terça-feira, dezembro 07, 2010

O fugaz reino dos perfumes




“... as pessoas podiam fechar os olhos diante da grandeza, do assustador, da beleza, e podiam tapar os ouvidos diante da melodia ou de palavras sedutoras. Mas não podiam escapar ao aroma. Pois o aroma é um irmão da respiração – ele penetra nas pessoas, elas não podem escapar-lhe caso queiram viver. E bem para dentro delas é que vai o aroma, diretamente para o coração, distinguindo lá categoricamente entre atração e menosprezo, nojo e prazer, amor e ódio. Quem dominasse os odores dominaria o coração das pessoas.”

(trecho extraído do romance O Perfume: A História de um Assassino, de Patrick Süskind. Tradução de Flávio Kothe. 3a. ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010).

Caramba! não posso ficar aqui a me deleitar nas palavras e “ideias perfumísticas” que essa passagem suscita. Tenho feito isso nas horas vagas (que nunca são tão vagas assim, mas não importa). A ideia deste romance é literalmente e literariamente genial e surreal. A história que Süskind inventou é tão louca interessante bela e profunda que, arrebatada, aqui me precipito! Só estou na metade do livro, mas desde o momento em que cheirei as primeiras linhas estou a me conter para não chutar o pau da barraca e passar o dia todo a ler e escrever sobre ele.

Logo de início o autor dá uma ideia geral do caráter do seu protagonista. Ele diz: “No século XVIII viveu na França um homem que pertenceu à galeria das mais geniais e detestáveis figuras daquele século nada pobre em figuras geniais e detestáveis.” E acrescenta que se Jean Baptiste Grenouille, “ao contrário dos nomes de outros geniais monstros como, digamos, Sade [...] Bonaparte etc, o seu nome caiu no esquecimento” não foi porque Grenouille estivesse aquém desses “homens das trevas, famosos em termos de arrogância, desprezo à raça humana, imoralidade, ou seja, impiedade, mas porque o seu gênio e a sua única ambição se concentravam numa área que não deixa rastros na História: o fugaz reino dos perfumes” (p.09).

Süskind escreve bem demais. Suas descrições não só das características físicas e psicológicas dos personagens (especialmente do protagonista, of course), mas também das situações e ambientes em que a história se passa, são de uma riqueza avassaladora. Qualquer coisa que qualquer mortal comum possa dizer será infinitamente menos bela, interessante e genial do que o que este autor diz. Então, é melhor deixá-lo falar:

A linguagem dos aromas

Grenouille é um personagem surreal. Alguém que cheira como quem espreita. “O idiota enxerga mais com o nariz do que com os olhos” (p.21) Possuía “o melhor nariz do mundo, tanto analítico quanto visionário” (p.106). Isso significa que o olfato era seu sentido mais aguçado. E todos os seus outros sentidos eram, digamos assim, defectivos. Na verdade, ele era um sujeito muito esquisito, praticamente um débil mental. Sentia o cheiro de tudo, mas, curiosamente, ele próprio, era completamente inodoro.

“Vivia encapsulado em si mesmo...” (p.29), silencioso como uma sombra. Não se esperava dele “qualquer manifestação afetiva” uma vez que a sua própria afetividade fora, por força das circunstâncias em que nasceu e cresceu, “bem lacrada” (p.29). Não precisava de luz para ver, pois se orientava apenas pelo nariz (p.132). E por uma espécie de aversão, menosprezo e ódio aos seres humanos, Grenouille buscava a maior solidão possível.

“... a rigor, não havia qualquer coisa no universo interior de Grenouille, mas apenas odores de coisas. (Por isso, falar desse universo como uma paisagem é força de expressão, pois a nossa linguagem não serve para descrever [os matizes] do mundo olfativo)” (p.140). Ela é infinitamente mais pobre.

Grenouille “tinha a maior dificuldade com palavras que não designassem algo que cheirasse, ou seja, com conceitos abstratos, sobretudo de natureza ética e moral... direito, consciência, Deus, alegria, responsabilidade, humildade, gratidão etc. ─ o que se devia expressar por isso era e continuou sendo para ele algo misterioso... a linguagem corrente já não seria suficiente para designar todos aqueles conceitos olfativos que ele reunira em si” (p.32).

“[...] Que aquela bebida branca que, a cada manhã, Madame Gaillard aprontava para as suas crias fosse simplesmente chamada de leite, quando, segundo a percepção de Grenouille, cheirava e tinha um gosto completamente diferente conforme estivesse quente, conforme a vaca de que provinha, conforme o que essa vaca tivesse comido, conforme a quantidade de nata que tivesse sido deixada e assim por diante..., que a fumaça, com seus cem odores distintos, a mudar a cada minuto, a cada segundo, constituindo uma nova constelação de odores composta em uma nova unidade, a fumaça do fogo, só tivesse exatamente um único nome, “fumaça”...; que a terra, a paisagem, os ares que a cada passo e, ao respirar-se, de inspiração, em inspiração, estavam plenos de um outro cheiro e, com isso, animados por outra identidade, mesmo assim tivessem de ser designados por aquelas três grosseiras palavras... todos esses grotescos desacertos entre a riqueza do mundo percebido pelo olfato e a pobreza da linguagem fizeram o garoto Grenouille duvidar do próprio sentido da linguagem, e ele resolveu só empregá-la quando o contato com outras pessoas tornasse isso absolutamente necessário” (p.32-33).

O alfabeto dos odores

“Aos 6 anos, já havia captado olfativamente todos os seus arredores. ... não havia objeto... não havia lugar, ser humano, pedra, árvore, arbusto ou cerca de ripas, nenhuma superfície, por menor que fosse, que ele não conhecesse pelo cheiro, que não reconhecesse e não guardasse firmemente na memória, em seu caráter único. Ele havia reunido dez mil, cem mil odores peculiares e específicos, mantendo-os à sua disposição tão nitidamente, tão sob controle, que não só se recordava deles quando voltava a cheirá-los como de fato os cheirava quando se recordava deles; sim, e ainda mais do que isso, sabia combiná-los de um modo novo entre si apenas em sua fantasia e, assim, criava em si mesmo odores que nem sequer existiam no mundo real. Era como se possuísse um enorme vocabulário de odores aprendido por conta própria, que o capacitava a formar uma quantidade enorme ─ simplesmente, tantas quanto quisesse ─ de novas frases de odores...” (p.33).

“Talvez o seu talento fosse comparável ao de uma criança-prodígio no âmbito da música, que tivesse, a partir das melodias e harmonias, decifrado o alfabeto dos tons individuais e que agora compusesse ela mesma melodias e harmonias completamente novas. A diferença, é claro, era que o alfabeto dos odores era incomparavelmente maior e mais diferenciado do que o dos tons e, além disso, a atividade criativa de Grenouille se realizava somente em seu interior e não podia ser percebida por ninguém, exceto por ele mesmo” (p.33-34). Ele era “uma presença inquietante... alguém que tinha o dom de ver através de paredes e vigas...” (p.35).

Mas “quem, como ele [Grenouille], tinha sobrevivido ao próprio nascimento no lixo não se deixava expulsar tão facilmente do mundo. Era capaz de comer sopa aguada dias seguidos, sobrevivia com o leite mais diluído, suportava os legumes e as carnes mais podres. Ao longo da infância, sobreviveu ao sarampo, disenteria, varicela, cólera, a uma queda de 6 metros num poço e a uma queimadura no peito com água fervente” (p.27).

“Era duro como uma bactéria resistente e auto-suficiente como um carrapato colado numa árvore, que vive de uma gotinha de sangue sugada no ano anterior. Precisava de um mínimo de alimentação e vestimenta para o corpo. Para a alma, não precisava de nada. Calor humano, dedicação, delicadeza, amor ─ ou seja lá como se chamam todas as coisas que dizem que uma criança necessita ─ eram completamente dispensáveis... Ou então, assim nos parece, ele as tinha tornado dispensáveis simplesmente para poder sobreviver” (p.27).

“O grito depois de seu nascimento, o grito sob a mesa de limpar peixe, o grito com que ele se tinha feito notar e levado a mãe ao cadafalso, não fora um grito instintivo de compaixão e amor. Fora bem calculado, quase se poderia dizer um grito maduramente calculado, com que o recém-nascido se decidira contra o amor e, mesmo assim, a favor da vida. Naquelas circunstâncias, isso era possível sem aquilo e, se a criança tivesse exigido ambos, então teria, sem dúvida fenecido miseravelmente” (p.27-28).

“Também poderia, no entanto, ter escolhido, naquela ocasião, a outra possibilidade que lhe estava aberta, calando e deixando o caminho do nascimento para passar direto à morte sem esse desvio pela vida, e assim teria poupado a si e ao mundo uma porção de desgraças. Mas, para se omitir tão humildemente, teria sido necessário um mínimo de gentileza inata, e isto Grenouille não possuía. Foi um monstro desde o começo. Ele se decidiu em favor da vida por pura teimosia e maldade” (p.28).

Putz, preciso tabalhar. Volto outra hora! Fui...

(Título Original: Das Parfum, die Geschichte eines Mörders)

domingo, outubro 24, 2010

Assim não dá!


Algumas coisas são espantosas. É incrível a falta de noção de espaço que certas pessoas têm (e aqui, talvez, em determinadas situações, possamos incluir qualquer pessoa, inclusive eu mesma). Mas aqui o caso é bem específico, e eu não me incluiria jamais.

Explico: tenho em minha vizinhança uma família agitada que fala quase todo o tempo muito alto, especialmente nos finais de semana que é quando eles mais ficam em casa. Minha janela dá de frente para essa casa. Moro num apartamento térreo de uns predinhos, então, é como se eu fosse vizinha de casa. Entre o meu espaço e o dessa família, há um pequeno estacionamento aqui do prédio, afora muitas outras prejudicadas janelas que dão também de frente pra essa casa.

Putz: aquele pessoal fala alto mesmo! Eles começam o ti ti ti logo cedo. Se prestarmos atenção na conversa, podemos nos inteirar facilmente da “vida privada” daquela família (se bem que, adianto, certamente não vale à pena prestar atenção na vida deles). E digo vida privada, mas notem, nem tanto!

Percebo que há ali um casal, mais uma criança de uns 3 - 4 anos (me parece) e uma criança maior (talvez já adolescente). Repito: eles falam ALTO DEMAIS! E o pior, os pais resolvem ouvir música sertaneja no último volume. Quer dizer, a dose é dupla: falam alto e ouvem música muito alta. Aliás: a dose é tripla, pois as músicas são da pior qualidade (ao menos aos meus ouvidos e gosto, e, provavelmente, de muitos outros vizinhos). Talvez eu devesse acrescentar: a dose é Over, pois afora tudo isso a criança chora e faz manha o tempo todo, enquanto a mãe grita. Eles não têm noção (ou fingem não ter noção) do quanto me incomodam.

Tenho uma rotina X que inclui algumas horas de estudo, todos os dias, sejam dias de semana, sábados, domingos ou feriados. Não tenho hora para começar nem hora para terminar. Na verdade faço meu horário a bel prazer e dever. Tenho minhas preferências. Gosto de estudar mais de manhã, mas nem sempre nos dias de semana dá certo estudar mais nesse período do que nos outros (à tarde, à noite ou de madrugada). Porém, nos finais de semana, quando, em geral, minhas filhas saem com as amigas, fico mais livre para me deleitar nos estudos, nos livros de filosofia e literatura que sempre me acompanham, fico mais livre para tirar uma sonequinha fora de hora (claro, eu também mereço), enfim, são dias de descanso. Não estranhem, please! Quem gosta de filosofia, em geral, considera um dia assim (disponível para estudos), um dia de deleite e descanso. Ficar em casa sem ter de fazer nada, só estudar o que gostamos, é como descansar (embora, é claro, temos momentos em que ler, estudar e escrever, com o prazo apertado para entregar um trabalho, produzir uma tese, ou algo assim, é tarefa penosa; mas esse não é o ponto).

O ponto é que hoje xinguei meus vizinhos várias vezes (claro que eles não ouviram, esbravejei comigo mesma). Era domingo cedo e eu trabalhava concentrada. Paulatinamente comecei a sentir um incômodo, pois aquele tradicional burburinho familiar começara a invadir e azucrinar a minha cabeça. De repente, lá pelas dez da manhã, a música sertaneja estuprou de uma vez por todas o meu espaço. Fiquei louca de raiva! Parei, levantei e comecei a andar para lá e para cá, como um animal feroz enjaulado, xingando deus e o mundo. Pensei se seria razoável ir até lá educadamente explicar minha situação de “doutoranda” para a dona da casa, pedir gentilmente que eles contivessem aquela parafernália sonora. Fiquei na dúvida. Eles poderiam reagir de diversas maneiras. No melhor dos mundos possíveis eles, talvez, me atendessem. Mas poderiam também, em mundos cada vez piores, ser indiferentes, debochados, grosseiros e sei lá mais o quê! Fiquei na minha. Tentei várias vezes voltar a estudar, mas não conseguia mais me concentrar. Que droga!

Pensei: será que eles não percebem que estão a violar o princípio da liberdade (da minha e provavelmente de mais toda a vizinhança) de não querer, em hipótese alguma, ouvir aquela música desagradável e em volume excessivo? Será que eles não percebem que tal atitude não se concilia com a liberdade de todos segundo uma lei universal possível? Ok, nem precisamos apertar demais os parafusos. Não vamos exigir que eles entendam o que estou a reivindicar. Um pouco de bom senso bastaria!

quinta-feira, outubro 14, 2010

Minutos de Bobeira

26 de setembro, domingo:

 
 
 
chuvinha melancólica essa
meio mel meio cólica
meio poética e bucólica 
 
 
 
 
 

 
14 de outubro, dia esquisito:
   
hoje acordei epistemológica
depois de um tempo
fiquei patológica

acho que amanhã vou acordar neurastênica
e dormir epistêmica

putz...
a filosofia faz cada coisa com a gente

quinta-feira, setembro 30, 2010

Existência de Deus e Natureza Divina

RESUMO - ANPOF 2010
Águas de Lindoia - SP

[04/10/2010 - 08/10/2010]
Existência de Deus e Natureza Divina nos Diálogos sobre a Religião Natural de Hume: uma análise do argumento de Demea

Demea alega no início dos Diálogos sobre a Religião Natural (D) que não se discute entre pessoas razoáveis a existência de Deus, mas apenas a sua natureza.  Ele também sustenta que a existência de Deus é uma “verdade certa e auto-evidente” (D II: 27). Mas cabe perguntar: Demea se compromete ao longo dos Diálogos com a alegada verdade indubitável e auto-evidente? Acredito que não. Penso que o compromisso de Demea com o teísmo tradicional pode ser considerado um compromisso forte. Mas esse compromisso não deixa de ser afetado pela confusão de Demea entre argumentos a priori e a posteriori, embora pareça não ser afetado pelo fideísmo místico da existência de Deus como uma “verdade certa e auto-evidente”. Entendo que essa intervenção inicial de Demea, bem como de algumas outras declarações que parecem isoladas (conforme tentarei mostrar nesta comunicação), tem mais valor retórico do que propriamente argumentativo. Ademais, quanto à sua declaração (e também a de Fílon) de que a existência de Deus não está em questão, mas apenas a sua natureza, salta aos olhos que os Diálogos versam não só sobre a natureza de Deus, mas também sobre a sua existência. Tudo bem que os três personagens se apresentem de acordo quanto à proposição de que Deus existe. Mas se a existência de Deus fosse, de fato, uma “verdade certa e auto-evidente”, penso que não haveria tanta dificuldade, tampouco tanta discordância assim, nem seria necessário apresentar complexos argumentos e uma prova em favor dela. Nós a tomaríamos facilmente como certa e auto-evidente e discutiríamos apenas a sua natureza. Todavia, para que a discussão sobre a natureza divina faça sentido, é necessário assentar, com base em bons argumentos, a sua existência. E tanto Cleantes quanto Demea se esforçam para estabelecer as bases da existência divina confrontando as provas e argumentos que cada um julga mais apropriados a ela. O principal argumento de Demea a favor da existência de Deus pode ser assim resumido: a determinação da existência de algo somente pode ser pensada ou a partir do acaso, ou do nada, (ou, ainda, de uma causa que exista por si). Mas é absolutamente impossível que alguma coisa produza a si mesma ou seja causa de sua própria existência. O acaso (no sentido de ausência de causa, bem entendido) é uma palavra sem significado (cf. D IX: 119). Do nada, não pode ser, pois o nada não produz coisa alguma. Logo, um efeito singular deve ter sua causa última remetida à noção de um Ser necessariamente existente. Apenas um ser necessariamente existente pode trazer consigo a razão de sua existência e permitir, assim, que se torne significativa toda a sucessão de causas e efeitos particulares (cf. D IX: 119). Isto considerado, a comunicação tem como objetivo a descompactação deste argumento e o exame das críticas que Cleantes e Fílon fazem a ele, bem como de outras possíveis críticas às alegações em favor da existência de Deus sustentadas por Demea.

terça-feira, setembro 07, 2010

O Adolescente de Dostoiévski

Numa daquelas minhas passeadinhas pelo shopping resolvi (como quem não quer nada, embora eu sempre queira alguma coisa) entrar na livraria. É comum que eu faça isso. Vou ao shopping para pagar umas contas e acabo saindo com mais algumas. É claro que sempre me dirijo à prateleira de livros de filosofia (que, aliás, na livraria do nosso shopping é bem pobre e ruinzinha) e depois (ou antes) à de literatura. Dou aquela voltinha básica, cheia de desejos (e futuras novas dívidas... ai ai ai!).

Fiz esse movimento e me estendi um pouco: fui às estantes de livros para jovens adolescentes, já que duas de minhas filhas estão em plena teenager: fourteen e sixteen. Vi vários livros “moderninhos” que achei que elas gostariam de ler, mas livros que a meu ver estavam, ao menos naquele momento, muito longe de transmitirem o que eu gostaria que elas lessem. Queria algo de mais consistente. Mas, claro, adequado à idade delas. Hesitei entre vários, uns eu achava mais adequados, outros menos inadequados, e outros ainda completamente fora de propósitos. Na verdade minha dificuldade em escolher é que meus gostos e interesses são naturalmente e em grande parte muito diferentes dos delas (pois eu já estou bem crescidinha hehehe!). Por isso, no fundo, não costumo ler livros para adolescentes (e acho que vou ter que me inteirar mais sobre eles, ao menos para tentar educá-las melhor).


Eu me consumo um bocado ao vê-las tão dispersas (ou concentradas demais) em multishows, televisões, celulares, videoclipes e programas da internet. Não que eu ache que essas coisas sejam nocivas. Penso que toda essa tecnologia nos trouxe grandes vantagens e avanços em vários sentidos. Bem usada é uma maravilha! Mas o que me preocupa é perceber que o interesse geral da moçadinha teen está concentrado demais na vida hightech e passa a anos-luz do interesse por um bom livro de literatura. Tá certo que eu quando era teen não era lá uma leitora tão assídua. Eu me inclinava à leitura, lia, mas ainda timidamente. De qualquer modo percebia que ler bons livros era algo muito importante. Por isso, em meio às dispersões e loucuras daquela época, volta e meia eu descolava um bom livro pra ler, especialmente romances.

Putz... que mania que eu tenho de fazer rodeios. Vamos ao ponto!

Pensei: ─ Será que eu não encontraria aqui algum que viesse ao encontro dos interesses dela e também dos meus? Algum bom livro que me deixasse satisfeita em saber que elas gostaram de ler? Algum que despertasse nelas o gosto pela boa leitura? Nessa dúvida cruel, para minha surpresa, dei de cara com O Adolescente de Dostoiévski. Senti uma esperança e prazer enormes naquele momento. Eu não sabia (desculpem a ignorância) que Dostoiévski havia escrito esse livro. Li vários outros dele, mas desse eu nunca tinha ouvido falar. Folheei algumas páginas. Vi que Dostoiévski escreve-o em primeira pessoa (e eu adoro a escrita na primeira pessoa... rs um de meus traços egocêntricos!). Vi que se tratava do pensamento de um personagem adolescente: uma trama dostoievskiana contada por um protagonista adolescente de aproximadamente duzentos anos atrás, ou seja, que viveu num tempo, num país e sociedade completamente diferentes da nossa, e mais, de um adolescente que vive e pensa com a cabeça e a imaginação de um ser denso e subterrâneo como Dostoiévski ─ o próprio, of course!

Pensei: ─ acho que elas não vão gostar. Não me parece apropriado à idade delas, mas vou arriscar, mesmo porque eu já não conseguia mais desgrudá-lo de minhas mãos. Eu estava sedenta de curiosidade !!! Levei o livro pra casa, mostrei-o a elas e, de fato, minhas suspeitas se confirmaram: elas não se mostraram propriamente interessadas nele. Eu, ao contrário, devorei-o em dois dias.

Eis então uma amostrinha da ideia central do adolescente Arkádi Makárovitch Dolgorúki, filho bastardo (um dado crucial da trama) de Andrei Petróvitch Versílov e de uma criada, Sófia Andréiena, casada com um dos servos de Versílov.

Num encontro na casa de Dergatchov, onde se reuniam alguns colegas, Arkádi se envolve numa discussão que se tratava “de uma afirmação de Kraft [um dos colegas], um tanto surpreendente, de que o povo russo é um povo de segunda categoria, que serve unicamente de matéria a uma raça mais nobre” (p.44). Bom, como se pode perceber, o assunto é sério! A discussão toma vários rumos: passa pelas ideias de patriotismo, do bem da humanidade, da liberdade de pensamento, de preconceitos, enfim...

A princípio Arkádi apenas ouvia tencionando “não entrar na discussão para evitar julgamentos”, pois nunca fora “afeito a reuniões sociais, grupinhos e coisas do gênero” (p.43). Mas conforme o clima vai esquentando Arkádi se empolga e rompe seu silêncio percebendo que não havia mais volta. Ele “receava que aquela turma de filósofos de plantão ficasse sabendo de sua ideia e fizesse picadinho dela” (p.46). Ao abrir a boca e proferir uma de suas opiniões Arkádi ouve uma voz bastante sarcástica se destacando no grupo. Um professor, chamado Tikhomírov desafia-o (à queima-roupa) a apresentar sua ideia. Vejam só!


“... que me deixem em paz no meu canto! Vou viver sozinho, sem depender de ninguém, arcando com as consequências disso; enquanto tiver dois rublos no bolso, não farei nada pela humanidade ou por quem quer que seja. A liberdade individual me interessa acima de tudo. Minha dívida com a sociedade é paga por meio dos impostos, e espero com isso garantir minha segurança. Não se pode exigir mais nada de mim. Talvez no fundo eu pense diferente; talvez eu queira, sim, servir à humanidade, e o farei, quem sabe muito melhor do que qualquer monge ou benfeitor. Mas não acho justo que cobrem isso de mim, que me obriguem a ser caridoso, a submeter minha liberdade pessoal em prol de uma suposta liberdade coletiva. Se não mexer uma palha para o bem-estar comum, devo ainda assim ter minha liberdade garantida. Está na moda ficar se agarrando no pescoço dos outros e chorar por amor à humanidade. Moda, só isso. Por que devo amar o próximo, ou a um irmão imaginário de uma humanidade futura que não vou conhecer, e que tampouco me conhecerá? Um dia a humanidade também sumirá do mapa sem deixar vestígios, e a Terra vai virar uma bola de gelo que voará no espaço vazio ao lado de um monte de bolas de gelo iguais a ela. Não há nada mais maluco para se imaginar do que isso! Por que, por que ser generoso quando tudo dura apenas um instante?

─ Blá-blá-blá! ─ gritou uma voz.

Joguei-me no abismo. E queria cair depressa, para não ter tempo de ser barrado por ideias contrárias. Queria convencer a todos de uma vez, atropelá-los com meus pensamentos sem que houvesse réplica. [...] Sim, há o argumento de que agir em favor da humanidade também é parte do interesse individual. Mas não vejo razão nisso. Tenho só uma vida para viver! Prefiro eu mesmo conhecer meu interesse e viver para mim. Os outros que se lixem” (p.47-48)!

Bom, provavelmente algumas pessoas agora estejam com o estômago revirado, achando o fim da picada esse discurso do adolescente. Ele mesmo diz: “Sei que a liberdade de pensamento é de digestão um tanto difícil para o estômago da moral, que não é nada elástico. Para mim, o mais importante é ter encontrado um ideal. Pouco importa que ele seja o mais errado do universo. Talvez eu o aperfeiçoe e consiga transmiti-lo mais claramente dentro de uns dez anos” (p.67).

Ora ora, mas essa ideia é só o começo da picada rsr. Não quero aqui estragar o prazer da descoberta daqueles que ainda não leram esse livro. Como disse, essa é só uma amostrinha dos temas demasiado humanos, tão recorrentes no pensamento deste autor, digamos assim, de peso pesado: intrigas, brigas de família, disputas de heranças, jogatina, conflitos morais, paixões, amor, ódio, enfim, traições, temores, dúvidas, incertezas e contradições relatadas por um jovem idealista que vive como quem “dança no fio da navalha à beira de um abismo” (para parafrasear meu amigo Rodrigo Fregnan).

(Dostoiévski, Fiódor. O Adolescente; adaptação e apêndice Diego Rodrigues. São Paulo: Companhia das Letras, 2010).

[depois disso obviamente terei de voltar à livraria, de preferência acompanhada de minhas próprias adolescentes, pra que cada uma delas escolha um livro que venha ao encontro de seus interesses e gostos. acho que o livro (embora dito “adaptado”) estava classificado na estante e seção inapropriadas: não é porque o título é O Adolescente que sua leitura cai bem aos adolescentes, especialmente desses nossos “tempos modernos”, embora eu acredite na possibilidade de que alguns adolescentes possam se interessar por essa magnífica obra. quem sabe (I hope), quando minhas filhas crescerem mais um pouquinho elas passem a apreciar Dostoiévski].

terça-feira, agosto 17, 2010

Schopenhauer, as mulheres e os homens


Caro Fernando, obrigada pelo comentário em http://mariliacortes.blogspot.com/2010/03/arte-de-lidar-com-as-mulheres.html. Minhas observações estouraram o número de caracteres no campo dos comentários, por isso, publiquei-as aqui.



Infelizmente não tenho comigo, de modo completo, essa parte da filosofia de Schopenhauer. Meus comentários foram com base nas pequenas citações contidas no pequeno excerto que citei. Sei que isso traz o inconveniente de nos levar a imprecisões e equívocos interpretativos ─ por não contemplar a profundidade e extensão da teoria que o filósofo apresenta. Schopenhauer é um grande filósofo, mas que, como qualquer outro, pode cometer alguns pecados filosóficos, talvez não por estar completamente equivocado, mas simplesmente por fazer afirmações peremptórias que, a meu ver, não passam de hipóteses mais ou menos prováveis. Digamos que a hipótese de Schopenhauer seja mais do que menos provável em alguns aspectos! Digamos que a hipótese de Schopenhauer não seja completamente implausível, mas também que não se constitui numa verdade universal e necessária, tal como ele parece pretender. Que ela seja plausível... (o que já é bastante!).

Bom, devido à falta de um material em mãos para consultar, qualquer coisa que eu diga aqui será apenas a partir do que você citou e comentou: de minha parte, então, faço aqui rasos e arriscados (talvez até suicidas) comentários ao pé da letra (sem levar muito em conta o espírito), repletos muito mais de perguntas do que de respostas.

Segundo você, Schopenhauer diz:  "o homem dificilmente alcança a maturidade da sua razão e das suas capacidades intelectuais antes dos vinte e oito anos de idade; a mulher, aos dezoito. Trata-se também de uma lógica: uma lógica bem medida. Por isso, as mulheres permanecem crianças ao longo de toda a sua vida, vendo apenas o que está próximo, prendendo-se ao presente, tomando a aparência das coisas pelas coisas em si e dando prioridade a ninharias em detrimento de assuntos mais importantes:"

Pergunto: Quer dizer que as mulheres amadurecem (quanto à razão e suas capacidades intelectuais) aos 18 anos e, ao mesmo tempo, permanecem crianças ao longo de toda a sua vida, e que por isso essas faculdades são nelas mais falhas e imperfeitas? Quer dizer que quanto à razão e suas capacidades intelectuais as mulheres “estacionam” aos 18 anos? Mulheres amadurecem (de que modo: emocionalmente apenas?) permanecendo imaturas intelectualmente? Como assim? Não posso deixar de pensar que alguma inconsistência permeia esse raciocínio, ainda que, talvez, eu não possa prontamente indicá-la.

 Você diz que o autor justifica que os homens têm intelectos superiores aos das mulheres no parágrafo "Maturidade - masculina e feminina" (p. 16) afirmando que "quanto mais nobre e perfeita é uma coisa, mais tarde e mais lentamente ela atinge a maturidade.” Ora, com base em que Schopenhauer afirma isso? O que nos garante que as coisas são de fato assim? Talvez Schopenhauer tenha uma bom fundamento para dar suporte a isso: mas qual seria exatamente? Não sei como (ao menos a partir do século 20) é possível alguém dizer que tem conseguido constatar isso de forma empírica, tal como você disse.

Você conclui: "portanto, segundo o autor, os homens apreendem a inteligência das mães (tem lógica porque na maioria das sociedades de todos os tempos os filhos passam mais tempo com as mães do que com os pais), mas esta inteligência não nasce e fica por aí, esta inteligência vai evoluindo ao longo dos anos como está evidenciado no parágrafo que citei, chegando a um ponto que supera a inteligência das mães".

Quer dizer que os filhos, ao passarem mais tempo com as mães (“estacionadas”, sempre crianças, infantis e incapazes de desenvolver seus intelectos) desenvolvem suas inteligências naturalmente (herdadas das mães, segundo Schopenhauer) num ritmo 10 anos mais lento do que os de suas mães, e que, por isso, as superam em inteligência? Ele fala em herança ou desenvolvimento de inteligência? É essa inteligência herança genética ou, digamos assim, adquirida e desenvolvida pela educação? Não sei, mas parece haver algum parafuso solto aí.

Tudo bem que temos nos homens, como você bem assinala, os maiores exemplos de grandes feitos em várias áreas por toda a história. Mas não poderíamos atribuir este fato também a várias outras causas e circunstâncias? Todo mundo sabe que as mulheres por milênios foram subjugadas à força masculina (inegavelmente maior). Não bastaria que as coisas fossem assim para impedi-las de desenvolverem seus talentos e/ou capacidades intelectuais? Em alguns períodos da história, por exemplo, as mulheres nem mesmo eram consideradas cidadãs, e estavam muito mais próximas do status dos escravos do que de qualquer acesso às importantes áreas do conhecimento, ou de qualquer caminho que pudesse levá-las a desenvolver seus “supostos” talentos (fosse como escritora, cientista, política, filósofa ou coisa que o valha). E será que era por que elas não tinham inteligência e talento para mudar isso, ou porque estavam constrangidas pela necessidade (de um lado pela própria natureza ─ mais sensível, frágil e delicada ─ e, de outro, pelo subjugo da força masculina)? A superioridade masculina nesse aspecto (da força física) é mesmo superior!



Todo mundo sabe também que às mulheres sempre foram delegados os cuidados com os filhos e atividades domésticas em geral. Não nego que a natureza, num certo sentido, moldou-as para a gestação e cuidado com os filhos, mas penso que nem por isso deixou de conceder-lhes razão e inteligência (em muitos casos, maior do que em muitos homens) para mudar aquilo que é possível nessa história. E penso que isso sim pode, agora, ser constatado de forma empírica. Veja nos últimos tempos a quantidade de mulheres que ascenderam ao poder político; a quantidade de mulheres superando muitos homens nas atividades econômicas, administrativas, científicas, acadêmicas, etc, e ainda dando conta dos filhos e atividades domésticas. É claro que alguém pode argumentar que a proporção é muito pequena. Mas o que nos garante que as mulheres não possam vir a superar, numa proporção cada vez maior, os homens em suas aptidões intelectuais? Será mesmo que os homens permanecerão sempre realizando maiores feitos que as mulheres, em todos esses campos do conhecimento, nessa proporção tão desmedida? Tenho dúvidas de que isso esteja determinado geneticamente ad infinitum por uma diferença em nossas constituições intelectuais.

Você diz: 'É de salientar que este autor estava ligado ao mundo das artes, aliás, ele próprio gostava de tocar flauta, e ele também faz muita referência às mulheres nas suas actividades': "Com toda a razão, poder-se-ia chamar o sexo feminino de não-estético. Nem para a música, nem para a poesia, tampouco para as artes plásticas as mulheres têm, real e verdadeiramente, talento e sensibilidade... (p. 63). Assim, como a lula, também a mulher gosta de se esconder na dissimulação e de nadar na mentira’, e de facto, o teatro vive da mentira, já que o que se representa não é o que está a acontecer na realidade”.

O que dizer, então, da quantidade de homens artistas (famosos e premiadíssimos) de teatro e televisão? Seriam eles lulas que gostam de se esconder na dissimulação e nadar na mentira? Ou eles seriam, por conta desses seus talentos, efeminados? Por acaso a poesia, a pintura e as artes plásticas tratam da realidade? Elas também não são representações? Ou os talentosos e sensíveis homens que produziram verdadeiras obras primas ao longo de todos esses séculos nessas áreas retrataram a realidade e reproduziram a própria coisa em si? Onde está a lógica bem medida em tudo isso?

Well, embora eu também tenha Schopenhauer em alta conta, ao menos em relação à parte que melhor conheço (e que no fundo é pouca) de sua filosofia, acho que a argumentação dele nesse assunto, se não for completamente equivocada (e olha que não acho que seja completamente), se mostra bastante arriscada, parcial, preconceituosa e dogmática, ao menos na maneira pela qual ele as apresenta. Talvez fosse o caso de ele apenas cultivar um pouco de papas na língua. Não tenho a menor inclinação para levantar bandeiras feministas e achar que as mulheres são superiores ou exatamente iguais aos homens (tampouco inferiores, exceto em força física), mas também não posso deixar de observar toda essa falta de compostura verbal. Que ele é um grande filósofo, ah... isso ele é, mas que fala umas besteiras, carrega nas tintas e é rabugento, ah... isso ele também faz e é! Não dá pra ouvir tudo isso e ficar quieta, ainda que ele tenha argumentos razoavelmente plausíveis para dar apoio às suas teses.

[imagem 2 | Francisco de Zurbarán | Hércules destrói o leão de Nemeia |1634 ]

segunda-feira, julho 26, 2010

IV Colóquio Hume - UFMG



Entre os dias 03 e 06 de Agosto de 2010
acontecerá em Belo Horizonte, na UFMG, o IV Colóquio Hume

O Evento é promovido pelo GRUPO HUME UFMG/CNPq e pelo Programa de Pós Graduação em Filosofia da UFMG.

E eu não vou deixar de estar lá!
Eis a programação:

03 de Agosto – Terça-Feira
14:00 Inscrições
14:30 Abertura
Jorge Alexandre Barbosa Neves (Diretor da FAFICH)

15:00 -16:15 William Edward Morris (Illinois Wesleyan)
Hume’s Project in the Dialogues

16:15 Café
16:30 - 17:30 Marília Côrtes (USP/FAPESP)
O argumento evidencial do mal nos Diálogos de Hume

17:30 - 18:00 Matheus Batista dos Reis
Uma análise sobre os argumentos de Thomas Reid contra a via das ideias

18:00 - 18:15 Intervalo
18:15 - 19:30 Sara Albieri
A ser definido

04 de Agosto – Quarta-Feira
10:00 - 11:15 Charlotte Brown (Illinois Wesleyan)
Hume Against the Selfish Schools

11:15 - 11:30 Intervalo
11:30 - 12:45 André Klaudat (UFRGS)
Hume sobre prazer e valor e o desafio Kantiano

14:30 - 15:45 Adriano Naves de Brito (UNISINOS)
Hume and the Naturalization of Morality: apropos Values

15:45 - 16:00 Café
16:00 - 17:15 Leonardo de Mello Ribeiro
Um argumento do regresso humeano?

17:15 - 17:30 Intervalo
17:30 - 18:15 Renato Lessa (UFF)
A ser definido

05 de Agosto – Quinta-Feira
10:00 - 11:15 José Oscar de Almeida Marques (UNICAMP)
Necessidade e contrafatualidade no tratamento humeano da causação

11:15 - 11:30 Intervalo
11:30 - 12:45 Andrea Cachel (IFPR)
O padrão do gosto em Hume e a questão da regulação da crença pelo Juízo

12:45 - 14.30 Isabel Limongi (UFPR)
Notas sobre direito e política em Hume

14:30 - 15:00 Café
15:00 - 16:15 Cesar Kiraly
O suicídio como forma política e social no ceticismo de Hume

16:15 - 16:30 Intervalo
16:30 - 17:45 Marcos Balieiro
A ser definido

17:45 - 18:00 Intervalo
18:00 - 19:15 João Carlos Salles (UFBA)
Naturalismo e Filosofia em Hume

06 de Agosto – Sexta-Feira
10:00 - 11:15 David Owen (Arizona)
A ser definido

11:15 - 11:30 Intervalo
11:30 - 12:45 Lívia Guimarães
Hume and Feminism

12:45 - 14:30 Almoço
14:30 - 15.30 Anice Lima
Novos estudos humeanos: uma leitura

15:30 - 16:00 Café
16:00 - 17:15 João Paulo Monteiro (Universidade Nova de Lisboa)
Doubts about Induction

Maiores informações: http://www.grupohume.blogspot.com/

Apoio: Programa de Pós Graduação em Filosofia da UFMG; CAPES, FAPEMIG, PAIE, FAFICH

Bela Imagem


Allegoric image of philosophy on the building of the school of philosophy and philology of the University of Liège, place du XX-Août
Author: Flamenc 

sexta-feira, julho 16, 2010

Desencanto

Tenho que me livrar de umas ideias.
It’s now or never !
(acho que never, mas vou tentar).

Estou pela hora da morte com meus estudos, com o prazo apertado pra dar conta de tudo, e alguns pensamentos impostos pelas minhas angústias capturam-me de tal forma que fico a perambular, dia e noite, pela poesia, a procurar, quem sabe, um doce alento.

(e o trabalho a me puxar pelos cabelos...)

Há dias (e noites) comecei a namorar Manuel, Pablo, Federico... Ops... calma! Não se trata de nenhum caso de infidelidade conjugal, poligamia ou traição amorosa. Trata-se apenas de flertes entre mim e alguns poemas de Federico García Lorca, Pablo Neruda, Manuel Bandeira e outros que encontro pelo caminho. Mas tudo não passa de uma troca de olhares, angústias e inquietações. Nada carnal...


Fico a procurar poemas que olhem pra mim e traduzam “minhas aflições mal definidas”, aflições de amor e de morte. Encontro muitos que vêm ao meu encontro. Outros que são puros desencontros. Eu abraçaria alguns por inteiro. Outros, apenas poucas linhas ou esparsos versos.
Eis aí somente um daqueles que eu abraçaria por inteiro.

Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
- Eu faço versos como quem morre.

Manuel Bandeira. Em A Cinza das Horas (1917)

(e é assim, como quem morre, que eu acabo de ler e transcrever esses versos...)

terça-feira, junho 01, 2010

Flaubert: o homem-pena

Escrever me parece sempre uma questão de vida e morte. Arriscaria a dizer que é uma questão de vida e morte para todo escritor (ou, ao menos, para todo aspirante à escrita literária e/ou filosófica).

Estou pra conhecer alguém que possa escrever sem sofrer, sem se torturar, sem se obstinar, sem se acabar, sem morrer um pouco.

Haveria alguém nesse mundo que pudesse escrever, assim, sem mais nem menos, sorrindo, pirulitando, e num estalar de dedos? Penso que não! Escrever algo de original, que seja seu mesmo, exige mergulho, um certo modo de vida que, num certo sentido, é incompatível com as exigências da vida prática, da vida mundana. Digo num certo sentido porque a vida mundana também é fonte de grandes obras literárias. Mas se queremos escrever verdadeiramente, temos de romper (ao menos numa certa medida) com o mundo exterior.

Para se escrever bem é preciso, além de solidão, deixar muitos escrúpulos de lado, despir-se de muitas amarras, do medo da crítica, do receio de se expor ao ridículo. Tem-se de arrancar mesmo das entranhas para escrever algo de significativo, relevante e belo (pois qualquer ser minimamente alfabetizado e superficial pode escrever qualquer coisa irrelevante e sem graça). Mas escrever como artista é escrever como alguém que, se não o fizer, morrerá. É escrever por necessidade. E pelo que pude perceber, todo grande (ou bom) escritor se sente assim: constrangido a escrever pela necessidade.

Aqui ao meu redor, alguns grandes escritores: meus bons companheiros (e eu não posso mais viver sem eles). É neles que me inspiro. Ora num, ora noutro. É com eles que aprendo um pouquinho. Ou, ao menos, tento.

Comecei assim, por pura curiosidade (seguida da velha necessidade, ou será vice-versa?), a ler as Cartas Exemplares de Gustave Flaubert. Adoro cartas pessoais, especialmente das figuras mais eminentes! Elas geralmente revelam não só os motivos e as circunstâncias em que seus autores as escreveram, como também seus sentimentos, opiniões, hábitos, costumes, traços psicológicos, caracteres, habilidades e estilos literários. Cartas pessoais costumam ser confessionais. Confessa-se a amigos. Confessa-se a amantes. Por meio dessas relações mais profundas pode-se capturar a pessoa do artista-escritor. Eles têm vidas interessantes!


Há dias estou às voltas com a necessidade de escrever alguma coisa significativa (e eu nem sou grande), que seja minha mesmo. Entretanto, sofro e me debato e me torturo quando percebo que estou muito longe disso. Eu preciso ser guiada pela pena dos grandes. Preciso que eles me acompanhem e me mostrem o caminho.

Consolo-me ao saber que posso viver cercada de grandes artistas e estetas da literatura e da linguagem (ainda que apenas por meio de suas obras). Talvez se possa dizer que todo grande escritor (e também os pequenos aprendizes, como eu, que, talvez, nunca deixe de ser uma eterna pequena aprendiza), leu e amou outros grandes escritores. Escritores são ligados a seus semelhantes. Basta lê-los para vê-los citar um ou outro, ou um ao outro.

Li tantas coisas inspiradoras nessas Cartas de Flaubert que não resisti a transcrever algumas passagens (eis-me aqui de mãos dadas com Flaubert). São passagens que traduzem alguns pensamentos e sentimentos meus, especialmente quando me encontro às voltas com minhas pretensões de escritora (e é aí que mais me dou conta de minha pequenez e dificuldades). É preciso ainda que eu escreva pelas mãos dos outros (putz, que miséria!). Será que um dia eu...?

Ah... mas nem tudo está perdido! O próprio Flaubert se interrogava ao dizer: “há momentos em que acredito que estou errado porque quero fazer um livro razoável e por não me abandonar a todos os lirismos, violências, excentricidades filosófico-fantásticas que me aparecem. Quem sabe? Será que um dia eu vou parir uma obra que pelo menos seja só minha” (p.56)? Creio que essa é uma pergunta feita incansavelmente por todo aquele que tem por inclinação e ofício escrever ─ seja em prosa, poesia ou filosofia.

Bem sabemos que Flaubert pariu obras ímpares. E pelo que as Cartas revelam, para tanto, sofreu desmesuradamente. Por meio das Cartas Exemplares tem-se uma espécie de diário da vida de um escritor profundamente perturbado com sua existência ─ com seu modo de existir como um escritor que escreve com extrema dificuldade.

Escrever, Flaubert revela, sempre foi uma luta, um tormento. Ele sofre por amar profundamente a beleza (é um aisthetés) e tortura-se em seu processo de criação. É um escritor preocupado, sobretudo, com o estilo da escrita, com a beleza e sonoridade das palavras, frases, pensamentos e ideias. “Ainda agora, o que amo acima de tudo é a forma, desde que seja bela, e nada mais. [...] Não há para mim nada a não ser os belos versos, as frases bem construídas, harmoniosas, cantantes, os belos poentes, o luar, os quadros coloridos, os mármores antigos e as cabeças modeladas com vigor. Além disto, nada.”(p.31). “Uma boa frase de prosa deve ser como um bom verso, imutável, tão ritmado quanto sonoro” (p.77). “Todo o talento de escrever não consiste senão na escolha das palavras. É a precisão que faz a força. Tanto no estilo como na música: o que há de mais belo e mais puro é a pureza do som” (p.78).

Encontramos nessas Cartas um ser conflituoso que duvida de seu talento, que titubeia quanto a publicar ou não publicar o que escreve ─ um ser que se isola e se deprime consumindo-se na dificuldade de escrever algo belo e significativo. Melhor que Flaubert mesmo fale de si!

“É bonito ser um grande escritor, ter os homens na frigideira de sua frase e fazê-los saltar como castanhas. Deve haver orgulhos delirantes em sentir que se pesa sobre a humanidade com todo o peso de sua ideia. Mas é preciso, para isso, ter alguma coisa a dizer. Ora eu vou lhe confessar que me parece que não tenho nada a dizer que os outros também não possam dizer, ou que não tenha sido dito muito bem, ou que possa ser dito de maneira melhor” [...] “Eu gasto bastante papel! Quantas rasuras! A frase demora para vir. Que diabo de estilo eu escolhi. Que desgraça os temas simples! Se você soubesse o quanto me torturo por isto...” (p.57).

Imaginem só, o grande Flaubert, a torturar-se pela dificuldade que sente em escrever. Se a ele parece não ter nada a dizer que os outros também não possam dizer, ou que não tenha sido dito muito bem, ou que possa ser dito de maneira melhor, o que podemos dizer, nós, pobres mortais e comuns?

Flaubert é extremoso. Vive mergulhado numa espécie de caldeirão existencial. De um lado, indolência, tédio, miséria e cansaço de sua própria existência: “Você sabe muito bem que sou o homem de ardores e de abatimentos. Se você conhecesse todos os invisíveis fios de inação que cercam meu corpo e todas as brumas que flutuam em meu cérebro! Experimento frequentemente uma fadiga de matar de tédio quando é hora de fazer qualquer coisa seja lá o que for, e é só por meio de grandes esforços que consigo captar a mais clara das ideias. Minha juventude me mergulhou em não sei que ópio de estupidez pelo resto de meus dias. Eu tenho ódio à vida. A frase saiu, que fique! Sim, à vida, e a tudo que me lembra que é preciso suportá-la. É um suplício comer, vestir-me, ficar em pé.” (p.55). Que depressão!!!

Por outro lado, arde em Flaubert o trabalho obstinado e obsedante, lírico e transbordante. Queima nele a necessidade vital e mortal de escrever, a incansável preocupação com o estilo, o amor pelo belo e pela arte. Ele ama “acima de tudo a frase nervosa, substancial, de músculo saliente, de pele cor de bistre”; ama “as frases machas” (p.26), e declara que “a única maneira de não ser infeliz é encerrar-se na Arte e contar como nada todo o resto” (p.27).

Nas Cartas Exemplares, Flaubert fala também do difícil processo de criação de suas obras, dos seus defeitos, das suas virtudes, de suas dúvidas quanto a publicá-las ou não. E se autodenomina “um homem-pena”:

“Eu sou um homem-pena. Sinto através dela, por causa dela, em relação a ela e muito mais com ela. Você verá a partir do próximo inverno uma mudança aparente. Eu passarei três invernos usando escarpins [referência à criação de Madame Bovary]. Depois entrarei de novo na minha toca onde estourarei obscuro ou ilustre, manuscrito ou impresso. Há, no entanto, no fundo, algo que me atormenta, é o não-conhecimento de minha medida. Este homem que se diz tão calmo está cheio de dúvidas sobre si próprio. Ele gostaria de saber até que altura ele pode subir e o poder exato de seus músculos. Mas pedir isto é ser muito ambicioso, pois o conhecimento preciso de sua forma não é senão o gênio” (p.62-63)

Flaubert se tortura: “Ninguém mais do que eu tem o sentimento da miséria da vida. Eu não acredito em nada, nem em mim mesmo... eu faço arte porque isso me diverte... antes a pena corria sobre meu papel com rapidez; ela ainda corre agora, mas para rasgá-lo. Eu não consigo fazer uma frase, eu mudo de pena a cada minuto, porque eu não exprimo nada do que quero dizer” (p.30). E se extenua na pena, com a pena e pela pena. “Saiba que estou exausto de escrever. O estilo que é uma coisa que eu levo a sério, me agita os nervos horrivelmente. Eu me exaspero, eu me sinto corroer. Há dias em que fico doente e em que, à noite, tenho febre. Mais eu avanço e mais eu me acho incapaz de alcançar a Ideia. Que mania esquisita essa de passar sua vida a trabalhar sobre as palavras e a suar todo dia para arredondar períodos" (p.40-41)!

Escrever é, para Flaubert, uma ideia fixa: “... o que me frequenta a cada minuto, o que me tira a pena das mãos quando estou tomando notas, o que me faz deixar o livro quando leio, é meu velho amor, é a mesma ideia fixa: escrever! É por isso que não faço mais nada, embora me levante bem cedo e saia muito pouco” (p.25). Flaubert se torna artista com uma dificuldade desoladora: “vou acabar sem escrever uma só linha. Creio que poderei fazer coisas boas; mas me pergunto sempre, para quê? O mais esquisito é que não me sinto desencorajado; eu me compenetro, ao contrário, mais do que nunca, da ideia pura, no infinito. É o que aspiro, o que me atrai; estou me tornando brâmane, ou talvez apenas um pouco louco” (p.30). “Eu escrevo só para mim, só para mim, como eu fumo e como eu durmo. É uma função quase animal, de tão pessoal e íntima” (p.40)

E agora deixem-me ficar por aqui, senão quem vai ficar um pouco louca sou eu! Pois mal li ainda um quarto dessas Cartas e já estou aqui, jogada aos pés de Flaubert.

Ah Flaubert, Flaubert, Flaubert... deixe-me trabalhar!

sábado, maio 08, 2010

El taxista argentino


hola, que tal ?

Sempre ouvi dizer (e pude algumas vezes perceber diretamente) que o modo de ser argentino é único em seu gênero. Aliás, pode-se dizer que cada país, cada povo, cada cultura tem seu modo de ser sui generis (rs desculpem-me a observação óbvia!) .

Bom, dos argentinos dizem (e eu já pude constatar a veracidade dessa opinião comum): eles têm uma personalidade reservada, altiva, orgulhosa. Não são lá muito simpáticos (ou ao menos não sorriem à toa). Nem são muito amáveis e cordiais (ao menos na medida em que se pode dizer que os brasileiros, em geral, são), exceto com aqueles que são da terra deles. O que não falta é nariz empinado (mas eu tenho uma certa simpatia por narizes empinados).

Não pude deixar de observar, num agradável passeio que fiz por Buenos Aires, certas características do povo porteño. Observei muitas outras coisas, pois, além da cidade ser linda e rica em detalhes, sou extremamente (e naturalmente) curiosa e interessada: quero absorver o máximo possível dos lugares que passo e das pessoas que vejo.

Eu poderia falar um pouco de tudo que vi: dos bares e cafés, das ruas e lugares, da belíssima arquitetura, das praças, monumentos, tangos e tal... e, também, do modus operandi dos garçons ou garçonetes, dos recepcionistas do hotel em que me hospedei, dos vendedores ou balconistas de lojas e livrarias, enfim, falar um pouco de toda e qualquer pessoa com quem lá tive algum tipo de contato, e mesmo daqueles que observei a distância. Pessoas são sempre ricas fontes de informações.

Porém, não quero aqui me estender demais (muito menos escrever uma tese sobre a personalidade dos argentinos). Quero apenas tecer alguns comentários sobre El taxista argentino, a partir da experiência que tive ao pegar alguns táxis naquela bela cidade. Aliás, diga-se de passagem, táxi lá é o que não falta, e, friso, custa bem barato.

Influenciados já pela opinião comum sobre o modo de ser argentino e de alguns breves contatos que já tínhamos feito com algumas pessoas; propensos a perceber os detalhes de tudo, eu e meu namorado tomamos um táxi para irmos jantar em algum bar-restaurante. Paramos, ao acaso, um táxi que descia a Rua Esmeralda, quase em frente ao hotel em que ficamos. Ao entrar, como sempre, digo um boa noite, um olá, ou qualquer coisa assim, num tom naturalmente simpático.

O taxista, um rapaz tipo rebelde daqueles que usam jaqueta de couro preta (que aqui a gente poderia chamar de “um cara”), mal respondeu e mal tomou conhecimento de nossa presença. Tomou-a apenas na medida em que necessitava saber para onde gostaríamos de ir. E assim que dissemos, ele seguiu a seu modo, completamente indiferente a nós. Era como se não existíssemos. No carro, um som moderninho um tanto barulhento, mas perfeitamente tolerável.

Putz, o cara saiu dirigindo completamente calado, fechado em si mesmo, numa imprudência no trânsito que deixaria qualquer um com o coração a saltar pela boca. Andava “chutado”, pressionando a traseira de tudo quanto é carro que ele encontrava pela frente, tirava fininhas de arrepiar os cabelos, e acelerava, e freava, e acelerava e freava. A todo momento parecia que ia bater o carro. Ele exibia lá uma certa destreza, mas dirigia totalmente na ofensiva. E não estava nem aí pra seus passageiros.

Registre-se que o trânsito de Buenos Aires funciona notadamente bem (ponto para os argentinos). Avenidas largas, com várias pistas e, ao que parece, um planejamento bem feito. Em tais avenidas o tráfego flui em alta velocidade. Apesar da alta velocidade, nos poucos dias que andei por lá, não vi nenhum acidente, nem indícios de acidentes, tais como agentes de trânsito e ambulâncias do tipo Siate que a gente vê muito (e todos os dias) por aqui.

No táxi, um silêncio mortal! Todos calados. Fiquei só observando (e bufando um pouco, um tanto apreensiva). Bom, como “ladies first”, geralmente entro primeiro no carro, e daí faço questão de me sentar bem no meio do banco para poder observar tudo pelo espelho retrovisor, inclusive a expressão e olhar do motorista. Imagino que talvez isso incomode um pouco, pois ele, ao olhar para o retrovisor, provavelmente encontrará o meu olhar (no caso ali o meu olhar era grave).

É claro que normalmente procuro ser discreta e desviar o olhar para não intimidar o motorista, já que essa atitude minha é, em geral, devida à minha simples sede de observar e sorver tudo. Mas no caso ali, com aquele maluco dirigindo de modo arrogante, mortalmente indiferente e extremamente imprudente, não fiz a menor questão de ser discreta. Encarei o espelho com olhos dardejantes. My god, como ele era displicente, carrancudo e metido à besta!!!

Em vários momentos pensei em falar: PARE, por favor, O SENHOR PODE PARAR POR AQUI MESMO, e descer. Mas, por outro lado, achei aquela situação interessante (e até mesmo cômica). Profissionalmente, para um motorista de táxi, ele era o típico cara que faz a gente pensar: como é que ele sobrevive nessa profissão, dirigindo e agindo desse jeito? Não é difícil chegar a alguma conclusão. Provavelmente ele não precise de clientes fixos. Pega passageiros ao acaso. Circula muita gente na cidade, a toda e qualquer hora (Buenos Aires praticamente não dorme). Então, ele sempre terá quem levar, e não tem a mínima importância se esse passageiro só for passageiro dele uma única vez. Desce um, sobe outro.

Well, o trajeto foi todo assim: uma aventura perigosa. Eu e o Agui, calados, apenas nos olhávamos. Sabíamos que estávamos pensando a mesma coisa. Entre um e outro olhar, uma observaçãozinha, um toque de mãos, um sarrinho audível apenas aos nossos ouvidos. Quando descemos, não resistimos a metralhar o episódio com nossos comentários (sempre naquele velho e conhecido tom cheio de sarcasmo e graça).

Obviamente, na saída do carro, eu disse um gélido boa-noite-e-obrigada. Ele mal abriu a boca. Ouvi apenas um ADIOS empedrado com um decisivo ponto final sem a menor chance de vírgula. Cheguei (com a minha imaginação) a ouvi-lo dizer: adios, já vão tarde, desçam logo, não foi nenhum prazer, espero nunca mais encontrá-los.

Naturalmente alguém poderá pensar que este taxista não retrata todos ou a maioria dos taxistas argentinos. É verdade. Conheço pessoas que viveram, nesse sentido, experiências completamente diferentes. Mas posso dizer que, embora eu não tenha tomado nenhum outro táxi com um taxista aloprado, os outros que peguei ao menos se apresentaram calados, fechados, indiferentes, pouco amáveis ou cordiais (com exceção de um que foi super simpático e comunicativo). Isso também se deu nos outros setores do comércio porteño.

Pode-se também argumentar (contra mim), que as pessoas que confirmaram a opinião comum sobre a personalidade deles representam apenas uma pequena parcela dos argentinos com os quais tive contato, e que estou, portanto, generalizando. Isso também é verdade. Estou sim generalizando, qual é o problema? Quem poderia falar sobre argentinos, brasileiros, ingleses, cariocas, persas ou capadócios sem generalizar?

Admito que não se possa taxar a personalidade de todos os argentinos do modo como apresentei aqui. Ademais, Buenos Aires é maravilhosa, e uma cidade maravilhosa deve, de algum modo, possuir um povo condizente com suas maravilhas. A meu ver, a altivez é, quando não empedernida, uma virtude. Tem a ver com nobreza de espírito. Donc, relaxem: aqueles que não se encaixarem nessa minha generalização não precisam ficar magoados nem fazer biquinhos. O que registrei aqui foi apenas uma curiosa faceta porteña, a partir de um episódio particular com um taxista argentino. Eu amei Buenos Aires.

sexta-feira, abril 09, 2010

Teologia e Antropomorfismo

Eis o resumo da minha comunicação para o  II Encontro Hume que acontecerá entre os dias 19 e 21 de maio de 2010 na UFPr.

Teologia e antropomorfismo nos Diálogos sobre a Religião Natural de Hume

De acordo Demea, a defesa do argumento do desígnio, levada a cabo por Cleantes, carrega consigo o antropomorfismo e, por essa razão, seria possível afirmar a sua improcedência. Para Demea, “ao representarmos a Divindade como sendo tão inteligível e compreensível, e tão similar à mente humana, tornamo-nos culpados da mais grosseira e tacanha parcialidade e nos arvoramos em modelo de todo o Universo” (D III §12: 53). Ao procedermos assim, ilegitimamente inferiorizamos a divindade e elevamos os atributos humanos. Demea argumenta em favor de que todos os materiais do pensamento são provenientes somente de duas fontes: sentidos internos e sentidos externos, os quais compõem toda a bagagem do entendimento humano (D III §13: 54). Sendo assim, os materiais do nosso pensamento não se assemelham em aspecto algum a inteligências tão distintas e distantes como as que separam as inteligências humanas da inteligência divina. Na visão de Demea, “a debilidade de nossa natureza não nos permite apreender quaisquer ideias que tenham a mínima correspondência com a inefável grandiosidade dos atributos divinos” (D III §13: 55). Por conseguinte, não podemos dizer que Deus raciocina como nós, visto que nossos pensamentos são fugazes, vacilantes e incertos. Nossos padrões de verdadeiro ou falso não se aplicam aos juízos que fazemos sobre os atributos divinos. Sendo assim, não podemos descrever Deus com as mesmas palavras que usamos para falar de criaturas tão limitadas e corruptas como os seres humanos. Ora, que opções teríamos, então? Como pensar ou falar sobre Deus? Isto considerado, minha comunicação se concentrará na crítica de Demea ao antropomorfismo empreendida nos Diálogos, não obstante eu esteja ciente de que na História Natural da Religião podemos encontrar consideráveis desenvolvimentos acerca do tema. Essa restrição aos Diálogos se justifica em virtude de meu propósito. Pretendo discutir o papel que a crítica ao antropomorfismo desempenha na discussão sobre a validade do argumento do desígnio promovida nos Diálogos. Convém esclarecer que discutirei este ponto tomando como referência a participação do personagem Demea, embora a expectativa comum fosse, talvez, tomar como referência o personagem Fílon. Nesse caso, minha pretensão é dupla, pois viso não somente discutir o antropomorfismo nos Diálogos, mas também dar voz a Demea procurando trazer à superfície sua importância como personagem dos Diálogos.

terça-feira, abril 06, 2010

Programação do II Encontro Hume - UFPr

II Encontro Hume

19 de maio
14:00 - 15:00: Abertura - Isabel Limongi (UFPR)
Hume e o caráter histórico da justiça
15:00 - 15:30: Intervalo
15:30 - 16:00: Giovani Prezzi (UNISINOS)
Hume contra o egoísmo moral
16:00 - 16:30: André Olivier da Silva (UNISINOS)
Vontade e determinismo moral em Hume
16:30 - 17:00: Andreh Sabino Ribeiro (UFCE)
O composto força-direção da moralidade: sentimento e razão na teoria mental e social de Hume
17:00 - 17:30: Rogério Mascarenhas (UFBA)
O estatuto da imaginação na Teoria das Paixões de Hume
17:30 - 18:00: Debate

20 de maio
09:00 - 10:00 José Oscar de Almeida Marques (UNICAMP)
Princípio de razão suficiente e princípio de uniformidade na teoria humeana da causalidade
10:00 - 10:30: Intervalo
10:30 - 11:00 Cesar Kiraly (UFRJ)
A forma suicidária do pensamento em Montaigne e Hume
11:00 - 11:30: Hugo Viçoso (UFMG)
A filosofia como um antídoto para a superstição em Hume
11:30 - 12:00: Debate
12:00 - 14:00: Almoço
14:00 - 15:00: Eduardo Barra (UFPR)
Filosófica & Natural: a dupla identidade da causalidade no Tratato de Hume
15:00 -15:30: Intervalo
15:30 - 16:00 Andrea Cachel (IFPR)
Regras Gerais do Juízo na Investigação
16:00 - 16:30 Gustavo Oliveira Fernandes (UFSCar)
O estatuto da geometria e as ideias abstratas no Tratado da Natureza Humana
16:30 - 17:00 Matheus Batista dos Reis (UFMG)
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Artifício e natureza no pensamento de Hume 

quinta-feira, março 25, 2010

A arte de lidar com as mulheres



Quem lê o título desse pequeno tratado (A arte de lidar com as mulheres), “um florilégio de sentenças”, imagina que vai encontrar ali, no mínimo, percepções agudas e excelentes dicas de como lidar com as mulheres (já que se propõe a revelar uma arte).

De fato, para alguém falar com propriedade sobre as mulheres, é necessário ter não só perspicácia, como também um conhecimento elevado e profundo de sua natureza: é preciso saber como elas pensam, sentem e agem, não só em geral, mas também em determinadas circunstâncias.

Obviamente o autor, ao expressar ali suas opiniões sobre as mulheres, julgou-se bastante conhecedor delas. Porém, embora não se possa dizer que ele desconhecia totalmente as mulheres, na verdade, nesse tratado, ele atirou em seu próprio pé, pois não encontramos, salvo em algumas passagens, muita coisa sensata, tampouco filosófica. Ao contrário, damos de cara com um festival de bobagens ditas pelo (nada mais nada menos) grande e admirável filósofo Schopenhauer (e isso não é nenhuma ironia; ele é, de fato, grande e admirável, mas até mesmo os grandes filósofos podem dizer e disseram algumas asneiras).

Franco Volpi, autor da introdução e notas da edição da Martins Fontes, 2004, adverte-nos de que “ao ler-se o presente tratado, devem ser levados em conta os condicionamentos e as circunstâncias, ou seja, o pesado fardo da tradição machista e os atávicos preconceitos que calcam a pena de Schopenhauer” (XIV) ─ apenas um entre tantos filósofos falidos no amor.

Ora, o que se passou na cabeça de Schopenhauer ao escrever sobre as mulheres não expressa todo o seu pensamento ou toda a sua filosofia que, por mais que traga algumas ideias indefensáveis, é de inestimável valor e matéria para muitas teses e discussões super interessantes. No fundo, eu o tenho em alta conta. Tanto que já lhe rendi aqui mesmo (neste blog) muitos elogios e escrevi também um TCC sobre o tema da liberdade da vontade em Schopenhauer. Mas isso não me impede de exclamar:

my god, há aqui tantas bobagens (e carregadas nas tintas) que ao lê-las dá vontade de sair berrando!!! (rs... lembrei-me de alguém dizendo isso diante de um absurdo patente).

Ainda segundo Volpi, não se pode também desconsiderar “a difícil relação que Schopenhauer teve com a figura materna”, relação esta que provavelmente causou a “exacerbada misoginia e indefensável, quase caricatural, imagem da mulher que, em sua obra, Schopenhauer pretendeu fundar em bases metafísicas” (XVII-XVIII)

Well, desculpas e justificativas da inépcia schopenhaueriana à parte, e a despeito de alguém que possa argumentar que todo autor paga, de um certo modo, um certo tributo a seu tempo, vamos ao que interessa, ou seja, às proposições ricas de “aspectos hilariantes, aptas ─ como um clássico hors d’âge ─ a divertir qualquer um” (XXIX). Talvez alguém dissesse mais: aptas também a indignar as mulheres (e alguns homens inteligentes rs). Mas, no fundo, não dá para levar muita coisa a sério.

Eis, então, algumas “pérolas” schopenhauerianas:


“As mulheres são o sexus sequior, o sexo que sob qualquer ponto de vista é o inferior, o segundo sexo, e em relação a cuja fraqueza deve-se, por conseguinte, ter consideração. Contudo, demonstrar-lhes veneração é extremamente ridículo e nos diminui aos olhos delas” (p.4).

Ora, talvez alguém possa defender que aqui nem tudo é bobagem. Como bem me lembrou o Aguinaldo, Schopenhauer teve algumas intuições básicas em relação às diferenças biológicas entre as mulheres e os homens dignas de consideração. Porém, dear Aguinaldo, nem por isso elas são sob qualquer ponto de vista inferiores. Talvez pudéssemos dizer que em relação à força física, ou a determinadas aptidões elas sejam inferiores, do mesmo modo que os homens também o são em relação a outras qualidades e aspectos.

“A mulher no Ocidente, particularmente aquela que é chamada de “dama”, encontra-se em uma falsa posição, pois a mulher, que os antigos com razão chamavam de sexus sequior, não merece de forma alguma ser o objeto de nosso respeito e veneração, trazer a cabeça mais erguida que a do homem e ter os mesmos direitos que ele. Vemos perfeitamente as consequências dessa falsa posição. Seria, por conseguinte, muito desejável que também na Europa esse número dois do sexo humano fosse recolocado em seu lugar natural, e que se desse um fim a esse monstro chamado dama, do qual não apenas toda a Ásia se ri, mas também a Grécia e Roma teriam se rido; as consequências, no aspecto social, burguês e político, seriam incalculavelmente benéficas. [...] A verdadeira “dama” européia é uma criatura que simplesmente não deveria existir; o que deveria sim haver são donas de casa e moças que tivessem a esperança de vir a sê-lo, de forma que não seriam educadas para a arrogância, mas para a vida doméstica e a submissão” (p.97-98).

Uau, essa é de doer! Parece-me indefensável...

“Com toda razão, poder-se-ia chamar o sexo feminino de não-estético. Nem para a música, nem para a poesia, tampouco para as artes plásticas as mulheres têm, real e verdadeiramente, talento e sensibilidade; quando, porém, elas afetam ou simulam essas qualidades, de nada mais se trata senão de pura macaquice voltada a seu desejo de agradar” (p.85).

“Quando as leis concederam às mulheres os mesmos direitos dos homens, elas deveriam ter lhes dado também um intelecto masculino” (p.79).

Bom, se tivessem me oferecido um intelecto masculino eu o recusaria sem titubear rsrs.

Mas curioso é que o próprio Schopenhauer em algum lugar (não me lembro onde, sorry) afirma que os filhos herdam do pai o caráter e da mãe o intelecto (ou a inteligência). Ora, com base em que ele afirma que do pai herdamos o caráter e da mãe o intelecto?

Ademais, se os filhos herdam o intelecto ou a inteligência da mãe, como podem possuir intelectos superiores aos das mulheres? Bom, alguém poderia argumentar que o intelecto materno, ao se unir a características específicas da genética masculina, produz intelectos superiores. Bom, aí o caldo engrossa... rsrs. 

“O domínio natural da mulher sobre o sexo masculino por meio da sensação de satisfação dura cerca de dezesseis anos. Aos quarenta anos, a mulher não está mais apta para a satisfação sexual” (p.47).

Tá aí a mulherada (e a história) que o deixa mentir hahahá!!!

Talvez ele devesse ter dito que ela não está mais apta à procriação, embora hoje em dia, apesar de não ser propriamente desejável que as mulheres resolvam procriar aos quarenta anos, não há mais nenhuma contra-indicação relevante ou impedimento natural para isso (com algumas exceções, é claro). Agora, que as mulheres ainda e depois dos quarenta estão aptas à satisfação sexual, ah... isso estão!

“Quando a natureza dividiu o sexo humano em duas partes, não fez o corte exatamente na metade. Em toda polaridade, a diferença entre o pólo positivo e o negativo não é puramente qualitativa, mas também quantitativa. É assim que também os antigos e os povos orientais viam as mulheres e, consequentemente, reconheciam a posição adequada a elas muito melhor do que nós, com nossa galanteria francesa fora de moda e nossa veneração despropositada às mulheres ─ a mais fina flor da estupidez germânico-cristã ─, que só serviu para torná-las arrogantes e sem consideração, fazendo às vezes lembrar os macacos sagrados de Benares, que, por terem consciência de sua santidade e inviolabilidade, se permitiam tudo e qualquer coisa” (p.9-10).

Ai ai ai... sem comentários!

“As mulheres, como pessoas que, por causa da fraqueza de seu intelecto, são muito menos capazes do que os homens de entender, reter e tomar como norma princípios gerais, ficam em regra atrás deles em relação à virtude da justiça e, portanto, também da probidade e da retidão; por isso, a injustiça e a falsidade são seus fardos mais frequentes e a mentira seu elemento real. [...] A idéia de ver mulheres exercendo a magistratura desperta risos” (p.93)

Ora ora Schopenhauer, eu diria, é você quem, aqui, nos desperta risos.

Ça suffit!

Ok... ok... não nos esqueçamos das intuições schopenhauerianas básicas sobre a vontade de vida e do instinto sexual no interesse da espécie. Não nos esqueçamos também de suas idéias até que sensatas sobre o casamento, a monogamia e a poligamia, mas... tststs... sorry, que falta fez, na época, um exemplar do rei Juan Carlos para dizer ao menos em alguns momentos: “por qué no te callas” Schopenhauer?

Uma última observação: o título aqui não é o original de Schopenhauer, pois este ensaio, contido na obra Parerga e Paralipomena (1851), traz apenas o título Sobre as mulheres, e não A Arte de Lidar com as Mulheres.