke
by Helmuth Westhoff
 1902

quarta-feira, julho 04, 2018

Existência


Não sei se és real. Há qualquer coisa em ti que depõe contra a tua existência. Talvez sejas mesmo irreal e só aos meus olhos sejas aquilo que tu és. De qualquer forma, só com os meus olhos posso ver-te – e nada garante que eles não estejam enganados. Quem sabe sejas tu um delírio meu, ou sejas onírico, ou mesmo alucinatório. Como posso eu provar a tua existência? Eu poderia tocar-te, mas quem garante que o meu tato seja mais confiável que a minha visão? Eu poderia com gosto provar da tua saliva, do teu suor ou do teu sangue, mas tampouco confio em meu paladar. Eu poderia ainda farejar-te, como fazem os cães, mas nada leva a crer que o meu olfato tenha mais acesso a ti do que os outros sentidos. Porém, quando escuto a tua voz, sei que alguma parte de ti deve existir, pois que tua voz me fala de arcaicas tempestades, tragédias há muito sepultadas, festejos de um deus estrangeiro e bárbaro, algo em tua voz me traz de volta à Hélade, a Atenas do século V a.C., estando tu misturado à plateia no teatro de Dioniso, quando Ésquilo encenava a Oresteia, ou quando Eurípedes a Fedra ou quando Sófocles o Oedipous Rex.

[ Ygor Raduy | in: Pequeno Manual de Coisas Absolutamente (In)Úteis | p.4 ]



male figure in red
by Ygor Raduy

segunda-feira, junho 18, 2018

De olhos bem vendados


Imaging Red |Asya Kucherevskaya


Nunca, na história deste país, os fatos contradisseram tão bem o velho ditado-clichê segundo o qual a justiça tarda, mas não falha. Aqui, em nossa corrupta e mal administrada res publica, a justiça não apenas tarda, mas, na maioria das vezes, também falha. E, pior, agoniza!

Aliás, eu diria, não apenas aqui, na história deste país, e agora, em nosso tempo (nesse caso, o "nunca" introduz o assunto aqui apenas como recurso retórico). Se houve na história da humanidade, acho eu, um tempo e lugar no qual a justiça (pensemos especialmente naquilo que costumamos chamar de justiça social) se fez efetivamente justa, prevalecendo sobre as injustiças, esse tempo deve ter sido muito curto. Não é à toa que desde Sócrates e Platão essa virtude cardeal par excellence  foi e continua sendo matéria de diversas controvérsias, teorias, teses e dissertações.

É claro que alguns vão dizer que Deus - o supremo legislador moral - está vendo e fará a justiça prevalecer no dia do juízo final, que não compreendemos seus onibenevolentes desígnios, que Ele nos reserva um verdadeiro paraíso no além, e que, em algum momento, todos os males serão punidos e todos os bens recompensados, ou mesmo que, do ponto de vista da eternidade ou do todo (que ninguém jamais alcança, diga-se de passagem, exceto o próprio Deus, caso exista), os males, misérias e injustiças que superabundam no mundo serão, ao fim e ao cabo, bens para o universo.

Well, mas isso, diriam outros, já seria sair do exame da vida ordinária, ultrapassar o alcance e os limites de nossas faculdades e adentrar o reino das fadas, centauros e dragões.


Giulio Aristide Sartorio | Studio per la Gorgone e gli eroi


terça-feira, junho 12, 2018

A morte feliz




"... Tudo se esquece, até mesmo os grandes amores. É o que há de triste e ao mesmo tempo de exaltante na vida. Há apenas uma certa maneira de ver as coisas, e ela surge de vez em quando. É por isso que, apesar de tudo, é bom ter tido um grande amor, uma paixão infeliz na vida. Isso constitui pelo menos um álibi para os desesperos sem razão que se apoderam de nós".

[Albert Camus | A Morte Feliz]


quarta-feira, maio 30, 2018

Da imensidão do mar


Pena Líquida

Saudade,
dor de talento solitário,

sinonímia de banzo. Dor
de arrasto recolhida

ao leito das lembranças,
que nos condena à penitência

das aves sem voos,
de passos sem presença

e na esperança de retorno
do outro nos alinha.

Saudade é a pena líquida
que polimos quando

o objeto amado
de nós se distancia

em ausências sem esperas
ou em esperas sofridas.

[Marina Alice da Luz Ferreira]





Marina Alice foi, outrora, minha professora no curso de Comunicação Social da UEL (1982-1984). Coincidentemente, no dia em que minha primeira filha, Marina, nascia (1985), Marina Alice apareceu nos corredores da maternidade e presenciou-me andando e chorando um pouco as dores e o medo do parto que se aproximava. Um parto que se tornou cesária. Nunca me esqueci daquele dia, daquela cena, tampouco do abraço carinhoso de "boa hora" da Marina Alice. E jamais se esquece também do nascimento de uma filha.

Há não muito tempo soube pelo facebook (sim, o facebook é uma entidade falante) que Marina Alice escrevia poesias. Saquei melhor o porquê de ter sentido uma admiração e simpatia imediatas por ela. 

Marina tem poesia dentro dela
e mar... mar... 
mar...



O poema apareceu em minha timeline dedicado aos amigos queridos com as seguintes palavras:

"uma pausa do caos externo para pautar o que me vai na alma." 


quinta-feira, maio 24, 2018

A cell phone call



Lá estava ela
toda nua
e molhada
suspirando alto
e solenemente
como ama
um banho quente
quando
de repente
vibra o celular
e toca
impune e desavergonhadamente

triiiiim
(palpita o coração)
(é ele...)
triiiiiim
(para o coração)
(é ele...)
triiiiiim
(dispara o coração)
(é ele...)
trim trim trim trim trim trim trim trim


segunda-feira, maio 14, 2018

Abismo-me


"Por mágoa ou por felicidade, sinto às vezes vontade de me abismar."

[ Barthes, Roland | Fragmentos de um Discurso Amoroso | p.9 ].

Abisme-se!


[photo by Taida Celi ]


sexta-feira, maio 11, 2018

sexta-feira, maio 04, 2018

Voyages V


Meticulosos, após a meia-noite em clara geada,
Infrangíveis e solitários, suaves como moldados
Em conjunto numa só impiedosa lâmina branca –
Os estuários da baía pontilham os severos limites do céu.

– Como que friáveis ou claros demais para tocar!
As cordas de nosso sono tão rapidamente dispostas,
Já pendem, pontas rasgadas de estrelas relembradas.
Um só sorriso gelado sem rastros... Que palavras
Podem asfixiar esse surdo luar? Pois nós

Somos tragados. Agora nenhum grito, nenhuma espada
Pode comprimir ou desviar essa cunha das marés,
Retardar a tirania do luar, luar amado
E transformado... “Não existe

Nada assim no mundo”, dizes tu,
Sabendo que não posso tocar tua mão e olhar
Também naquela fresta ímpia do céu
Onde nada gira a não ser a areia faiscante.

– “E nunca entender plenamente!” Não,
Na frota de teus cabelos brilhantes nunca sonhei
Tal navio sem bandeira, uma pirataria dessas.

Mas agora
Aproxima tua cabeça, sozinha, alta em demasia.
Teus olhos já no ângulo da espuma que se afasta;
Tua respiração, selada por fantasmas que não conheço:
Aproxima tua cabeça e dorme a longa viagem para casa.


[ Hart Crane (1889-1932) | tradução de Denise Bottman ]


Hart Crane by Walker Evans
....................

Às vezes o facebook nos traz coisas muito boas. Não conhecia esse poema de Crane. Segundo a própria tradutora, de quem "roubei" o belo poema, Crane era um rapaz torturadíssimo que se matou aos trinta e dois anos. Seu amante mais amado era um marinheiro dinamarquês, Emil Opffer. Daí as referências ao mar, à despedida e à viagem (de Emil) de volta para casa.

Dei uma googlada e soube também que ele se suicidou saltando do navio que o levava a New York. 

Vinicius de Moraes dedica a ele um poema intitulado 'O poeta Hart Crane suicida-se no mar', acesso aqui a quem interessar possa.


sábado, abril 07, 2018

A velha e soberana verdade


Bah!!!
estou farta de
opiniões
opiniões
opiniões!

proclama a voz da velha e soberana Verdade
 essa metida a besta e sabe-tudo

blá blá blá
Blá Blá Blá
BLá BLá BLá
BLÁ BLÁ BLÁ

burburinham seus súditos 
ph*didos 

em meio ao caos geral da nação



La Verité | 1901 
Luc Olivier Merson
(1846-1920)
huile sur toile
Musée d'Orsay | Paris | France

quarta-feira, abril 04, 2018

Por quê?





Hey, boy,
por que apagaste
as linhas de meus horizontes?

Hey, boy,
por que empalideceste
o alvorecer de minha manhã?

Hey, boy,
por que ocultas
o meu sol?

Hey, boy,
por quê?


[ digital collage by © Fajar P. Domingo ]


........................................

Mais tarde, minha sobrinha (Lully), nos comments do facebook, arrematou o poema com um:

"Damn, boy, f**k u !"

(confesso que adorei, rs)

segunda-feira, março 19, 2018

Chá de espera

Segunda-feira cedo. Horário no oftalmologista às 9h. Havia me esquecido completamente. Programei o despertador para às 9h mesmo, já que tinha ido dormir de madrugada. Porém, acordei sozinha em torno das 8h15min e fiquei ali enrolando um pouco na cama, comme d’habitude, uma vez que tal compromisso nem me passava pela cabeça (algo raro, pois não costumo me esqueçer de um compromisso). De repente, às 8h28min, acendeu um letreiro em minha tête com a informação: oftalmo às 9h.

Bah! e agora? Preciso de um banho e, em geral, sou bem lenta para isso. Well, terei de ser rapidíssima. Corri, joguei uma água no corpo, escovei os dentes, fiz um café, passei um secador nos cabelos, me vesti, coloquei meus anéis, pulseiras, brincos, sapatos e tudo mais.  Resolvi, então, ligar no consultório para avisar que poderia me atrasar uns minutinhos. A secretária me disse: será que você conseguiria chegar lá pelas 9h10min? Eu disse: claro!!! E saí toda esbaforida. Cheguei às 9h03min. São 9h42min. Até agora nem sinal do médico. Simplesmente ele não chegou ainda. E a sala de espera está cheia. Assim como a minha paciência! Humpft!

photo by Stephanie Jager 
Alice in Wonderland

sábado, março 10, 2018

Deslumbramento


É amor? Não sei. Esta intranquilidade,
Este gozo na dor, esta alegria
Triste que vem de manso e que me invade
A alma, enchendo-a e tornando-a mais vazia;

Este cansaço extremo, esta saudade
De uma cousa que falta à vida... O dia
Sem sol, as noites ermas, a ansiedade
Que exalta e a solidão que anestesia,

É amor. Egoísmo de sofrer sozinho,
De as penas esconder do humano açoite,
De transformar as pedras do caminho

Em carícias sutis para colhê-las
E andar como um sonâmbulo, na noite,
Escancarando os olhos às estrelas...

[ © Olegário Mariano |  In: Canto da minha terra ]


sábado, março 03, 2018

Notas sobre um acidente



Derrapou! E eis que salta a gigantesca abóbada do império. O automóvel toma vida própria, tal como se dissesse.

─ My lady, agora quem manda aqui sou eu. Adeus e passe bem, talvez mesmo desta para melhor. No freedom, no liberty, no power. Não há nada que possas fazer. Não há braço, cálculo, controle. Não há destreza, freio, câmbio, pneu ou direção. Testemos as engrenagens de tua vida. Vejamos se os gonzos estão bem ajustados. Testemos a tua sorte.

A estrada é perigosa. Não é à toa que a chamam de estrada da morte. Naquele minuto, a mente relê a história ─ a 120 quilômetros por hora. Dentro, tudo gira sobre si ao som de estilhaços. Fora, há o frio, a garoa, a neblina, a curva, o óleo na pista, o barranco, a vala, a lama.

Vê-se a viola em cacos. Os óculos, os sapatos, o notebook,  a tese. Livros, artigos, documentos, celulares ─ a vida  ─ tudo pelos ares.  Capotadas, piruetas, solavancos, hematomas e dores pelo corpo. But no cuts, no bloodno serious injuries, no broken bones. Lá se vai um brinco. Também um carro, um presente, um passado.


photo by © Tami Bone

quarta-feira, fevereiro 28, 2018

Hey


alguém aí 
teria a bondade
de me aplicar uma
anestesia geral
para aplacar 
essa minha dor
existencial?


terça-feira, fevereiro 20, 2018

Indecisão Amorosa


Então me digo:
“Não vou mais vê-la”
e no dia seguinte
quero tê-la.

Então me digo:
“É a última vez”
e me resigno.
Mas quando anoitece
sou eu quem ligo.

“Começo a esquecê-la”,
me repito.
E numa esquina
invento vê-la.

De novo afirmo:
“Melhor parar”
e aí começo
a desesperar.

O tempo todo
a estou deixando
e mais a deixo
partido
ao seu amor regresso
e partindo
vou ficando.

(Affonso Romano de Sant’Anna)


segunda-feira, fevereiro 12, 2018

Everything bare




How heavy the days are.
There's not a fire that can warm me,
Not a sun to laugh with me,
Everything bare,
Everything cold and merciless,
And even the beloved, clear
Stars look desolately down,
Since I learned in my heart that
Love can die.

Hermann Hesse | Translated by James Wright

............................

Perambulando outro dia pela net, deparei-me com esse poema. Tentei encontrar a referência precisa (ao menos para me certificar de sua autoria e autenticidade), mas não consegui. Naveguei, naveguei e, digamos assim, morri na praia. Algumas dizem que Hesse o escreveu em 1911. Foi o máximo que consegui saber, afora o nome do tradutor. Não sei em que obra se encontra. Anyway, sendo ou não de Hesseo poema pesa, comprime o peito e exala beleza e tragicidade.


[photo by Cem Edisboylu]

terça-feira, fevereiro 06, 2018

very lost


perdida perdi as
palavras
perdida perdi a
estrada
perdida achei um
poema
de minha própria
lavra.