quinta-feira, dezembro 05, 2013

Tango Fati

Tango or Tango of the Archangel |1922-1935|.Kees Van Dongen |1877-1968 | Oil on canvas


Hoje, ao ouvir um tango, transbordei, tangamente, de emoções e lembranças. Coração disparado, agitado. Suspiro profundo. Inspirei, expirei, suspirei, pausei! pensamentos pulularam no ritmo sincopado dos meus batimentos cardíacos enquanto eu dirigia. Pisei no freio. Derrapei!... ouvindo um tango. Mil perguntas despencaram em minha cabeça (ah, Marília, que mania de fazer perguntas!).

Por que eu gosto tanto de ouvir um bom tango? (Bom tango? Yes, of course! Difícil lembrar de um mau tango ─ acho que um mau tango não pode ser tango, quer dizer, para ser tango, tem que ser bom rs). Pois sim, por que os tangos me encantam, arrebatam e extasiam desse modo? Ora bolas, porque são belos! São penetrantes. Invadem-me não só pelos ouvidos, mas também pelas veias, poros e pulmões. Tangos são lindos, são sensuais, são sublimes! Circulam por todo o meu sistema sanguíneo, e por pouco não me arrebentam as veias. Eles me tiram do chão, enlevam-me desse mundo ─ e me deixam sem fala (mas cheia de suspiros, nem sempre doces)!

Seria um caso daquilo sobre o que não se pode falar? e que, portanto, eu deveria calar?

Se sim...  dane-se! vou transgredir esse famoso enunciado e falar mais um pouco sobre o que eu, talvez, devesse calar, ainda que Wittgenstein venha a se revirar na tumba.  Vou falar sobre o inefável, ainda que a lógica se escabele por eu ter proferido tamanha contradição. Vou dizer sobre o indizível, ainda que me faltem palavras para exprimir as paixões que “se agitam em meu peito em chamas” e que se diga que o indizível só pode, então, ser mostrado.

Transbordo-me quando ouço um tango. Eles se impõem, e, ao se imporem, acionam um derramamento de lembranças vívidas. Nada lívidas! Os tangos agitam nossas paixões (desejos, amores, temores e dores). Eles têm um "q" de sagrado e um "q" de profano. Ao ouvir um belo e bom tango (e digo belo e bom tango apenas para ser mais enfática), ao menos por um breve momento, eu me abandono em mim mesma, e para além de mim mesma, tornando-me, digamos assim, metafísica ─ pura contemplação estética! É como se eu e o universo inteiro nos tornássemos um só em toda a sua plenitude... (acho que Schopenhauer iria gostar dessa última frase haha, mas só dessa última, uma vez que ele entende o belo como uma dissolução do eu: um rompimento completo das amarras da vontade de viver, que, por sua vez, é enlouquecida pelo querido e amado eu. Para Schopenhauer, a contemplação estética se dá por um apaziguamento, uma libertação momentânea dos grilhões da vontade, e não uma agitação do eu em tormentos passionais, como no meu caso). Deixemos, então, o "velho rabugento" pra lá rs.

Os tangos inspiram o amor (e vice-versa) ─ os amantes latinos, ou os simplesmente amantes. A vida e a literatura estão repletas de amores calientes, ardentes, trágicos, dramáticos ou simplesmente amores. Quando ouço um tango, não quero mais nada, talvez, no máximo, um amante argentino hahaha, (brincadeirinha ─ mantenham o senso de humor, pois me ocorreu, agora, nesse fluxo, que quanto mais latino mais argentino rs... trocadilho infame só pra rimar, sorry).

Há tangos alegres, felizes? Acho que não! Ao menos não me vem nenhum à memória. Arrisco-me a dizer, pois, que os tangos são sempre trágicos ─ exprimem os sofrimentos e dramas da existência, o que ela tem de belo, profundo, triste, dolorido e (pausa) trágico! E não são menos belos por trazerem à tona a tragicidade da existência. Ao contrário, precisamente por serem trágicos, os tangos são ainda mais belos. Creio que vêm ao encontro do que Nietzsche diz sobre o Amor Fati: "Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas ─ assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas.  Amor Fati: Amor ao Destino". Tango Fati: "seja este, doravante, o meu amor" [A Gaia Ciência IV | § 276].


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