terça-feira, outubro 28, 2014

Ceticismo e Fideísmo em Hume

XVI Encontro Nacional de Filosofia da ANPOF
27 a 31 de outubro de 2014
Campos do Jordão/SP


Eis o resumo de meu trabalho

Ceticismo e Fideísmo em Hume

Nesta comunicação pretendo discutir se há boas razões para assumir a interpretação segundo a qual Hume ofereceria suportes teóricos ao fideísmo, isto é, à ideia de que a religião encontra na fé, e não na razão, uma base sólida para a sua validade - controvérsia que tem lugar especial em sua obra Diálogos sobre a Religião Natural. Para tanto, divido minha comunicação em três partes. Na primeira, considerando a combinação que Hume faz entre o fideísmo místico de Demea e o ceticismo de Philo, avalio a hipótese segundo a qual sua filosofia poderia autenticar o fideísmo, haja vista ser digno de nota que Philo (personagem mais frequentemente interpretado como porta-voz do próprio Hume), ao ressaltar os limites e incertezas da razão humana, abre espaço para que a fé religiosa possa ser fundamentada em seu ceticismo filosófico. Na segunda, procuro levantar algumas dificuldades à leitura fideísta para, em seguida mostrar, que o ataque cético de Hume às doutrinas e princípios religiosos pode e deve ser interpretado à luz de seu interesse em estabelecer uma consideração científica e secular da moralidade. Por fim, apresento e defendo a hipótese segundo a qual a filosofia de Hume, a despeito das várias passagens em que Philo professa, digamos assim, uma confissão de fé, interdita o acolhimento filosófico do fideísmo, embora não se deva afirmar que ele esteja definitivamente proscrito da compreensão que Hume tem acerca da religião. Isto porque embora o fideísmo não seja desejável, conforme deverei mostrar, ele pode sim ser entendido como teoricamente permissível. No entanto, ainda que o fideísmo possa ser permissível em termos especulativos, as crenças religiosas, no interior da filosofia moral de Hume, resultam ociosas e inoperantes. A bem da verdade, vale ressaltar que elas não apenas se apresentam ociosas e inoperantes, mas, numa compreensão mais acurada, deve-se reconhecer que elas provocam efeitos danosos à sociedade, especialmente nas formas supersticiosas e entusiastas.

segunda-feira, outubro 27, 2014

Vontade e vontade: Como assim?

Penso que é possível dizer que o conceito mais fundamental da filosofia de Schopenhauer é o de vontade. À primeira vista, parece muito simples, afinal, quem não sabe o que é vontade, ter vontade, sentir vontade? Como Schopenhauer mesmo diz: a vontade é o que há em nós de mais imediatamente conhecido (MVR §18). Mas cuidado: essa vontade é apenas a vontade como fenômeno. Ora, o que significa isso? Bom, para respondermos a essa questão é necessário distinguirmos a vontade como coisa em si e a vontade como fenômeno. A vontade fenomênica (ao menos a nossa) é essa que se expressa em nosso desejos e atos particulares, ou seja, essa de que temos consciência e conhecemos através do nosso corpo. Vontade como designação da coisa em si e vontade como aparência ou manifestação fenomênica são coisas bem diferentes e essa distinção é condição sine qua non para entendermos a filosofia de Schopenhauer. Não se pode confundir a primeira que, considerada puramente em si mesma, é desprovida de conhecimento e, portanto, não é mais que um impulso cego, sem finalidade e direção; não se pode confundir, dizia eu, com a vontade humana ou com nenhum outro tipo de processo consciente. Ora, mas a vontade não é aquilo que sempre quer alguma coisa? Que corre para a satisfação de um ou mais desejos? Então, como pode não ter finalidade ou direção? Mais uma vez impõe-se a necessidade da famosa distinção.

A afirmação schopenhaueriana de que a vontade, como coisa-em-si (bem entendido) é um impulso cego, sem finalidade e direção, é inequívoca, uma vez que é textual em vários parágrafos de O Mundo como Vontade e Representação. Precisamente no § 29 Schopenhauer diz: “A ausência de qualquer finalidade e de qualquer limite é, com efeito, essencial à vontade em si, que é um esforço sem fim” (§29 p.172). “A renovação contínua da matéria em cada organismo é ainda uma simples manifestação deste esforço e deste movimento perpétuos. Um eterno devir, um escoamento sem fim, eis o que caracteriza as manifestações da vontade. Todo ato particular tem uma finalidade; a própria vontade não a tem; como todos os fenômenos naturais isolados, a sua aparição em tal lugar, em tal momento, é determinada por uma causa que lhe dá fundamento; mas a força mais geral que se manifesta nesse fenômeno não tem ela própria causa, visto que ela é apenas um grau das manifestações da coisa em si, da vontade que escapa ao princípio da razão. Em resumo, a vontade sabe sempre, quando a consciência a ilumina, o que quer em tal momento e em tal lugar; o que ela quer em geral, ela nunca o sabe” (§29 p.173).

Como vocês podem ver, Schopenhauer fala em finalidade também. Mas essa só existe no ato particular (de uma vontade como fenômeno, iluminada pelo conhecimento e submetida ao princípio de razão suficiente). “Assim, o homem tem sempre uma finalidade e motivos que regulam suas ações: pode sempre dar conta da sua conduta em cada caso. Mas perguntem-lhe por que é que ele quer, ou por que é que ele quer ser, de uma maneira geral: não saberá o que responder, a questão lhe parecerá mesmo absurda”(§29 p.172). Pois bem, em suma, para Schopenhauer o que a vontade (como coisa em si) quer é simplesmente viver. A vontade como coisa em si é vontade de vida, mas carece da consciência disso. Schopenhauer chega a dizer que falar em vontade de vida seria mesmo um pleonasmo porque vontade, como essência do mundo, já pressupõe o querer viver, à medida que incessantemente disputa, cega e obstinadamente, a matéria, o espaço e o tempo para objetivar-se no fenômeno. E a vontade pode objetivar-se como matéria inorgânica, orgânica vegetal ou orgânica animal. Seja aqui, lá ou acolá. Seja neste ou noutro momento qualquer.


sábado, outubro 25, 2014

Esta noite ou nunca mais

"Não consigo mais ouvir em silêncio. Tenho de falar com você com os meios que estão ao meu alcance. Você trespassa a minha alma. Sou agonia e esperança. Não me diga que é tarde demais, que tais preciosos sentimentos se foram para sempre. Eu volto a me oferecer a você, com um coração ainda mais seu do que quando você quase o partiu, oito anos e meio atrás. Não ouse dizer que os homens se esquecem mais rápido do que as mulheres, que o amor deles morre mais cedo. Só a você tenho amado. Posso ter sido injusto, fui fraco e ressentido, mas nunca inconstante. Só por você vim a Bath. Só por você eu penso e faço planos. Será que você não viu? Será que você não conseguiu entender meus desejos? [...] Tenho de ir, incerto de meu futuro; mas vou voltar para cá [...]. Uma palavra, um olhar serão o bastante para decidir se entrarei na casa de seu pai esta noite ou nunca mais."

(Capitão Frederick Wentworth à Anne Elliot, pp.280-281).

sexta-feira, outubro 24, 2014

Question mark


Otto havia saído e batido a porta. Ella pegou um cigarro, sentou-se ao chão da sala e ali, paralisada, permaneceu. Não sentia as lágrimas molharem seu rosto, seus cabelos, suas roupas. Não sentia as pernas adormecerem. Sabia apenas que não conseguia se mover. Ella estava ali e não estava. O telefone tocava como um ruído ao longe. Ella só sentia a ardência do cigarro em sua garganta. O choro, feito convulsão, não veio naquele momento, era somente uma água salgada e silenciosa que, por ausência de força, não conseguia enxugar. O pensamento ficou completamente borrado. De repente, sentiu uma dor tão violenta como se nunca mais pudesse sair daquela posição em que estava. Faltara-lhe o grito, o desespero, a fúria. A dor provocara-lhe a contenção de qualquer movimento voluntário. As lágrimas continuavam a escorrer e a grudar por todo seu corpo. Quando, finalmente, conseguiu se perceber no tempo e no espaço, Ella resolveu sair. No carro, enxergava o trânsito como por detrás de um fundo de garrafa. Tudo tinha ficado inaudível. À noite, depois de um esforço imenso, o pensamento de Ella começou, lentamente a, de algum modo, se organizar. Repassou cada movimento de Otto. Ouviu mil vezes cada palavra que havia sido dita. Reviu todos os olhares que ele lhe havia lançado. Tentou, friamente, reconstruir aqueles dias ─ o que custara a Ella cavar e revirar ainda mais o buraco aberto em seu peito. Cada gesto do qual Ella se lembrava, agitava-lhe o entendimento que, por sua vez, lutava desesperadamente contra sua tentativa de compreensão. Nela, só havia incompreensão. E um enorme ponto de interrogação.

quinta-feira, outubro 23, 2014

O espanto filosófico


"E é próprio do filósofo admirar-se, e o filosofar não tem outra origem senão o estar pleno de admiração" (Platão. Teeteto, 155 d).


Não sei de quem é a tradução dessa passagem do Teeteto. Retirei daqui 
http://www2.dbd.puc-rio.br/pergamum/tesesabertas/0115685_03_cap_03.pdf
mas fui conferir na minha edição e a encontrei traduzida de modo diferente:

Vale dizer que nessa passagem Sócrates diz a Teeteto que Teodoro parece ser um bom avaliador no que tange à natureza de Teeteto (de possuir, entre muitas outras virtudes, um intelecto prodigiosamente bem dotado). Teeteto havia acabado de dizer a Sócrates estar perplexo, a ponto de chegar a experimentar vertigem quando se põe a considerar todas as questões que emergiam da discussão a respeito do "que é conhecimento". Sócrates diz que "esse sentimento de perplexidade (müsteria) revela que [Teeteto] és um filósofo, já que para a filosofia só existe um começo: a perplexidade"  (Teeteto, 155-d, edição da Edipro/2007).

Na edição da Fundação Calouste Gulbenkian a mesma passagem se apresenta traduzida do seguinte modo: "Efectivamente, meu amigo, Teodoro parece não ter adivinhado mal a tua natureza. Pois o que estás a passar, o maravilhares-te, é mais de um filósofo. De facto, não há outro princípio da filosofia que não este" (155-d).


"Teeteto - Pelos deuses, Sócrates, causa-me grande admiração o que tudo isso possa ser, e só de considerá-lo, chego a ter vertigens.
Sócrates - Estou vendo, amigo, que Teodoro não ajuizou erradamente tua natureza, pois a admiração é a verdadeira característica do filósofo. Não tem outra origem a filosofia" (155-d).

Preciosismos acerca das traduções à parte (ai que mania), Aristóteles perfilha essa mesma visão ao afirmar na Metafísica [A 2 982 b 10-15] que "de fato, os homens começaram a filosofar, agora como na origem, por causa da admiração, na medida em que, inicialmente, ficavam perplexos diante das dificuldades mais simples." 

Por sua vez, Schopenhauer, com sua concepção pessimista da existência, diz no suplemento 17 (referência ao § 15) do livro I do Mundo Como Vontade e Representação que:

"O espanto filosófico é no fundo uma estupefação dolorosa; a filosofia começa, como a abertura de Don Juan, por um acorde menor... É o mal moral, o sofrimento e a morte que conferem ao espanto filosófico sua qualidade e intensidade particulares; o punctum pruriens da metafísica, o problema que enche a humanidade de uma inquietude que nem o ceticismo nem o criticismo poderiam acalmar; consiste em se perguntar não somente por que o mundo existe, mas também por que ele é pleno de tantas misérias."

Sobre essa bela e pungente passagem (bem como acerca do significado de punctum pruriens) escrevi em 

[e, vejam só, cinco dias depois descubro de quem é a tradução da citação lá de cima, a que inspirou este post: é do Giovanni Reale em sua História da Filosofia Antiga volume I, p.387]

sábado, outubro 18, 2014

E por que não o nada?

Eu ia escrever algo sério sobre filosofia. Tratar, ainda que episodicamente, de ao menos um dos diversos temas, autores ou conceitos próprios da filosofia antiga, já que, por força das circunstâncias, passei os últimos cinquenta dias da minha vida debruçada sobre dez temas relativos a esse período da história da filosofia (e mais vinte dias me aguardam ainda em torno deles). Não foi a primeira vez, mas desta vez foi mais ampla, pontual e insistente. 

Tais temas envolvem o pensamento filosófico desde os Pré-Socráticos (século VI a.C) até Plotino (séc. III d.C), ou seja, quase mil anos de história. Confesso que não foi fácil, pois, a cada vez que começava a estudar um tema, os problemas filosóficos começavam a pulular. E o assunto crescia... crescia... crescia... até tornar-se gigante. Quanto mais procurava saber, mais percebia que nada sabia (é, Sócrates sabia o que dizia quando disse "sei que nada sei").

Enquanto isso eu pensava: por Zeus!!! das duas uma, ou vou ser engolida pela Physis ou massacrada pelo Logos, e jamais saberei A Verdade

Não, calma lá! Certamente haverá outras hipóteses: talvez eu transcenda essa esfera sensível, ascenda à esfera inteligível e nunca mais volte. Assim poderei definitivamente libertar minha alma desse cárcere em que ela habita e contemplar as ideias e formas platônicas, isto é, o verdadeiro Ser, em toda a sua plenitude.

Bom, mas se isso não acontecer, provavelmente morrerei intoxicada e louca de tanta substância aspirada das páginas da Metafísica de Aristóteles. E não haverá motor imóvel nenhum capaz de me mover. Meu repouso será eterno.

Ao mesmo tempo, também me perguntava: será que não posso mesmo entrar duas vezes no mesmo rio, como diz Heráclito, já que, no momento seguinte, nem o rio nem eu mesma somos mais os mesmos? "aos que entram nos mesmos rios outras e outras águas afluem [...] (frag. 12); "nós entramos e não entramos nos mesmos rios, somos e não somos" (frag.49). 

Será que as coisas são e não podem deixar de ser, ou não são e jamais poderão ser, como afirmou Parmênides (frag. 2,3)? 

Ora ora, Epicuro, tem certeza de que a felicidade identifica-se com o prazer e de que é possível alcançá-la pelos meios que você indica? Heloooo Sêneca, seria mesmo desejável a beata vita proposta por você (na esteira do estoicismo)? Diga-me, caro Protágoras, serei mesmo a medida de todas as coisas, das que são enquanto são e das que não são enquanto não são? Ou devo ouvir os céticos e suspender todos  os meus juízos?

Oh, god, que mundo é esse? Quem sou eu (se é que sou)? De onde venho? Para onde vou? Por que isso e não aquilo? E por que não o nada?




sexta-feira, outubro 03, 2014

A teus pés

“Oh! Como teria gostado de passar meio dia ajoelhado a teus pés, com a cabeça sobre teus joelhos, sonhando lindos sonhos, contando-te meus pensamentos com lassitude, com arrebatamento, às vezes sem dizer nada, mas pressionando meus lábios contra teu vestido!… Minha alma voa para ti com esses papéis; como um louco, digo-lhes milhares de coisas; como um louco. [...] Se, para uma mulher, ser feliz é saber-se única no coração de um homem, só ela, enchendo-o por completo, certa de ser a luz que brilha na inteligência dele, segura de ser seu sangue e de animar cada batida de seu coração, de viver-lhe na mente como a própria substância do pensamento, tendo a certeza de que sempre, sempre será assim; eh bien, querida soberana de minha alma, podes considerar-te feliz, e feliz senza brama, pois é assim que serei teu até a morte. É possível sentirmos saciedade das coisas humanas, mas não das coisas divinas, e só esta palavra pode explicar o que representas para mim" (Honoré de Balzac para Condessa Ewelina Hanska).


Ah, Balzac... Balzac... Balzac... divino é você!