segunda-feira, outubro 19, 2015

Free maço vermelho

Uma fumante sai às 21:15 hs para comprar cigarros, mesmo com a maior preguiça, não porque o dela acabou, mas porque ela sabe que vai ficar sem lá pelo meio da madrugada, quando estiver, como quase sempre, entre livros e leituras. Até aí tudo bem. O duro é que ela pediu dois maços de Free Vermelho (dois para garantir que não vai precisar se preocupar com isso nos próximos três dias), mas, ao chegar em casa (depois de subir quatro andares de escadas) e abrir a sacolinha que trazia também um guaraná, deu de cara com dois maços de Marlboro - aquele forte, de filtro amarelo, que lembra cowboy, e que ela detesta. Bufou, xingou, reconstruiu a cena, rangeu os dentes, planejou o futuro, respirou fundo. E  acendeu um free maço vermelho.

4 comentários:

gpmv disse...

Devo confessar (e agradecer) que criei meu blog olhando o teu. Acaso de um dia que cai nesse link que contém tuas mensagens de e-mail. Faz tempo tinha uma necessidade de que as pequenas percepções e pensamentos do dia a dia fossem para um lugar diferente. O Facebook me cansou e o fechei há quase um ano. Transforma as pequenas percepções em álibi para expressar apenas as pequenas histerias do dia a dia, que bons amigos e eventuais voyeuristas podem satisfazer superficialmente com um "like" - não duvido que outros façam arte, mas comigo não funcionou. Tentei no Pinterest e no Flickr, mas também não deu certo. Também me movimentava uma necessidade de transformar em ficções, conceitos e traços pictóricos episódios que permitam trazer ar fresco até este canto tão cheio de individualidade. Assim aproveito, também, para amenizara a carga dos pobres dois ou três amigos que tem que lidar com uma correspondência imensa, as vezes muito detalhada, sobre as reflexões e acontecimentos "pessoais".

Escrevo-te num comentário a esta entrada porque é a que melhor expressa, eu acho, a junção entre cotidianidade pessoal e ficção. Quem sabe se a fumante que desce às ruas do centro de Londrina (te imaginei caminhando pela Higienópolis) é Marília? É uma mulher qualquer no centro de uma cidade paranaense? Interessa? Poderia ser São Paulo, por que não? E se você não for fumante e criou apenas uma historinha pequena para dar conta do prazer de ver a mulher e a fumaça? Alguma pequena percepção (olhar uma foto) ou banal cotidianidade (comprar cigarros) que se transforma em um atraente pequeno conto.

Outro ponto do qual eu tinha receio (e que teu blog me mostrou que era possível vencer) é transformar o Blog em um aparato que espalha informações visando constituir um saber autorizado. Artigos sobre matérias diversas, relatórios mascarados, senso comum exaltado, anotações para a docência ou, no pior dos casos, instruções para os alunos. Não vou dizer que essas funções não as exerçamos no cotidiano de nosso trabalho e que elas não apareçam no Blog (lembro seu comentário sobre o Enem), mas duvido cada dia mais se através desses espaços pensamos e deixamos pensar. Se o pensamento é uma festa, então, vamos pensar! Criar! Perceber! Expressar! Cantar! - como achei belo o pescoço da imagem de Man Ray! - Dançar!

... para o saber já existem espaços demais. Todos sabemos alguma coisa. Quando eu amadurecer minha docência e tiver coragem suficiente perante meus alunos, falarei para eles: "me deixem descansar, não quero saber de mais nada... parem de achar, saber e dizer, vamos guardar silêncio!". rs.

Um abraço e mais uma vez, obrigado.
g.

Marília Côrtes disse...

Caro g.
Que comentário mais rico! Impossível não ficar embevecida ao ler palavras tão delicadas e elegantes. Eu é que tenho que te agradecer. Fico feliz de ter, de algum modo, te inspirado a abrir um blog, tal como você o descreve (já dei uma espiada). Tuas percepções a respeito desse lugar de fala, bem diferente de qualquer um desses que você citou são, a meu ver, bastante sensíveis.

O facebook cansa mesmo, mas eu ainda o mantenho porque consegui fazer dele um bom instrumento de pesquisa de imagens, fotos, obras de arte, literatura, música, enfim, aprendi a programá-lo para alimentar meu feed com esse tipo de conteúdo. Dali, salto para outras bandas, quero dizer, outros links de igual ou melhor teor. Infelizmente, essas mídias têm seu preço. Acabamos, como você bem disse, tendo que engolir “pequenas histerias do dia a dia”, afora outras chatices e babaquices mais. As outras mídias que você citou, nem tentei, pois o facebook já consome boa parte de meu tempo.

Gostei da ideia de que o pensamento é uma festa. Pensando assim, acho que faço do meu blog uma festa que reúne minhas diversas percepções (meus convidados seriam as ideias, sentimentos, paixões, gostos, admirações, prazeres, dores and so on). Ele é variegado nos temas, na ordem, no tom, nos gêneros literários, nas imagens, tal como esse meu eu, que se Hume estiver certo, não passa de um feixe de diversas percepções. O blog representaria, talvez, o lugar (externo) de minha mente. Nele, escrevo com quase total liberdade. A única censura que há, aqui, é a minha própria (algo de que aos poucos venho me despindo). De tudo que faço, acho que o que mais gosto de fazer é escrever aqui, sem temas definidos, exigências, modelos e regras, a não ser as minhas próprias e as da nossa bela língua.

A belíssima imagem do pescoço que ilustra o verso do Britto estava entre as guardadas há tempos em meu arquivo de imagens (que cresce todos os dias). Ela aguardava ali o encontro de um verso, uma prosa, uma poesia, um miniconto, ou ainda, uma mera frase, título ou comentário qualquer.

Quanto às questões que você coloca a respeito da fumante misteriosa (rs) que desce as ruas sabe-se lá de onde e que talvez só exista na imaginação, no conto ou na foto que o ilustra, prefiro deixá-las soltas no ar, à mercê da curiosidade e imaginação da minha meia dúzia de leitores (rs). Diferentemente do gênero confessional (do qual também me sirvo), esse tipo de “observações triviais”, feitas nessa junção de cotidianidade pessoal e ficção, como você bem observou, é um exercício que tenho feito para chegar, ainda que a anos-luz de distância, àquilo que nos ensina Flaubert: “o autor em sua obra deve ser como Deus no universo: onipresente e invisível”.

Muito obrigada pelo seu comentário. Seja muito bem-vindo. E boas festas em seu blog (vou espiar de vez em quando).

Um abraço,

gpmv disse...

Querida Marília,

Muito obrigado pelas finas e acolhedoras palavras. Belo déjà vu trouxe a citação do feixe de percepções que descreve Hume. Sempre que leio o parágrafo que desenvolve a ideia ou ouço falar dela, fico maravilhado. Abre-nos a experimentações diversas em natureza, tom e temas. Hoje está na moda falar em subjetivação, mas acho mais discreta e precisa (despretensiosa) a ideia de eu humeana. Neste sentido, talvez o trabalho de ficionalização (variação imaginativa husserliana devendo muito a Hume?) que movimenta sua (nossa) escrita seja uma tentativa por traçar ou inscrever feixes na tela... compor fotografias, citações, conceitos, escrita.

Gostei muito do seu gesto com a fumante misteriosa (rs), álibi para imaginar e esquadrinhar. Identificá-la com alguém teria sido, quem sabe, cruel. O Deus flaubertiano teria assassinado uma das suas criaturas e, para tristeza do próprio Flaubert, teria deixado de ser invisível (rs).

Continuando com as questões que você coloca com relação à fumante, acredito que o gênero confessional representa um desafio interessante, o que seria confessar? confessar exclui a ficção? Paralelamente, tenho me interessado muito em pensar o que acontece com a correspondência. Fazer do blog uma correspondência refinada. O abandono do facebook e uma série de deslocamentos e mudanças (primeiro desde o Chile, depois de Assis-SP para Foz) transformou o e-mail num lugar para o exercício mais clássico da correspondência com aqueles que partiram ou ficaram. Seguindo ao filósofo chileno Patricio Marchant, poderia dizer que estou tentando estabelecer uma cena sobre a qual pensar alto, na qual ser meu 'próprio' Hamlet, Marcel ou Cneo (o Cneo Pompeio Magno de Pessoa). Essa cena se me apresenta num tom fortemente analítico, em que os feixes movimentam blocos de associações livres (pensei nos blocos do Carnaval, rs). Tratando-se de uma encenação psicanalítica, a questão da histeria não é apenas algo a se evitar, senão algo com o qual conviver e, idealmente (numa idealidade parecida dos anos-luz que você citou a propósito de Flaubert), enriquecer. Talvez, enriquecer a histeria não seja mais do que deixar fluir o desejo de uma forma elegante que aprenda a dizer 'quero' através de uma fotografia. Penso, também, na liberdade dessas associações (como não, nos blocos do Carnaval) e na liberdade de fazer algo com elas. Me deixa otimista o decurso de espontaneidade e libertação da censura que você descreve ter vivenciado na escrita. Libres da censura, as associações espero me permitam pensar, senão alto, pelo menos pensar: novas imagens chegando, diversificação do tom da escrita - me angustia muito ver como minha escrita é hegemonizada por formulários e relatórios - e conceitos que coagulem o sangue vivo que flui pelo blog.

Em fim, cena, correspondência, feixes do eu se encontrando. Está afetuosamente convidada para espionar no blog.

Um abraço,
g.


PS. A ideia da festa do pensar veio pela imagem de Nietzsche que você colocou em That's the point (http://mariliacortes.blogspot.com.br/2016/02/thats-point.html).
PS2. Nossa que fotografia intensa aquela de Jonathan Carroll (rs)!

Marília Côrtes disse...

Caro G.

Obrigada pelo comentário, e desculpe-me a demora em responder. Infelizmente não conheço nada a respeito do conceito de ficcionalização em Husserl para te dizer se ele deve tributo a Hume ou não. Dei uma pesquisada e tua associação me pareceu pertinente. Mas isso é o máximo que posso dizer, ao menos por enquanto.

No que diz respeito ao gênero confessional, creio que não há uma exclusão necessária da ficção, talvez nem mesmo possível, se considerarmos que transpor fielmente uma realidade para o papel seja praticamente impossível. Quero dizer, o simples fato de a escrita confessional ser um gênero literário, isto é, literatura, já admite estratégias retóricas, estéticas, estilísticas e linguísticas. A diferença, talvez, resida no fato de o autor, ao falar em primeira pessoa (não como um narrador- personagem), colocar-se de modo intencional e explícito no que escreve ─ como nas memórias, diários e epístolas.

Bom, não é nada fácil se despir da autocensura. Ao menos pra mim não foi. Tem-se que libertar de muitas amarras e preconceitos, bem como do medo de se expor, de ser ridículo e da crítica, enfim, tem-se que fazer um exercício. Leva tempo, mas, aos poucos, a gente consegue e, daí, não deixamos mais nada, nem mesmo os formulários, relatórios e conceitos coagularem o sangue vivo que pode fluir pelo blog, as you said.

Obrigada mais uma vez pela visita e comentário, e também pelo convite ao teu blog. Eu já tinha ido lá sem ser convidada mesmo rs. Oportunamente deixarei um comentário.

Um abraço,