sábado, dezembro 02, 2017

Truísmos




Em tempos de facebook e demais redes sociais o velho ditado "diga-me com quem andas que te direi quem és" permaneceria de pé? Não, diria um filósofo qualquer, na verdade, ele nunca esteve infalivelmente de pé, pois não se segue necessariamente (ainda que as pessoas com as quais nos relacionamos possam, talvez, dizer algo do que somos). Mas vários fatores (leia-se causas ou motivos) podem concorrer para a determinação dos laços e associações que os seres humanos estabelecem. Em tempos de facebook e demais redes sociais, essa variedade aumentou sobremaneira (a distancia, a superficialidade e a obscuridade também).



[art by Shin Kwangho ]


quinta-feira, novembro 30, 2017

domingo, novembro 26, 2017

Alfinetada nietzscheana


Contra a soberba

Não se encha de ar: senão basta
Uma alfinetada para o estourar.



Para quem entende a língua alemã (o que não é o meu caso):

Gegen die Hoffahrt

Blas dich nicht auf: sonst bringet dich
Zum Platzen schon kleiner Stich.

[vich rs]

[Nietzsche | A gaia ciência | "Brincadeira, astúcia e vingança": Prelúdio em rimas alemãs | Tradução de Paulo César de Souza | São Paulo | Cia das Letras, 2001, p. 27]

segunda-feira, novembro 20, 2017

Perambulando


"Ele despertou suando, desarrumado, perambulou por um momento no apartamento. Depois acendeu um cigarro e sentou, com a cabeça vazia, olhou as dobras de sua calça amassada. Em sua boca havia o amargo do sono e do cigarro. Em torno dele, o dia lânguido e mole patinhava como na lama."




Albert Camus | A desmedida na medida | Cadernos 1937-1939 | Tradução de Raphael Araújo e Samara Geske | São Paulo | Hedra | 2014 | p.11-12

sábado, novembro 04, 2017

Entre a solidão e o convívio social


David Hume [1711-1776], na conclusão do Livro 1 do Tratado da Natureza Humana (T) encontra-se num estado que tenho (quase) certeza de que, senão todos, ao menos a maior parte daqueles que estudam filosofia já se encontraram num dado momento de seus estudos, numa certa hora de seus dias ou de suas noites.

Hume se vê assustado, confuso, e numa solidão desesperadora diante das reflexões que empreendeu ao escrever e concluir o livro I do Tratado intitulado Do Entendimento

Logo no § 1 ele confessa, um tanto melancólico e desesperado, além de assustado e confuso, como se sente diante da viagem que empreendera. Salta, ao menos aos meus olhos, que Hume é, aqui, não apenas um filósofo, mas também um literato muito poético...


“Sinto-me como um homem que, após encalhar em vários bancos de areia, e escapar por muito pouco do naufrágio ao navegar por um pequeno esteiro, ainda tem a temeridade de fazer-se ao mar na mesma embarcação avariada e maltratada pelas intempéries, levando sua ambição a tal ponto que pensa em cruzar o globo terrestre em circunstâncias tão desfavoráveis. A memória de meus erros e perplexidades passados me faz desconfiar do futuro. A condição desoladora, a fraqueza e desordem das faculdades que sou obrigado a empregar em minhas investigações, aumentam minhas apreensões. E a impossibilidade de melhorar ou corrigir essas faculdades me reduz quase ao desespero, fazendo-me preferir perecer sobre o rochedo estéril em que ora me encontro a me aventurar por esse ilimitado oceano que se perde na imensidão. Essa súbita visão do perigo a que estou exposto me enche de melancolia; e como costumamos ceder a esta paixão mais que a todas as outras, não posso me impedir de alimentar meu desespero com todas essas reflexões desalentadoras, que o presente tema me proporciona em tamanha abundância” (T 1.4.7 §1).

Caminhando do prazer à dor, Hume hesita entre a inclinação natural a buscar diversões e companhias e a inclinação natural a devanear solitariamente.

“A  visão intensa dessas variadas contradições e imperfeições da razão humana me afetou de tal maneira, e inflamou minha mente a tal ponto, que estou prestes a rejeitar toda crença e raciocínio, e não consigo considerar uma só opinião como mais provável ou verossímil que as outras. Onde estou, o que sou? De que causas derivo minha existência, e a quem devo temer? Que seres me cercam? Sobre quem exerço influência, e quem exerce influência sobre mim? Todas essas questões me confundem, e começo a me imaginar na condição mais deplorável, envolvido pela mais profunda escuridão, e inteiramente privado do uso de meus membros e faculdades (T 1.4.7 §8). Felizmente ocorre que, sendo a razão incapaz de dissipar essas nuvens, a própria natureza o faz, e me cura dessa melancolia e delírio filosóficos, tornando mais branda essa inclinação da mente, ou então fornecendo-me alguma distração e alguma impressão sensível mais vívida, que apagam todas essas quimeras. Janto, jogo uma partida de gamão, converso e me alegro com meus amigos; após três ou quatro horas de diversão. Quando quero retomar essas especulações, elas me parecem tão frias, forçadas e ridículas, que não me sinto mais disposto a levá-las adiante” (T 1.4.7.§9).

Nesse momento, Hume se encontra “absoluta e necessariamente determinado a viver, a falar e a agir como as outras pessoas, nos assuntos da vida corrente”, e se diz pronto a lançar ao fogo todos os seus livros e papéis, bem como disposto a nunca mais renunciar “aos prazeres da vida em benefício do raciocínio e da filosofia” (T 1.4.7.§10).

Em seguida, ele pergunta a si mesmo: “... seguir-se-á que devo lutar contra a corrente da natureza, que me conduz à indolência e ao prazer? Que devo me isolar, em alguma medida, do comércio e da sociedade dos outros homens? E que tenho de torturar meu cérebro com sutilezas e sofisticarias, no momento mesmo em que não sou capaz de me convencer da razoabilidade de uma aplicação tão penosa, nem tenho qualquer perspectiva tolerável de, por seu intermédio, chegar à verdade e à certeza (T 1.4.7.§10)?

E então? Deverá Hume continuar “a vagar em meio a tão lúgubres solidões e atravessar mares tão bravios quanto os que até agora” (T 1.4.7.§10) ele encontrou? 

E eu? Deverei...?

[HUME, David. Tratado da Natureza Humana: uma tentativa de introduzir o método experimental de raciocínio nos assuntos morais. Tradução de Débora Danowski. — São Paulo: UNESP: Imprensa Oficial do Estado, 2001].

quarta-feira, novembro 01, 2017

Nos Jardins de Epicuro


No ensaio O Epicurista  ─ o primeiro dos quatro Ensaios considerados Sobre a Felicidade ─ Hume é admiravelmente poético, o que faz com que eu, por ora, não queira promover uma discussão filosófica sobre a possibilidade de Hume  ter cometido um equívoco ao interpretar a ética de Epicuro, “quase sempre confundida com o gozo imoderado dos prazeres mundanos, como se não se distinguisse do hedonismo puro e simples” (Epicuro. Carta sobre a Felicidade (A Meneceu). Introd. p.10). Nada disso!

No fundo, confesso que estou com a maior preguiça de discutir qualquer coisa, e também de explicar por que Hume parece ter compreendido mal a doutrina epicurista, ainda que em sua defesa se possa argumentar que, tal como podemos encontrar numa nota do próprio Hume a'O Epicurista, “a intenção deste e dos três ensaios seguintes (O Estoico – ou o homem de ação e virtude; O Platônico – ou o homem de contemplação e devoção filosófica; e O Cético), não é tanto explicar acuradamente as opiniões das antigas seitas (sects) filosóficas, quanto interpretar as opiniões das seitas que se formam naturalmente no mundo, ensejando diferentes ideias sobre a vida humana e a felicidade.” 

Hume é claro em dizer que deu “a cada uma delas o nome da seita filosófica com a qual elas apresentam maior afinidade” (nota p.255). Creio que tal observação permite-nos eximir Hume do compromisso filosófico de apresentar fielmente a doutrina de Epicuro. E antes que eu comece a me alongar demais nesse assunto, quero deixar claro que meu interesse, ao publicar esse pequeno excerto do ensaio, é o de apenas louvar a beleza da passagem citada (que versa sobre a felicidade, o amor, o prazer, as paixões, a fugacidade da vida e a inexorabilidade da morte), e o talento literário de David Hume. Todo o ensaio é belíssimo, mas a passagem abaixo é uma daquelas que enleva nossos corações e eleva-nos às alturas.


O Epicurista
Ou o homem da elegância e do prazer

“Ainda não avancei muito por entre as sombras do espesso bosque, que espalham ao meu redor uma dupla noite, quando, quase logo, creio avistar na penumbra a deslumbrante Célia, a amada dos meus desejos (the mistress of my wishes), que vagueia impaciente pelo bosque e, antecipando-se à hora prevista, censura silenciosamente os meus passos tardios. Mas a alegria que ela recebe de minha presença é minha melhor desculpa, e, dissipando qualquer pensamento de ansiedade ou raiva, não deixa lugar para nada a não ser alegria e arrebatamento mútuos. Com que palavras, minha bela, poderei exprimir minha ternura ou descrever as emoções que agora aquecem o meu peito em chamas? As palavras são fracas demais para descrever meu amor; e, se por desgraça, não sentires dentro de ti a mesma chama, em vão me esforçarei para transmitir-te sua justa concepção. Mas cada uma de tuas palavras, cada um de teus gestos é suficiente para me tirar esta dúvida; e, ao mesmo tempo em que eles exprimem a tua paixão, servem também para incendiar a minha. Como são adoráveis esta escuridão, este silêncio, esta solidão! Nenhum objeto vem perturbar a alma arrebatada. O pensamento, os sentidos, tudo está inteiramente repleto de nossa mútua felicidade, que se apodera completamente do espírito e produz uma satisfação que os iludidos mortais inutilmente procuram nos outros prazeres.”

“Mas por que o teu peito estremece com esses suspiros, e por que tuas luminosas faces estão banhadas de lágrimas? Por que distrair teu coração com uma ansiedade tão tola? Por que me perguntas tantas vezes Quanto tempo vai durar o meu amor? Ah, minha Célia, posso eu resolver esta questão? Sei eu quanto tempo minha vida vai durar? Mas também isto perturba teu terno coração? Por acaso a imagem de nossa frágil mortalidade está em ti constantemente presente, para desanimar-te nas horas mais felizes e envenenar até mesmo aquelas alegrias inspiradas pelo amor? Considere que, se a vida é frágil e a juventude é transitória, temos mais motivos ainda para desfrutar bem do momento presente, sem nada perder de uma existência assim tão perecível. Apenas mais um momento e ela não existirá mais. Seremos como se jamais tivéssemos sido. Nenhuma recordação de nós restará sobre a face da Terra, e nem as sombras fabulosas do além poderão nos dar guarida. Nossa estéril ansiedade, nossos vãos projetos, nossas incertas especulações, tudo será engolido e perdido. Nossas dúvidas atuais sobre a causa original de todas as coisas, oh! jamais serão dissipadas. Podemos estar certos apenas de uma única coisa ─ é que se existe um espírito supremo que preside nossos destinos, deve lhe agradar ver-nos realizar a finalidade de nosso ser, gozando aquele prazer para o qual fomos criados. Que esta reflexão dê repouso para teus ansiosos pensamentos, mas sem tornar tuas alegrias demasiado sérias a ponto de te fixares nelas para sempre. Basta ter conhecido uma vez esta filosofia para dar livre curso ao amor e à alegria, e dissipar todos os escrúpulos de uma superstição tola. Porém, minha bela, ao mesmo tempo em que a juventude e a paixão satisfazem nossos ávidos desejos, é preciso encontrar assuntos mais alegres para misturar às nossas amorosas carícias” 

(Hume, David. Essays Moral, Political, and Literary. Liberty Fund, 1987, p.144-145).


Imagens: William-Adolphe Bouguereau (1825-1905); Eleanor Fortescue-Brickdale (1872-1945)

quinta-feira, outubro 26, 2017

Minha divina e amada filosofia


Quem se debruçar sobre a filosofia encontrará, em meio às suas diversas áreas e concepções, aquilo que chamamos de filosofia moral. E quem buscar esclarecimentos sobre o estoicismo deverá certamente um dia encontrar no meio de seu caminho uma pedra muito preciosa: MarcoTúlio Cícero (106-43 a.C.): advogado, questor, cônsul, filósofo político, senador, orador e escritor de primeira grandeza.

Porém, não se pode dizer que Cícero foi propriamente um estoico, pois buscou conciliar diferentes escolas filosóficas, tais como, entre outras, a platônica e a aristotélica, na tentativa de haurir uma moral prática que correspondesse às exigências da cidade (cf. A Virtude e a Felicidade, nota biográfica feita pelo tradutor, p.VII). Cícero era um homem ilustre não só pela sua posição social e política, eloquência e estilo, como também pela sua habilidade dialética e qualidades literárias.

Segundo Carlos Ancêde Nougué, tradutor de ao menos duas das obras ciceronianas abertas aqui ao meu lado, poder-se-ia chamá-lo de “um eclético neo-acadêmico, ou um platônico com elementos céticos e estoicos...”. [...] “Cícero teria pertencido, do ângulo gnosiológico, à Nova Academia (a Academia Cética de Arcilau), mas, ‘ao mesmo tempo’, ter-se-ia fortemente influído pelo Pórtico médio, pelo mero fato de ter frequentado mestres estoicos" (Do Sumo Bem e do Sumo Mal, apresentação do tradutor, p.XIII).

Mas qual era, pergunta Nougué, “a escola que norteava o ‘sincretismo’ [filosófico] de Cícero? A ‘escola’ Sócrates. O nosso filósofo era um perfeito discípulo de Sócrates, um perfeito seguidor do seu método sui generis, e, se o afirma claramente nas Tusculanas, pratica-o extensa e minuciosamente nas disputas de Do Sumo Bem e do Sumo Mal. ‘Conheça-te a ti mesmo’ ─ também filosoficamente: é esta a melhor suma desta obra maior” (idem, p.XIII).

Well... não estou aqui para falar propriamente de Cícero, mas simplesmente para apresentar uma tocante passagem do livro V das Tusculanas, intitulado A Virtude e a Felicidade: uma passagem que quando li pela primeira vez não resisti a transcrevê-la nos meus (já aqui comentados) caderninhos de anotações. Chamou-me à atenção não só a beleza literária (à qual sempre me rendo) dessa exortação à filosofia, como também a divinização que Cícero faz dela ─ o que, talvez, para muitos, seria uma impiedade.

A discussão, como o próprio título revela, versa sobre a relação entre virtude e felicidade, e Cícero abrirá a obra sustentando que “a virtude é suficiente para fazer o homem feliz..." e também que "é o que a filosofia nos ensina de maior e mais essencial” (p.4). Embora eu não concorde que para sermos felizes basta que sejamos virtuosos (tese que renderia uma longa discussão), não posso deixar de apreciar a passagem que se segue abaixo.


“Ó filosofia, és a única capaz de nos guiar! És tu que ensinas a virtude e que subjugas o vício! Que faríamos nós e em que se tornaria o gênero humano sem o teu socorro? És tu que deste à luz as cidades, para que vivessem em sociedade os homens, antes dispersos. És tu que uniste, primeiramente pela proximidade do domicílio, e em seguida pelos laços do matrimônio, e por fim pela comunhão da linguagem e da escrita. Tu inventaste as leis, constituíste os costumes, instituíste a ordem. Tu serás o nosso asilo; é à tua ajuda que recorremos; e, se em outros tempos nos contentamos com seguir em parte as tuas lições, nós hoje a elas nos submetemos inteiramente, sem reservas. Um só dia passado segundo os teus preceitos é preferível à imortalidade de quem quer deles se aparte. Que outro poder imploraríamos antes que o teu, que outro poder nos teria trazido a tranquilidade da vida, que outro poder nos teria aplacado o temor da morte? Está-se muito distante, no entanto, de render à filosofia a homenagem que lhe é devida. Quase todos os homens a negligenciam; muitos até a vituperam. Vituperar a ela, a quem se deve a própria vida – como alguém pode ser capaz de manchar-se com esse parricídio? Como alguém pode levar a ingratidão ao ponto de ultrajar um mestre que se deveria ao menos respeitar, ainda que não seja capaz de compreender-lhe bem as lições? Atribuo esse horror a que os ignorantes não podem, através das trevas que os cegam, penetrar a antiguidade mais remota, para ver aí que os primeiros fundadores das sociedades humanas foram os filósofos. Quanto ao nome, ela é moderna; quanto porém à coisa mesma, vemos que é muito antiga”

Cícero | A Virtude e a Felicidade | Tradução de Carlos Ancêde Nougué | São Paulo | Martins Fontes | 2005

terça-feira, outubro 24, 2017

Instruções para o arquiteto


Há tempos transcrevi esse pequeno excerto da fala do personagem Dom Rigoberto de Mario Vargas Llosa. Deixei-o ali nos rascunhos para publicá-lo com alguns comentários. Hoje resolvi desengavetá-lo. Mas notei que estou completamente sem tempo (ou será preguiça? ou desculpa esfarrapada?) de tecer quaisquer considerações a respeito. Então, apenas observo que a passagem trata de Dom Rigoberto dizendo a seu arquiteto (que havia feito um pequeno projeto do qual ele não havia gostado) a concepção que tem acerca de um futuro lar para ele, sua esposa Lucrécia (a seus olhos uma verdadeira deusa-humana) e seu filho Fonchito (uma criança deveras singular que se pode chamar, digamos assim, de um "anjo-endemoniado"). Digo também que essa é uma das obras que já li, grifei, reli e transcrevi várias partes (por pura fruição estética meeesmo). A riqueza da trama, dos personagens, da linguagem e dos temas ali tratados e discutidos é es-tu-pe-fa-ci-en-te. Perspicácia, ironia, humor, sensualidade, inteligência e imaginação saltam aos olhos de qualquer leitor de gosto delicado (num sentido bem humeano).  No mundo de Dom Rigoberto ─ mundo no qual "seus caprichos governarão" (amei essa frase rs) ─ reinam os livros, as obras de arte, o conhecimento, a cultura, o erotismo, muitíssimo prazer e, sobretudo, Dona Lucrécia - a soberana de seus desejos. 

« La liseuse » par Jean-Jacques Henner

“Nosso mal entendido é de caráter conceitual. O senhor fez este bonito desenho de minha casa e de minha biblioteca partindo da suposição — muito difundida, lamentavelmente — de que em um lar o importante são as pessoas, em vez dos objetos. Não o critico por fazer seu esse critério, indispensável para um homem de sua profissão que não se resigne a prescindir dos clientes. Mas minha concepção de meu futuro lar é a oposta. A saber: nesse pequeno espaço construído que chamarei de meu mundo e que meus caprichos governarão, a prioridade básica caberá aos meus livros, quadros e gravuras; nós, as pessoas, seremos cidadãos de segunda. São esses quatro milhares de volumes e a centena de telas e estampas que devem constituir a razão primordial do desenho que lhe encomendei. O senhor subordinará a comodidade, a segurança e a conveniência dos humanos às daqueles objetos. [...] Confio em que o senhor não tome o que acaba de ler — a preponderância que concedo a quadros e livros sobre bípedes de carne e osso — por uma tirada de humor ou pose de cínico. Não é isso, mas sim uma convicção arraigada, consequência de experiências difíceis, mas, também, muito prazerosas. Não me foi fácil chegar a uma postura que contradizia velhas tradições — vamos chamá-las de humanísticas, com um sorriso nos lábios — de filosofias e religiões antropocêntricas, para as quais é inconcebível que o ser humano real, estrutura de carne e ossos perecíveis, seja considerado menos digno de interesse e de respeito do que o inventado, o que aparece (se lhe for mais cômodo, digamos refletido) nas imagens da arte e na literatura. Poupo-o dos detalhes desta história e o transfiro à conclusão a que cheguei e que agora proclamo sem rubor. O mundo de velhacos semoventes do qual o senhor e eu fazemos parte não é o que me interessa, o que me dá prazer e sofrimento, mas sim essa miríade de seres animados pela imaginação, pelos desejos e pela destreza artística, presente nesses quadros, livros e nessas gravuras que consegui reunir com paciência e amor de muitos anos."


Llosa, Mario Vargas | Os cadernos de dom Rigoberto | Tradução de Ana Angélica d'Avila Melo | Rio de Janeiro | Objetiva | 2009 | p.14



Allegory of Sculpture | Gustav Klimt | 1889


(ah... vale lembrar que embora a obra Os Cadernos possa ser lida independentemente da obra que a antecede, ou seja, O Elogio da Madrasta, convém ler essa primeiro, pois o desenrolar da primeira trama condiciona, num certo sentido, a futura relação entre os personagens da segunda).

sábado, outubro 21, 2017

Um álibi


Ele diz..: "É preciso ter um amor - um grande amor na vida, pois esse é um álibi para as angústias sem motivo pelas quais somos acometidos."



Albert Camus | A desmedida na medida | Cadernos 1937-1939 | Tradução de Raphael Araújo e Samara Geske | São Paulo | Hedra | 2014 | p.24

domingo, outubro 15, 2017

Reflexivo



by Christophe Charbonnel


O que não escrevi, calou-me.
O que não fiz, partiu-me.
O que não senti, doeu-se.
O que não vivi, morreu-se.
O que adiei, adeus-se.


Affonso Romano de Sant'Anna | Intervalo amoroso e outros poemas escolhidos | L&PM | 1999 | RS

sábado, outubro 07, 2017

Memorabilis


Dia lânguido, acinzentado, chuvoso e friozinho. Acabo de conferir a temper: 21 graus. A chuva é bem-vinda. Tempos secos. Tempos de seca. 

Há um mês trabalho num memorial. Um memorial descritivo de minha trajetória acadêmico-intelectual-profissional... rs... vich. Sim, é um palavrão! E minha memória é longa e diversificada. Tem mais de meio século de existência. São quase 19 anos de memória acadêmica (formação, produção, temas e problemas filosóficos), mais 37 anos de memória extra-acadêmica ─ pessoal e existencial (educação, paixões, inclinações, motivos e circunstâncias). As memórias se confundem, se misturam, se entrelaçam.

Questões familiares, políticas, econômicas e existenciais ─ há um contexto de vida antecedente à minha entrada na academia que, por sua vez, revela que há uma relação intrínseca entre essas questões, minha escolha profissional, interesses e inclinações teórico-filosóficas no estudo da filosofia. 

Confesso que tenho apreciado a experiência (que sempre adiei adiei adiei e agora não pude mais) de refletir e ordenar por escrito minha própria experiência, embora seja altamente desgastante e, num certo sentido, um pouco angustiante. Tenho de fazer uma síntese de minha história, escolher o que dizer, o que não dizer, como me colocar sem parecer vaidosa demais, caso eu não consiga deixar de ser vaidosa demais (porque pra modéstia nunca levei muito jeito mesmo rs). Afinal, devo, de algum modo, apresentar e falar sobre minhas qualidades, minha formação e produção acadêmicas, dizer o que fiz de bom, importante e significativo. Num certo sentido isso é autoelogiar-se. 

Hume abre sua autobiografia dizendo "It is difficult for a man to speak long of himself without vanity; therefore, I shall be short" (Hume, My Own Life). Eu gostaria de fazer o mesmo em meu memorial ─ to be short  ─ para não ser (ou ao menos não parecer) vaidosa demais. Mas não garanto.


deep inside
by Loui Jover

terça-feira, outubro 03, 2017

Without you


E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.

Só nas minhas mãos
ouço a música das tuas.

Eugénio de Andrade | Sem ti | Coração do Dia |1958

quarta-feira, setembro 27, 2017

Perene movimento


“Não consigo fixar meu objeto. Ele vai confuso e cambaleante, com uma embriaguez natural. Tomo-o nesse ponto, como ele é no instante em que dele me ocupo. Não retrato o ser. Retrato a  passagem; não a passagem de uma idade para a outra ou, como diz o povo, de sete em sete anos, mas de dia para dia, de minuto para minuto. É  preciso ajustar minha história ao momento. Daqui a pouco poderei mudar, não apenas de  fortuna mas também de intenção. Este é um registro de acontecimentos diversos e mutáveis e de pensamentos indecisos e, se calhar, opostos: ou  porque eu seja um outro eu, ou porque capte os objetos por outras circunstâncias e considerações.”

[ Montaigne. Ensaios III 2. Sobre o Arrependimento ]

by KwangHo Shin

sábado, setembro 23, 2017

Rien que pour toi


Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida"

Mia Couto | Para Ti |  Raiz de Orvalho e Outros Poemas | Editorial Caminho | Leya | Lisboa | 2011


quinta-feira, setembro 21, 2017

Diluição


Gabriella | From 'Sentimentalist' Series |
by Matthew Dols


(…)

1.44

Se aquela luz, no entanto, emprestasse o pincel
a um poeta qualquer, eu tentaria agora
fazer que retivesse o retrato cruel
daquela intensidade que nunca se demora,
que atinge o auge um belo dia e vai-se embora,
esgarçando-se aos poucos entre a doçura e o mel
até que as brumas de uma tela ou de um papel
misturam-se e diluem-na pela existência afora…
(…)

[Bruno Tolentino | As epifanias | in: A imitação do amanhecer | p. 52]


segunda-feira, setembro 18, 2017

Ontologia sumaríssima


Umas quatro ou cinco coisas,
no máximo, são reais.

A primeira é só um gás
que provoca a sensação
de que existe no mundo
uma profusão de coisas.

A segunda é comprida,
aguda, dura e sem cor.
Sua única serventia
é instaurar a dor.

A terceira é redondinha,
macia, lisa, translúcida,
e mais frágil do que espuma.
Não serve para coisa alguma.

A quarta é escura e viscosa,
como uma tinta. Ela ocupa
todo e qualquer espaço
onde não se encontre a quinta
(se é que existe mesmo a quinta),
a qual é uma vaga suspeita
de que as quatro acima arroladas
sejam tudo o que resta
de alguma coisa malfeita
torta e mal-ajambrada
que há muito já apodreceu.

Fora essas quatro ou cinco
não há nada,
nem tu, leitor,
nem eu.

Paulo Henriques Britto | 1989

by Isaim Lozano

quarta-feira, setembro 13, 2017

Considerações sobre o princípio de proporcionalidade entre a causa e o efeito nos Diálogos de Hume


Transcrevo abaixo o resumo de meu trabalho apresentado no VI Encontro Hume, em agosto de 2017, na UFMG/BH. Devo dizer que pela primeira vez fui com o texto prontinho, redondinho, sem uma vírgula sequer a mexer, devidamente calculado para o tempo programado de 30 minutos. Fechei o texto em 9 páginas e constatei que poderia lê-lo em 25', ou seja, com 5 minutos de sobra para uma introdução e comentários no meio da leitura.

Em geral, sempre vou a eventos com o texto inacabado e, por isso, viajo preocupada com a apresentação, especialmente porque depois que a gente sai de casa e chega ao evento fica difícil retomar a concentração e trabalhar ainda no texto. Mas dessa vez foi diferente. Não havia mais nada a mexer, cortar ou acrescentar.

Tal texto é uma pequena parte (9 pgs) do segundo capítulo (60 pgs) de minha tese de doutorado (195 pgs). Há tempos não a lia. Gostei do que li rs. Mas tive que ler, reler, treler, cortar, reler, alterar, reler, cortar, putz, é um sofrimento. Mas valeu. Cheguei em BH na quinta-feira anterior ao evento (que começava na segunda). Pude comemorar com uma de minhas filhas (que também foi para lá) o aniversário dela, passear pela bela Belô e também conhecer Inhotim (o must), relax, sem nem precisar tocar no texto. O conforto, a tranquilidade e a segurança de já tê-lo pronto não têm preço.

Eis o resumo

Woman Writing | Picasso | 1934 | Oil on canvas

O tema central dos Diálogos sobre a Religião Natural dirige-se a uma análise do argumento do desígnio, defendido pelo personagem Cleanthes, segundo o qual a existência de um criador sumamente inteligente, justo, poderoso e benevolente pode ser inferida a partir da ordem e da beleza que observamos no mundo. Este argumento reclama uma resposta para a questão acerca de se temos fundamentos razoáveis para acreditar numa divindade (entendida como princípio originário do universo ou causa primeira) dotada de suprema inteligência, atributos e intenções morais, e procede por analogia explorando as similaridades entre os artifícios da natureza e certos artefatos humanos, a fim de provar que a mente divina é de algum modo similar à mente humana. Na seção 11 da EHU e também nos Diálogos, Hume, em sua investida contra o argumento do desígnio, recorre ao princípio de proporcionalidade entre a causa e o efeito. Ali, o personagem amigo epicurista de Hume estabelece que “quando inferimos qualquer causa particular de um efeito, devemos guardar a proporção entre eles, não sendo jamais permitido atribuir à causa quaisquer qualidades que não sejam precisamente aquelas suficientes para produzir o efeito. [...] e que se a causa atribuída a algum efeito não for suficiente para produzi-lo, devemos ou rejeitar essa causa ou acrescentar-lhe qualidades que a tornem corretamente proporcional ao efeito” (EHU 11 § 12: 190). Fiel a este princípio, Philo, o principal crítico do argumento do desígnio, afirma nos Diálogos que “quanto maior a semelhança dos efeitos que são vistos, e a semelhança das causas que são inferidas, mais forte é o argumento, e que, portanto, qualquer afastamento diminui a probabilidade e torna o experimento menos conclusivo” (D 5 § 1: 67). Com essa regra em mãos, Philo vai extrair algumas consequências inconvenientes que se seguem dos princípios que Cleanthes assumiu (like effects prove like causes) em defesa de seu próprio argumento, isto é, em defesa do argumento do desígnio. É sobre a relevância de tais princípios e consequências para a hipótese do desígnio que pretendo aqui discutir. (e foi o que eu fiz). C'est fini!

sexta-feira, setembro 08, 2017

Delírio de arquivística


Acreditei que se amasse de novo
esqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos


Ana Cristina Cesar | 1952 - 1983 | in “Inéditos e Dispersos”




terça-feira, setembro 05, 2017

Peito Vazio


Havia uma propaganda no Spotfy que eu achava uma graça. A cena se dava pela locução de um rapaz que se mostrava sem jeito, titubeante, com o pensamento e a fala entrecortados. Ele perdia as palavras, mostrava-se inseguro, perturbado, afogando-se em suas próprias emoções.

Ele dizia:

- Olá... éee.... 
- bem, eu só queria dizer... ahhh... 
- sabe...
- eu só estava imaginando se...
- olha... deixa eu te dizer...

Daí entrava uma moça (a locutora) com voz de quem está de bem com a vida, leve, segura, insinuante (quase podemos vê-la com um sorrisinho nos lábios)... e perguntava, assim, na lata!!!

- Ficou sem palavras???

(seguia-se um rápido silêncio)

(e ela mesma, com um tom bem humorado e sugestivo, respondia:)

- Compartilhe uma música!

(e play)...

Sempre que eu ouvia essa propaganda me dava vontade de compartilhar uma música, associada a certas cenas, lembranças e saudades... Eu teria muitas. Hoje escolhi essa: Peito Vazio, do Cartola e Elton Medeiros, na voz de Roberta Sá e Ney Matogrosso, tocada pelo Trio Madeira Brasil. 

Aumente o som, respire fundo... and play !!!







sábado, setembro 02, 2017

Adeus



Vai-te, que os meus abraços te magoaram,
E o meu amor não beija!, arde e devora.
Foram-se as flores do meu jardim. Ficaram
Raízes enterradas, braços fora...

Vai-te! O luar é para os outros; e os afagos
São para os outros..., os que ensaiam serenatas.
Já a lua que nos lagos bóia pérolas e pratas
Não nasce para mim, que estou sem lagos.

Quando me nasce, é como um reluzir da treva,
Um riso da escuridão,
Que na minh'alma ecoa, e que ma leva
Por lonjuras de frio e solidão...

Vai-te, como vão todos; e contentes, de libertos
Do peso de eu lhes não querer trautear mentiras.
Como serias tu, flébil flor de olhos de safiras,
Que me acompanharias nos desertos?

Vai-te! não me supliques que te minta!
Beijo-te os pés pelo que me oferecias.
Mas teu amor, e tu, e eu, e quanto eu sinta,
Que somos nós mais do que fantasias?

Sim, amor meu: em mim, teu amor era doce.
Premir na minha mão a concha nácar do teu seio
Era-me um bem suave enleio...
Era... — se o fosse.

Vai-te!, que eu fui chamado a conquistar
Os mundos que há nos fundos do meu nada.
Talvez depois reaprenda a inocência de amar...
Talvez... mas ai!, depois de que alvorada?

Porque até Lá, é longe; e é tão incerto,
Tão frio, tão sublime, tão abstracto, tão medonho...
Como dar-te a sonhar este sonho dum sonho?

— Vai-te! a tua casa é perto.


[ José Régio 1901-1969 | in 366 poemas que falam de amor | antologia organizada por Vasco da Graça Moura | Quetzal Editores ]





terça-feira, agosto 29, 2017

Dor


Esta, a lancinante, a companheira perpétua, dor, a amiga vitalícia – como funda e violentamente penetra, que é como se rasgasse, dentro aqui, é como se meticulosamente perfurasse, como se fendesse, dentro aqui, a veia mínima. Não a aorta ou carótida, mas a artéria ínfima, aquela que alimenta o centro do centro do centro do meu coração. E dói tanto, dói por ti, única e somente e infinitamente por ti.


texto | Ygor Raduy | in: Pequeno Manual de Coisas Absolutamente (Ir) Relevantes


quinta-feira, agosto 10, 2017

VI Encontro Hume - UFMG - BH - 2017


Segue abaixo o link para acessar a programação do VI Encontro Hume. O evento ocorrerá entre os dias 21 e 25 de Agosto de 2017 - na UFMG/Belo Horizonte/MG, and I'll be there...




terça-feira, agosto 01, 2017

Restos e destroços


[...]

(1.2)

Nem tudo se desfaz, anda em tudo um resquício,
um eco ou outro a mais de restos e destroços, 
que alcançam ou não alcançam voltar a serem nossos,
segundo um coração baixe a seu precipício.

Que a aventura é escarpada e a escalada difícil,
alguém já disse isso; diz-se também que os ossos
do ofício, nus, inglórios, são como um desperdício,
um fogo-fátuo na memória - quantos fósseis
somam um só rosto, a mão que o livra num só gesto
de um feixe de cabelos a tumultuar-lhe a testa...?

Resta que um corpo acorda louco de alegria,
só porque, oco como uma ânfora vazia,
ainda há pouco invadiu-o, lhe entrou por cada fresta,
a luz daquele gesto que ele há tempos não via...

[...]

Bruno Tolentino | As Epifanias | A imitação do Amanhecer | SP  Globo | 2006 


sexta-feira, julho 28, 2017

Cumplicidade



[ Eve | by Anna Lea Merritt 1844-1930 ]

MAÇÃ

Como se esta, ela, não estando morta, porém vivacíssima, guarda a suculência e o ritmo – como guardas tu a plenipotência o ritmo da tua pulsação – ela, a fruta sobre a mesa, nem flor, nem luz, nem silêncio, porém delicadamente silenciosa, como tu és delicadamente silencioso quando te convém. Ela, que pendia de um galho da árvore do conhecimento, proibida, porém atraente e infinitamente sedutora – assim como tu pendes à minha frente, evidentemente dulcíssimo, sem que eu possa em ti cravar os dentes, ou melhor, lentamente passear em ti e ao teu redor. Ela, a fruta, ele, o ente, estando ambos secretamente semelhantes, secretamente cúmplices de um mesmo e inocente crime, qual seja, o de estarem simplesmente existentes, porém absolutamente inacessíveis.

[ Ygor Raduy ]

..................

(Trata-se, acima, de mais um verbete do 'Pequeno Manual de Coisas Absolutamente (Ir) Relevantes II', written by my dearest friend Ygor Raduy, que gentilmente me concedeu o privilégio e o prazer de torná-lo público, tal como, aos poucos, tenho feito). 

sábado, julho 22, 2017

Dissolução


Pois se vens tu ao meu encontro ao fim da tarde, e com teus olhos negros, teu sorriso, te diriges a mim, com teus passos cuidadosos, tua fala macia e hesitante, procuro recolher em mim o som da tua voz, de modo que em algum lugar em mim possa ele permanecer guardado, quem sabe em algum fundo recesso do meu peito, quem sabe mesmo no centro do meu coração.

Pois se vens tu ao meu encontro ao fim da tarde, desconfio que sejas tu a própria tarde, e que o vento, o farfalhar das folhas e até mesmo a luz que ao fim da tarde arredonda os contornos das coisas e cobre tudo e todos com seu brilho fosco – desconfio que seja tudo isso uma parte de ti, que o que vejo ao fim da tarde não passa de uma extensão do teu corpo, do teu nome e do teu ser.

Mas em tudo isso devo estar enganado. Pois se algo em mim quer apagar o limite que te separa da tarde, se algo em mim insiste em dissolver-te na tarde, é porque dissolvendo-te em ar posso aspirar-te, dissolvendo-te em vento posso sentir na face o contato quase imaterial dos teus dedos e dissolvendo-te em luz posso participar do teu brilho e secretamente desfrutar do teu calor.


texto | Ygor Raduy | Pequeno Manual de Coisas Absolutamente (Ir)Relevantes II 



quarta-feira, julho 19, 2017

Voz da noite


O sol se apaga.
De mansinho,
a sombra cresce.

A voz da noite
diz, baixinho:
esquece... esquece..

[ Helena Kolody | Viagem no Espelho | 1988 ]



domingo, julho 16, 2017

Ausência de tudo


Há apenas o que chamamos silêncio
ou uma ausência de tudo: nome este que damos
à instância que nos remete ao nada,
à constância que nos remete ao vácuo,
o inapelável que nos remete à morte.

Há um rangido macio, sem quebras
mas com rodopios, falsetes, arabescos:
é o que chamamos sonho, miragem,
clivagem de entraves espaçados,
aragem dos frutos na colheita.

Há um susto, um murmúrio surdo,
um baque sem ouvintes, vestimenta:
é quando um poeta deixa de crer na linguagem.
Tão inteiro então é o silêncio
que é como se a noite mesma se fechasse.

Como se o ar, parado se abismasse;
e o fruto mesmo então é inconsistente;
e as vagas cedem, recrudescem à procura
De um pouso inabitável. Ou ainda:
inexistente.

[ poema & pintura | ygor raduy ]



domingo, julho 09, 2017

Retrato antigo


Ontem, ao rever essa foto de minha mãe, Walkyria Ferraz, lembrei-me desse poeminha...

"Quem é essa
que me olha
de tão longe,
com olhos que foram meus? "

[ Helena Kolody | Retrato Antigo | Poemas do amor impossível | 2002 ]



Para minha surpresa, ela [my mom] me disse que foi aluna da Helena Kolody no Instituto de Educação do Paraná. Achei o máaaximo (quisera eu...).

A foto, de Mirian Costa Vajani, foi a vencedora do 1º lugar no Concurso Desafio Virtual do Fotoclube de Londrina/2016 e encontra-se exposta no foyer do Cine Teatro Ouro Verde.

quinta-feira, julho 06, 2017

Pintura



man over yellow background
drawing | ygor raduy


Eu sei que se tocasse
com a mão aquele canto do quadro
onde um amarelo arde
me queimaria nele
ou teria manchado para sempre de delírio
a ponta dos dedos


Ferreira Gullar | Pintura | in Relâmpagos | São Paulo | Cosac & Naify  2003

segunda-feira, julho 03, 2017

Noturno


VIII

É noite. Paira no ar uma etérea magia;
nem uma asa transpõe o espaço ermo e calado;
e, no tear da amplidão, a Lua, do alto, fia
véus lumiosos para o universal noivado.

Suponho ser a treva uma alcova sombria,
onde tudo repousa unido, acasalado.
a Lua tece, borda e para a Terra envia
finos, fluidos filós, que a envolvem lado a lado.

Uma brisa sutil, úmida, fria, lassa,
erra de quando em quando. É uma noite de bodas
esta noite... há por tudo um sensual arrepio.

Sinto pelos no vento... É a Volúpia que passa,
flexuosa, a se roçar por sobre as coisas todas,
como uma gata errando em seu eterno cio.


[Gilka Machado | Cristais Partidos ]


sábado, julho 01, 2017

O poeta pergunta a seu amor...

             
               "[...]
             
                Não viste pelo ar transparente
               uma dália de penas e alegrias
               que te mandou meu coração quente?"


surreal digital paintings 
by aykut aydoğdu


F. García Lorca | Sonetos do amor obscuro e Divã do Tamarit | Tradução de William Agel de Mello | SP | MEDIAfashion | 2012 | p.27

domingo, junho 25, 2017

Canto do amor impossível


Meu amor impossível
eu sou, na dor que me avassala,
o transeunte solitário perdido na tormenta.

O vento ulula, a chuva açoita, o raio estala,
e não há uma porta amiga,
um cálido refúgio
que me acolha e aqueça,
que me distraia e console
do rigor da tormenta.

O único refúgio serias tu,
e tu estás para além da muralha intransponível
que marca os limites do possível.

[ Helena Kolody | Infinita Sinfonia | Inventa 2014 | p. 126 ]


segunda-feira, junho 12, 2017

A espera do silêncio


No avesso das palavras
na contrária face
da minha solidão
eu te amei
e acariciei
o teu imperceptível crescer
como carne da lua
nos noturnos lábios entreabertos

E amei-te sem saberes
amei-te sem o saber
amando de te procurar
amando de te inventar

No contorno do fogo
desenhei o teu rosto
e para te reconhecer
mudei de corpo
troquei de noites
juntei crepúsculo e alvorada

Para me acostumar
à tua intermitente ausência
ensinei às timbilas
a espera do silêncio




[ Mia Couto | Amei-te Sem Saberes | In: Raiz de Orvalho e Outros Poemas | Editorial Caminho | Lisboa | 1999 ]


quinta-feira, junho 01, 2017

Frágil e incerta


Há pouco, ao me levantar da cadeira na qual estudava, levei um tombo ridículo (como em geral são os tombos). Virei-me rapidamente para ir até a sala buscar meu celular e tropecei feio no adorável cão da casa que, por sua vez, descansava silenciosamente logo atrás da cadeira. Chegou ali sem que eu, absorta, o tivesse percebido. Ele é meio cor de creme, o piso da casa é cor de creme e até eu sou meio cor de creme. Diante desse cenário de cores e tons praticamente indistintos, não vi nada na minha frente, afora, após o tombo, o chão na cara, uma escuridão momentânea, seguida de algumas estrelas piscando. Caí dura, de corpo inteiro no chão, feito bloco de pedra, pois o silente e vigilante companheiro ─ que é grande e alto ─ me passou uma rasteira. Levantou-se rapidíssimo deslocando meus dois pés do chão ao mesmo tempo. Sem qualquer apoio, a queda foi praticamente livre. Digo praticamente porque consegui amortizá-la um pouco com as duas mãos. As veias de meus pulsos saltaram grossas e roxas. Meus ossos gritaram. 

Doeu pacas!!! Cheguei a tocar o nariz e a testa no chão. Junto a essa cena tragicômica, senti uma pontada nas escápulas, no pescoço, e uma forte dor no peito. Ninguém assistiu ao espetáculo, a não ser o próprio Bóris ─ doce cão, amigo, querido, e cheio de expressão nos olhos. Sem ninguém para me acudir no momento, fiquei ali por um tempo, estatelada, gemendo muitos ais. Aos poucos, fui me levantando. Toda trêmula e doída.

Pensei: tive muita sorte. Se eu tivesse caído de modo um pouco mais desajeitado, as consequências poderiam ter sido desastrosas. Eu poderia ter quebrado o nariz, ou o osso da fronte, um ou outro ou ambos os braços, ou uma clavícula, os pulsos, ou mesmo o pescoço ─ um pensamento trágico nunca pode faltar em se tratando de moi...

Ah... como a vida é frágil e incerta! Eu poderia ter me quebrado toda. Um tombinho de nada (na verdade, um tombão ridículo!) e tudo que eu programei para a semana que vem, ou mesmo para o resto de minha vida, seria revirado, alterado ou afundado.

[Boris: cheio de expressão nos olhos]


E por falar em vida frágil e incerta, a gente ouve falar daquelas pessoas que morrem num tombo besta porque caíram de mau jeito. Pensei: ainda que eu esteja agora toda dolorida, com hematomas nos dois pulsos, caí de bom jeito, assim como capotei de bom jeito na famosa estrada da morte, em outubro de 2016, a mais ou menos 100 km de Curitiba. Nessa capotada, que de cômica não teve nada (uma clássica rodada no óleo de uma pista sob garoa), também tive muita sorte. Saí praticamente indene. Não fiz nenhum corte, não verti nenhuma gota de sangue, não quebrei um osso sequer. Ganhei apenas alguns hematomas abaixo dos joelhos, nas costelas e clavícula esquerda, além de diversos incômodos práticos e dores pelo corpo todo (como se tivesse levado uma surra). Mal acreditei que na hora do acidente não fiquei nem tonta e saí andando, embora estupefata, imediatamente após o carro parar embicado numa vala do canteiro que divide as pistas. Mas, para a sorte do meu destino, "esse fantasma sincronizador" (como diz Humbert Humbert em Lolita), com as rodas no chão. Para não dizer que não perdi nada, perdi alguns materiais impressos de estudos (que foram parar na lama), um brinco da orelha esquerda, meu Celtinha "bala" ─ tão leve, rodado e cheio de spirit ─ e mais algumas ilusões.

sexta-feira, maio 26, 2017

Diálogos sobre a religião natural


"No caso dos raciocínios teológicos [...] 
somos como forasteiros numa terra estranha,
aos quais tudo parece suspeito" (D 1 § 10: 37).

[ William Blake | O primeiro dia |1794 ]

Os Diálogos Sobre a Religião Natural, escritos entre 1751 e 1755 e publicados em 1779, constituem-se num dos mais importantes e influentes textos filosóficos de Hume, bem como num dos mais belos e engenhosos exemplos de diálogo filosófico. E embora a obra seja voltada para a temática da filosofia da religião, ela é uma contribuição de primeira grandeza para investigações filosóficas mais gerais como, por exemplo, metafísica, teorias do conhecimento, e também para a própria filosofia moral ou ciência da natureza humana que Hume pretendeu fundar. Nesse sentido, o texto dos Diálogos é um clássico filosófico amplamente reconhecido que figura entre as obras mestras de Hume.


Acesso ao cronograma do evento em http://filosofia.ufsc.br/

I'll be there...


quarta-feira, maio 24, 2017

A um ausente


Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.

Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu,
enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
por que o fizeste, por que te foste.


Carlos Drummond de Andrade | 'A Um Ausente' | In: Farewell | Poesia Completa | Editora Nova Aguilar | Rio de Janeiro | 2007



Qualquer ser humano que conhece o amor e a dor da perda de um amor, ou de um amigo, sentir-se-ia, creio eu, profundamente tocado por esse belíssimo e penetrante poema. Mas nem todos, talvez, procurassem saber a trágica história que ele conta. A quem interessar possa, deixo aqui o link que a conta, por Marcelo Bortoloti:

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2015/07/1659927-a-homossexualidade-na-vida-e-na-obra-de-carlos-drummond-de-andrade.shtml


quarta-feira, maio 17, 2017

Dia Internacional contra a Homofobia




"[...]  Mesmo coberto de lama, eu te louvarei; dos abismos mais profundos, clamarei por ti. Na minha solidão estarás comigo. [...] O que a sabedoria representa para o filósofo, o que Deus representa para o santo, tu és para mim. Manter-te na minha alma, tal é o objetivo dessa dor que os homens chamam de vida. Ó meu amor, que eu amo acima de todas as coisas, narciso branco no campo agreste, pensa na dura tarefa que te compete, tarefa que só o amor pode tornar mais leve. Mas não te entristeças por isso, antes sê feliz por ter enchido de amor imortal a alma de um homem que agora chora no inferno, mas leva o céu no coração. Eu te amo, eu te amo, meu coração é uma rosa que teu amor fez florescer, minha vida é deserto arejado pela brisa deliciosa do teu hálito e cujas fontes frescas são teus olhos; a marca de teus pezinhos cria vales de sombra para mim, o aroma de teus cabelos é como a mirra; por onde passas, exalas o perfume das acácias.

Ama-me sempre, ama-me sempre. Foste o amor supremo, o amor perfeito da minha vida; não pode haver outro.

[...] 

Ó mais doce dos meninos, mais amado dos amores, minha alma busca a tua, minha vida é tua vida e em todo o mundo de dor e prazer, és meu ideal de admiração e alegria." 

[ De Oscar Wilde para Lorde Alfred Douglas | 1895 ]


[ Cartas de amor de homens notáveis | Editado por Ursula Doyle | Tradução de Doralice Lima | Rio de Janeiro | BestSeller | 2010 | p.140-141 ]

terça-feira, maio 09, 2017

Ausência


"Antes, tu estavas. Agora, tu não estás mais. O agora é um agora sem ti. Lá fora, tão mansamente cai a chuva. Mas é uma chuva sem ti, e não importa quão mansamente ela caia, não importa nem mesmo que seja ela ou não a chuva, porque ela, assim como todas as outras coisas, são coisas sem ti. E eu mesmo – eu respiro sem ti, meu coração pulsa sem ti em algum lugar fora do lugar do coração, eu me olho no espelho e verifico que sou uma face sem ti, meus olhos sem ti são dois buracos ocos sem serventia, já que a única serventia que eles tinham era olhar-te e agora, sem ti, eles miram estupidamente o vazio. Não me encontro alegre nem triste. Alegria e tristeza eram somente possíveis por ti, ou em teu louvor. Agora que te foste, não há razão alguma pela qual possa eu alegrar-me ou entristecer-me. Há apenas esse apático e despovoado e monótono agora sem ti e, dentro dele, lágrimas que verto sem razão."


[ Ygor Raduy | Pequeno Manual de Coisas Absolutamente (Ir)Relevantes ]




art by Mantha Tsialiou