terça-feira, julho 04, 2006

Ordem ou Caos?



Caro Diego.
Se entendi bem, quando você fala em surgimento e desaparecimento da matéria, acho que o que você está querendo dizer é que a matéria se transforma, não é? Com efeito, a matéria não desaparece. Nós não temos acesso pela experiência ao surgimento e desaparecimento da matéria, mas apenas à sua transformação. E essa transformação pode ser fruto – como disse antes e você também menciona – de princípios ordenadores intrínsecos à matéria.
Sobre monoteísmo e politeísmo. Penso que o defensor do monoteísmo tem de enfrentar realmente a dificuldade que você assinala. Sobre isso estamos de acordo. Contudo, acredito que um litígio apenas entre o monoteísta e o politeísta seria provavelmente vencido pelo primeiro. Platão e Aristóteles, para citar apenas os dois maiores filósofos gregos, nunca deram crédito ao politeísmo.
Em relação à inteligência do cosmos, a meu ver, não está de modo algum excluída a possibilidade do cosmos ser na realidade caótico e o princípio ordenador ser apenas uma imposição de nossa subjetividade às coisas.
Um abraço!

4 comentários:

Diego F. G. Fleuringer disse...

Creio que estamos de acordo na maior parte dos pontos sobre os quais falamos.
Quando dizia sobre o surgimento e desaparecimento da matéria, me expressava no sentido de defesa da ordem no cosmos; tendo como exemplo o fato de que ao menos não existe um caos tamanho que possibilite o surgimento expontaneo de matéria (animada ou inanimada) ou seu desaparecimento.
Porem seu argumento sobre a subjetividade humana é deveras valido, apesar de abominavel em relação as leis fisicas e quimicas. Neste ponto poderiamos com alguma seriedade refletir: "Como pode o ser humano, animal subjetivo, pretender qualquer investigação objetiva e real sobre qualquer obejeto de estudo?". Na minha opinião, partir do pré-suposto que a subjetividade humana é passivel de contaminar tudo que o ser humano produz seria o mesmo que declarar um caos absoluto, onde toda obra e pensamento gerado até hoje poderia ser nada mais do que um emaranhado de falsas analises e compreensões.
Sendo assim, prefiro apoiar-me ao fato (talvez incorreto porém mais reconfortante) de que o universo possui ordem, creio que se me entregasse a essa possibilidade caótica (que ao meu ver desencadeia uma série de possibilidades caóticas infinitas) simplesmente não veria mais sentido numa vida ordenada, e entregar-me-ia à Bohemia.

Aguinaldo Pavão disse...

Peço licença para emitir uma opinião sobre assunto tão sublime. Eu me pergunto: qual o impacto que as noções comuns de bem e mal moral podem sofrer com as discussões que vocês estão promovendo? A tese sobre uma ordem intrínseca à matéria parece-me equivalente à tese de que a matéria é eterna. Se a matéria é eterna, se Deus ou deuses não existem, então tudo é permitido, como advogava um personagem de Dostoievski? Será que a moralidade depende de Deus (mesmo que ele não exista, o que penso é se é preciso acreditar em Deus e crer na imortalidade da alma para ter motivos para agir moralmente).

Diego F. G. Fleuringer disse...

Vendo esses questionamentos levantaria ainda outro, apenas para poder embasar minha argumentação. Foi o homem em algum momento de sua história realmente Virtuoso?
Antes de questionar sobre a necessidade da crença em deus ou na eternidade da alma para que haja moralidade, questiono se o homem tem sido realmente moral.
Ao meu ver, ao longo da história o homem concilia seus desejos egóicos e imoralidades com os mesmos aspectos dos demais com quem convive, buscando assim uma convivencia pacifica. Após haver um consenso do que é permitido ou não erige-se um contrato, dentro do qual nem tudo é realmente Moral do ponto de vista absoluto, apenas moral dentro do concilio dos egoismos diversos. Ou seja, penso que o homem não tem se mostrado um animal capás de ser realmente moral ou virtuoso.
Mas e daqueles que buscam essa moral ou virtude, quais caracteristicas possuem? alguns o farão em nome de Deus, outros o farão pelas suas almas (esses casos se encaixam nos ja previstos), porem creio que aquele que prezar pela verdadeira Razão e Ordem buscara essa ordem através da moralidade (no sentido da moralidade ser justa e virtuosa), mesmo que essa pessoa seja ateu e indiferente a existencia de uma alma humana.

Aguinaldo Pavão disse...

É preciso distinguir entre nosso agnosticismo sobre a moralidade dos indivíduos e o ceticismo moral, isto é, a suspeição de que não existem princípios morais. A primeira dúvida é até aceitável, embora me pareça mais um exercício filosoficamente lúdico. Já a segunda, está sim é uma dúvida que me parece profundamente equivocada e que conduz facilmente a contradições. De fato, fala-se que os homens não agem moralmente (o que pode ser, sem maiores problemas, aceito) e se pensa que, com isso, estamos questionando a validez dos princípios morais. Ora, isso é uma flagrante inconsistência. Só podemos questionar a moralidade dos homens se dispomos de um princípio moral. Isso significa que não temos dúvida sobre a existência da moralidade; temos dúvida apenas sobre a ocorrência de atos morais.