quarta-feira, março 01, 2017

quarta-feira, fevereiro 22, 2017

Um hemisfério numa cabeleira




Deixa-me respirar por um bom tempo, por um bom tempo, o odor dos seus cabelos, neles mergulhar meu rosto, como um homem sedento mergulha o seu numa fonte. Deixe-me agitá-los com a mão como lenço perfumado, a fim de evocar lembranças na atmosfera.

Se você soubesse quantas coisas eu vejo, quantas coisas eu sinto, quantas coisas seus cabelos me dão a entender! Minha alma viaja levada por esse perfume como a de outros homens viaja pela música.

Em sua cabeleira cabe todo um sonho, em que abundam velas e mastros, imensos oceanos cujas correntes me levam a regiões de um clima deleitante, onde o espaço é mais azul e profundo, e a atmosfera é perfumada de frutos, folhas e pele humana.

No oceano de sua cabeleira, entrevejo um porto que fervilha de canções melancólicas, de homens vigorosos de todas as nacionalidades, de embarcações de todas as formas, cuja arquitetura sutil e complicada se recorta sob um céu imenso em que se instala o calor eterno.

Acariciando sua cabeleira, recupero os langores de longas horas passadas sobre um divã, na cabine de um belo navio, embalado pelo balanço imperceptível do mar no porto, entre vasos de flores e botijas refrescantes.

Na fogueira de sua cabeleira, respiro o cheiro do tabaco, misturado a ópio e açúcar, na noite de sua cabeleira, vejo resplandecer o infinito azul tropical; nas praias aveludadas de sua cabeleira, me inebrio de odores mesclados de alcatrão, almíscar e óleo de coco.

Deixe-me morder por um bom tempo essas tranças morenas e pesadas. Ao mordiscar esses cabelos elásticos e rebeldes, sinto como se experimentasse lembranças.




Baudelaire | O Spleen de Paris | Pequenos poemas em prosa | Tradução de Alessandro Zer | Porto Alegre | RS | L&PM Pocket | 2016  p.57-58

quarta-feira, fevereiro 15, 2017

Na infinita dispersão do meu ser


             Pergunta-me
             se ainda és o meu fogo
             se acendes ainda
             o minuto de cinza
             se despertas
             a ave magoada
             que se queda
             na árvore do meu sangue

             Pergunta-me
             se o vento não traz nada
             se o vento tudo arrasta
             se na quietude do lago
             repousaram a fúria
             e o tropel de mil cavalos

            Pergunta-me
            se te voltei a encontrar
            de todas as vezes que me detive
            junto das pontes enevoadas
            e se eras tu
            quem eu via
            na infinita dispersão do meu ser
            se eras tu
            que reunias pedaços do meu poema
            reconstruindo
            a folha rasgada
            na minha mão descrente

            Qualquer coisa
            pergunta-me qualquer coisa
            uma tolice
            um mistério indecifrável
            simplesmente
            para que eu saiba
            que queres ainda saber
            para que mesmo sem te responder
            saibas o que te quero dizer"




Mia Couto  | Pergunta-me | Raiz de Orvalho e Outros Poemas  
Editorial Caminho | Lisboa | 1999

domingo, fevereiro 12, 2017

Êxtase musical II



"Nesses instantes em que ressoamos no espaço e o espaço ressoa em nós, nesses momentos de torrente sonora, de posse integral do mundo, só posso me perguntar por que não serei eu todo esse mundo. Ninguém experimentou com intensidade, com uma louca e incomparável intensidade, o sentimento musical da existência, a menos que tenha tido o desejo dessa absoluta exclusividade, a menos que tenha sido possuído de um irremediável imperialismo metafísico, quando desejara a ruptura de todas as fronteiras que separam o mundo do eu."




"O estado musical associa, no indivíduo, o egoísmo absoluto com a maior das generosidades. Queres ser só tu, mas não por um orgulho mesquinho, mas por uma suprema vontade de unidade, pela ruptura das barreiras da individuação, não no sentido de desaparição do indivíduo, mas de desaparição das condições limitativas impostas pela existência deste mundo. Quem não tenha tido a sensação da desaparição do mundo, como realidade limitativa, objetiva e separada, quem não tenha tido a sensação de absorver o mundo durante seus êxtases musicais, suas trepidações e vibrações, nunca entenderá o significado dessa vivência na qual tudo se reduz a uma universalidade sonora, contínua, ascensional, que evolui para o alto em um agradável caos. E o que é esse estado musical senão um agradável caos cuja vertigem é igual à beatitude e suas ondulações iguais a arrebatamentos?"


Emil Cioran | O Livro das Ilusões |Tradução de José Thomaz Brum | RJ | Rocco 2014 | p.8

quarta-feira, fevereiro 08, 2017

Súplica ao Vento


Livra-me, Senhor, desse grande ódio, do ódio do qual brotam os mundos. Acalma o agressivo tremor de meu corpo e afrouxa meus maxilares apertados. Faz com que desapareça esse ponto negro que se acende em mim e se estende por todos os meus membros, fazendo nascer da infinita negrura de meu ódio uma mortífera chama das brasas.


Livra-me dos mundos nascidos do ódio, salva-me da negra infinitude sob a qual morrem meus céus. Acende um raio de luz nesta noite e que saiam as estrelas perdidas na densa névoa de minha alma. Mostra-me o caminho para mim mesmo, abre-me uma senda em minha espessura. Desce em mim com o sol e dá início a meu mundo.


Cioran, Emil  | O Livro das Ilusões | Tradução de José Thomaz Brum | Rio de Janeiro | Rocco | 2004 | p.104

imagem | KwangHo Shin | Untitled 27 | 2013

domingo, fevereiro 05, 2017

Tears




"Deitado, ele sorri desajeitado e seus olhos brilham. Ela sentiu todo o seu amor subir à garganta e as lágrimas aos olhos. Ela se lançou sobre seus lábios, desmanchou em lágrimas entre seus rostos. Ela chorava em sua boca e ele mordia em seus lábios salgados toda a amargura de seu amor."

Albert Camus | A desmedida na medida | Cadernos 1937-1939 | Tradução de Raphael Araújo e Samara Geske | São Paulo | Hedra | 2014 | p.55-56

quinta-feira, fevereiro 02, 2017

Vento




Amanheci de um modo novo hoje
as luzes de sempre
não me prendem mais com suas âncoras
queimei as lanças
e fui deixando para trás
a casa, o pátio, a aldeia
docemente ensolarada

Rasguei as certezas
enterrei os vestidos
e agora tenho por riqueza o vento

que sustenta os pássaros




[ Título: Santa Clara | Iracema Macedo |  Invenção de Eurídice | Panorama da Palavra | 2004 ]

domingo, janeiro 29, 2017

Êxtase musical


“Sinto que perco matéria, que caem minhas resistências físicas e que me dissolvo em harmonias e ascensões de melodias interiores. Uma sensação difusa e um sentimento inefável me reduzem a uma indeterminada soma de vibrações, de ressonâncias íntimas e de envolventes sonoridades.

Tudo o que acreditei ter em mim de singular, isolado em uma solidão material, fixado em uma consistência física e determinado por uma estrutura rígida, parece ter se transformado em um ritmo de sedutora fascinação e imperceptível fluidez. Como poderia descrever com palavras o modo como crescem as melodias, como vibra todo meu corpo integrado em uma universalidade de vibrações, evoluindo em fascinantes sinuosidades, em meio a um encanto de aérea irrealidade? Nos momentos de musicalidade interior, perdi a atração de minha pesada materialidade, perdi a substância mineral, essa petrificação que me ata a uma fatalidade cósmica, para atirar-me em um espaço de miragens...”


[ Emil Cioran | O Livro das Ilusões |Tradução de José Thomaz Brum | RJ | Rocco |2014 | p.7 ]


quinta-feira, janeiro 26, 2017

Curiosity


Dia desses uma amiga publicou no facebook um dos belos Cantos dos Cantares de Ezra Pound. Lembrei-me que tenho um livro dele desde 1987. Fui buscá-lo na prateleira, abri e reli toda a introdução de Augusto de Campos - um estudo breve mas cuidadoso da vida e obra de Pound - e mais alguns poemas, cantos e cartas publicados nessa edição.

Uma das coisas que li nessa pequena introdução e que me chamou a atenção, já há 30 anos, foi que em suas últimas entrevistas, ao ser questionado se teria algum conselho a dar aos jovens poetas e qual a qualidade que os incitaria a cultivar, Pound respondeu: "creio que o jovem poeta deve ter uma curiosidade ininterrupta. Não há literatura sem curiosidade. Quando a curiosidade do escritor morre, ele está perdido - ele poderá fazer não importa qual acrobacia, mas nada escreverá de vivo se a sua curiosidade estiver morta." 

Augusto de Campos completa que "tudo isso Pound resumiu numa breve anotação: 'curiosity - advice to the young - curiosity.'"


[ Ezra Pound | Canto 120 | Poesia | Traduções de Augusto, Haroldo de Campos, Décio Pgnatari, J.L. Grünewald, Mário Faustino | São Paulo | Hucitec | 1985 | p.39 ]











quarta-feira, janeiro 25, 2017

sexta-feira, janeiro 20, 2017

Poema da despedida


Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei

Ainda assim,
escrevo.


[ Mia Couto | Raiz de orvalho e outros poemas | Portugal | 2014 ]




sábado, janeiro 07, 2017

O eterno silêncio




SAIR

Largar o cobertor, a cama, o
medo, o terço, o quarto, largar
toda simbologia e religião; largar o
espírito, largar a alma, abrir a
porta principal e sair. Esta é
a única vida e contém inimaginável
beleza e dor. Já o sol,
as cores da terra e o
ar azul – o céu do dia –
mergulharam até a próxima aurora; a
noite está radiante e Deus não
existe nem faz falta. Tudo é
gratuito: as luzes cinéticas das avenidas,
o vulto ao vento das palmeiras
e a ânsia insaciável do jasmim;
e, sobre todas as coisas, o
eterno silêncio dos espaços infinitos que
nada dizem, nada querem dizer e
nada jamais precisaram ou precisarão esclarecer.


Antonio Cicero | 'Sair' | A Cidade e os Livros | Editora Record | Rio de Janeiro | 2002 | p.77.


"... sobre todas as coisas, o eterno silêncio dos espaços infinitos que nada dizem, nada querem dizer e nada jamais precisaram ou precisarão esclarecer. ... sobre todas as coisas, o eterno silêncio dos espaços infinitos que nada dizem, nada querem dizer e nada jamais precisaram ou precisarão esclarecer. ... o eterno silêncio... sobre todas as coisas..."

Encontrei esse belo poema de Antonio Cicero num site de literatura que não me lembro qual. Fui conferir, agora, a autenticidade dele e o encontrei publicado no blog do próprio autor que, aliás, eu não conhecia (o blog, não o autor). Há, nesse blog, um desdobramento dessa publicação motivado por um comentário que serve como pretexto para uma reflexão que, por sua vez, começa discordando do conteúdo do poema. Achei esquisito discordar do conteúdo de um poema, but... o rapaz acaba levantando questões interessantes. 

Antônio Cícero dá um show nas respostas, ainda que diga "não me sinto capaz de explicar um poema meu". Ele acaba sim, num certo sentido, explicando o poema ao responder as perguntas do rapaz. E faz isso muito bem (embora o poema não carecesse propriamente de explicação). Responde às questões com excelentes perguntas, suposições, interpretações possíveis e um raciocínio que me parece impecável. A discussão versa sobre o clássico tema da existência e natureza divinas, bem como sobre aquilo que ficou conhecido (seja na filosofia, teologia ou filosofia da religião) como o “problema do mal” — tema sobre o qual passei debruçada uns bons anos da minha vida. Há outros comentários ali, mas a discussão para a qual eu chamo a atenção é entre Lucas Nicolato e Antônio Cícero. Estou com um pouco de preguiça de reconstruir a discussão. Então, take a look: http://antoniocicero.blogspot.com.br/2007/08/sair.html.


quinta-feira, janeiro 05, 2017

O corpo de um poema


  [photo by Cristina Otero]


                     olho muito tempo o corpo de um poema
                     até perder de vista o que não seja corpo
                     e sentir separado dentre os dentes
                     um filete de sangue
                     nas gengivas


                    [Ana Cristina César | A teus pés | Brasiliense | 1984]

                         

terça-feira, janeiro 03, 2017

L'amour



Daquelas coisas que a gente lê e não sabe bem por que elas nos tocam...

"Essa singular vaidade do homem que se deixa e quer crer que aspira a uma verdade quando o que ele pede a esse mundo é um amor."

(Albert Camus | Cadernos | 1937-39 | A desmedida na medida | São Paulo | Hedra | 2014 | p.44)

quarta-feira, dezembro 28, 2016

Notas sobre uma episódio banal


O calor está infernal. Quem me conhece sabe que sou uma das mulheres mais friorentas desse planeta lindo e miserável. Gosto do sol, do calor e do céu aberto. Mas não desse ar abafadiço, desse bafo quente e sufocante.

De uns anos pra cá passei a apreciar também dias nublados e levemente frios. Eles combinam com o ensimesmamento, a solidão e a melancolia (um trio que também aprecio). Ademais, com um pouco de frio, dormir coberta é bem gostoso, e posso usar minhas botinhas.

Acabo de folhear um romance e me deparei com uma passagem, dentre tantas, daquelas que a gente grifa. Como alguém já observou um dia, eu deixo rastros e pistas em meus livros. E tenho um código próprio de grifos e sinais. Volta e meia eu mesma sigo as pistas que deixei assinaladas. Na que se segue, trata-se de apenas um banho. Um episódio banal.



"Deve haver um bocado de coisas que um banho quente não cura, mas não conheço muitas delas. Sempre que fico triste pensando que um dia vou morrer, ou perco o sono de tão nervosa, ou estou apaixonada por alguém que não verei por uma semana, me deixo sofrer até certo ponto e então digo: 'vou tomar um banho quente'. Eu medito no banho. A água tem que estar muito quente, tão quente que você mal consegue colocar o pé. Então você vai entrando, centímetro por centímetro, até estar com a água na altura do pescoço. [...] acho que vejo o banho quente do jeito que as pessoas religiosas veem a água benta" Sylvia Plath | A Redoma de Vidro | p.27-28]. 

A sensação é balsâmica. Tenho, digamos, "uma pira" com banhos quentes. E saudosas lembranças de meus banhos de banheira quando criança. Porém, em mim, o efeito curador não se dá apenas num banho de banheira. Basta-me um bom chuveiro de água quente. Não preciso ficar triste pensando na morte (embora eu pense nela correntemente). Também não necessito perder o sono por qualquer motivo (ainda que às vezes o perca por algum). Tampouco estar apaixonada (conquanto...) . Basta-me estar com muito frio (o que já me deixa doente) para que eu diga: "vou tomar um banho quente'. Ele aquece meu sangue e me cura do enorme desconforto do frio por ao menos duas horas, quando passo, novamente, a me sentir gelada, mesmo que bem agasalhada, em dias de muito frio.

Mas é verão. E hoje está muito calor. O dia pede um banho frio. Como detesto água fria, vou tomar um longo banho morno. E de chuveiro. Lugar sob o qual adoro pensar na vida e ver meus pensamentos escorrerem  pelo ralo.

segunda-feira, dezembro 12, 2016

Ah... essa dor





O Grito

Se ao menos esta dor servisse
se ela batesse nas paredes
abrisse portas
falasse
se ela cantasse e despenteasse os cabelos

se ao menos esta dor se visse
se ela saltasse fora da garganta como um grito
caísse da janela fizesse barulho
morresse

se a dor fosse um pedaço de pão duro
que a gente pudesse engolir com força
depois cuspir a saliva fora
[...]

se a dor fosse só a carne do dedo
que se esfrega na parede de pedra
para doer doer doer visível
doer penalizante
doer com lágrimas

se ao menos esta dor sangrasse


[Renata Pallottini 1931- ... | A faca e a pedra | 1961]

terça-feira, novembro 29, 2016

Confidência


Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com suavidade
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome"

Mia Couto – 'Confidência'. in: Raiz de Orvalho e Outros Poemas.

The Absinthe Drinker by Viktor Oliva

segunda-feira, novembro 21, 2016

Ensaios sobre a filosofia de Hume


Enfim, chers lecteurs et lectrices, depois de muito trabalho e algumas estações invernais e primaveris, tenho o prazer de informá-los que acaba de ser publicado o volume 16 da "Coleção Rumos da Epistemologia" com os trabalhos apresentados no V Encontro Hume, realizado em abril de 2015, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) -  organização de Jaimir Conte, Flávio Zimmermann e Marília Côrtes de Ferraz (moi-même). Em breve sairá também a versão impressa. Dentre os 20 trabalhos publicados, há um ensaio meu intitulado O Status do Fideísmo na Crítica de Hume à Religião Natural. Take a look !!!




Ao final, Notas sobre João Paulo Monteiro (in memorian), uma homenagem de Rolf Nelson Kuntz.

quarta-feira, novembro 16, 2016

Espelhado em meu peito


Eis abaixo mais um belíssimo texto [and painting] do meu querido e talentoso amigo Ygor Raduy. Quando o li, senti como se suas palavras fossem arrancadas de meu próprio peito. Não resisti a'

O AMOR INTEIRO
  
Amo-te inteiro, com corpo, alma, ligamentos. Amo-te sem controle, inevitável. Estás em mim, como o sangue flui em mim, corrente. Amo-te inteiro, até as profundezas, e sempre. Amo-te completo e irrevogável – e és a peste em mim adormecida, és o incêndio, a floração de tudo. E só quando estás presente estou presente;  só quando estás alegre estou alegre; só quando respiras eu respiro. Amo-te às pressas, urgente.  És o alento e a força – embora de nada desconfies. És a festa onde meus olhos brincam, o abismo onde a minha carne cai. Eu perco o coração, mas vou a ti com alegria. E embora o teu silêncio me aferroe, vou a ti. Vou a ti, embora nada indique que venhas a mim; vou a ti, sem que jamais teu braço se mova em minha direção. Pois amo-te inteiro. E algo em mim insiste que és o único norte – algo em mim resiste e diz: “ama-o inteiro, com corpo, alma, ligamentos”. E vou, obedeço, como quem vai ao mundo, já que aos meus olhos és o próprio mundo. Se porventura de existir desistires, tudo desiste,  tudo cai, a luz declina, flores murcham, tudo é vulto. E eu não posso perder nem um minuto teu, nem um sorriso teu posso perder, preciso de cada palavra, de cada gesto teu, de cada respiração. Pois amo-te inteiro, até os subterrâneos. E cada minuto sem ti é um minuto perdido. Cada passo, um passo em falso. Se estás ausente, agonizo; se estás presente, gozo. E me perco de mim, e erro e lamento e apago as luzes e choro pelos cantos. Mas se vens, a alma minha em festa, bandeiras hasteadas, coro de vozes exultantes, luz. Pois amo-te inteiro, com o corpo, com a alma, com os ligamentos.


words, Wörter, blood, Blut 2 | painting | ygor raduy


Não partas com teu reflexo/
Deixa-o espelhado em meu peito.
F. Garcia Lorca

[texto originalmente publicado em 

domingo, novembro 06, 2016

Apenas um voo


Estou num avião. Não consigo gostar de voar. Tenho medo. E quase sempre a impressão de que ele vai quebrar, partir-se todo, explodir ou desmantelar-se no ar. Não me agradam as expressões dos tripulantes. Sorrisos treinados, branco-amarelados. Tampouco da maioria dos passageiros. Como se tudo estivesse bem. Para alguns talvez esteja mesmo. Porém, dentro de um avião, jamais as coisas estarão bem para mim. Simplesmente porque eu não me sinto nada bem. E quando não estou bem, nada está bem. Tudo vai mal (excuse-me pela informação trivial). Se há turbulência, meu coração parece que vai explodir (assim como o avião). A descarga de adrenalina é asfixiante. Meu pulso acelera, meu sangue esquenta, ou melhor, não sei se esquenta ou se gela. As sensações se misturam. E se confundem. Não fosse impossível, tal como imaginar um círculo quadrado, eu diria que meu sangue esquenta e gela ao mesmo tempo. E sob as mesmas condições. Sinto-me como se suasse gelo. Trêmula, começo a ficar ofegante. O ar começa a faltar. E eu tento, então, meditar. Respirar calmamente. Mentalizo: nam-myoho-rengue-kyo... nam-myoho-rengue-kyo... nam-myoho-rengue-kyo...

Olho para as pessoas ao meu redor. Todo mundo aparentemente calmo. Mas não adianta. Quaisquer estalidos, quaisquer sacudidelas, deixam-me mais apreensiva. Fico em estado de alerta o tempo todo. Os ouvidos atentos. Os sentidos  aguçados. Estridentes. E os nervos à flor da pele. Se o voo é estável, respiro melhor. A sensação de morte se atenua. Mas nada se compara ao conforto de sentir as rodas tocarem o chão e, mais ainda, de sentir meus pés no chão.

Prefiro viajar de carro, embora digam que o perigo é mil vezes maior. Podem dizer à vontade. Podem me apresentar dados e estatísticas que demonstrem isso. Não me convencem, infelizmente. Posso saber disso, mas não consigo sentir isso. Melhor viajar na mente. No sonho. Na imaginação. (Ainda que eu não deva desconsiderar as vantagens de se viajar de avião. Todos conhecem).

Agora, por exemplo, ele passou por um período de estabilidade. Consegui ficar relativamente tranquila a ponto de abrir meu aplicativo Day One para escrever essas baboseiras que vocês estão lendo. Mas agora ele vai começar a descer. A paixão do medo toma conta de mim. O barulho do motor se altera. Outros barulhos gritam aqui e ali. A velocidade cai. A altura cai. Dentro de mim tudo cai. Parece que o motor vai pifar. O avião começa a chacoalhar de novo. O coração dispara. Pronto. Volto a me sentir hiper insegura e agitada. Na verdade, apavorada. Minha imaginação, involuntariamente, produz monstros. Uma legião deles.


Hoje os voos estão sendo piores do que os da última vez, cujo tempo estivera aberto e o sol radiante. É o segundo do dia, dada a conexão. Pensei que havia, senão superado (acho que isso nunca vai acontecer), ao menos amenizado meu medo de voar em aviões. Mas não. Basta um voo levemente turbulento (e digo levemente porque aparentemente ninguém se abalou; e também porque nunca passei por algum voo desses que já me contaram, cujas máscaras de oxigênio caem e todos se apavoram, gritam and so on) para eu perceber que nada mudou. Ele continua o mesmo.

Neste voo do qual vos escrevo, por exemplo, por conta da turbulência, não houve serviço de bordo. A tripulação começou a se armar para o serviço e logo vi que todos pararam. O comandante resolveu avisar, pedindo desculpas, que não teríamos tal serviço porque não havia segurança nem para nós nem para os tripulantes. Ninguém parece ter se abalado (exceto a pessoa ao meu lado, que sentiu meus nervos nervosos). Pensei: precisava anunciar, comandante? Precisava explicar? Cazzo. Eu já havia sacado. Aliás, provavelmente todos já haviam sacado. Afinal, a turbulência era evidente. Mas o aviso, vindo lá da cabine do piloto, ora ora... cala a boca, comandante!