terça-feira, maio 31, 2016

Saudade




[...]

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda em mim
os animais que atormentam o meu sono.

[out/1979]

Mia Couto
in: Raiz de Orvalho e Outros Poemas


4 comentários:

José Guibson Delgado Dantas disse...

Muito bom o seu blog. Felicidades.

Marília Côrtes disse...

Obrigada, felicidades to you too ;)

Patrícia Caetano disse...

que coisa boa de se ler numa segunda-feira modorrenta! :)

Marília Côrtes disse...

boa mesmo, Patt... bjos