terça-feira, julho 11, 2006

Bem-me-quer, mal-me-quer


Querido Aguinaldo

Penso que a discussão promovida, de fato, causa um grande impacto nas noções comuns de bem e mal, precisamente no ponto que você mesmo toca. Ora, na medida em que se assume a tese de que a origem do mundo e a ordem que nele pode ser observada provêm apenas de um princípio gerador e ordenador intrínseco à própria matéria, poder-se-ia prescindir da crença na existência de uma divindade ordenadora que deu origem e imprime movimento a essa imensa máquina chamada mundo. Certamente isso estremeceria as bases da moralidade, tal como concebida de um ponto de vista religioso, uma vez que a tese de que a moral está fundamentada em princípios religiosos é muito mais difundida e bem aceita do que a tese contrária. Aqueles que acreditam que nossas noções de bem e mal são, tanto quanto nós mesmos, criadas por Deus e que, portanto, a moralidade é ditada por Deus, provavelmente concordariam com o personagem de Dostoievski. Mas eu, embora não possa afirmar como verdadeira a hipótese da matéria, não penso que é preciso acreditar em Deus e crer na imortalidade da alma para ter motivos para agir moralmente. A meu ver não é preciso mergulhar em águas teológicas para fundamentar a moralidade, pois nossos juízos morais, para que sejam válidos, não pressupõem necessariamente padrões teológicos de bem e mal. Eles podem repousar simplesmente em nossos naturais sentimentos de aprovação ou desaprovação experimentados diante de certas ações, comportamentos e inclinações. Também não vejo a necessidade de pressupor um mundo pós-morte, no qual a alma sobreviveria, para agirmos moralmente. Podemos ter razões suficientes para agir moralmente nessa vida mesmo, como por exemplo, o desejo de uma convivência pacífica ou uma consciência tranqüila, mesmo que dessa vida nada possa restar no futuro.

2 comentários:

Aguinaldo Pavão disse...

Primeiro, gostaria de agradecer a tua resposta. Eu concordo que a moral não depende da teologia. Na verdade, acho que qualquer teologia possível é que dependerá sempre da moral. Mas tem um ponto que não concordo contigo. Penso que nossos juízos morais não se fundam em sentimentos. O que é moralmente correto é válido para seres racionais em geral e vale para os homens apenas à medida que estes são seres racionais. Parabéns pelo Blog.

Diego F. G. Fleuringer disse...

Caro Aguinaldo, creio que não consegui expressar exatamente o que gostaria. Não quis questionar em momento algum a existencia de um principio moral, e sim a capacidade humana de viver de acordo com esse principio.
Concordo também que não haja necessidade alguma de principios teológicos para existencia de moralidade.
Ao meu ver porem a humanidade não tem se mostrado racional o suficiente para ser moral, tendo capacidade apenas para filosofar a respeito dessa moralidade. Uma vez ainda que os homens são criaturas egoistas duvido muito que nossos puros sentimentos como se apresentão hoje seriam capazes de nos guiar a atos morais, mesmo que o quizesse-mos.
Gostaria a respeito desse assunto relembrar "A Republica" e seu longo dialogo socrático a cerca da justiça, onde não se parte de um pressuposto religioso para se defender a validade da justiça (que ao meu ver é moral).