quinta-feira, maio 26, 2011

Orgástico Poema

Sempre tive predileção especial pelo poema abaixo de Paulo Leminski que conheci há muito tempo e anotei num de meus caderninhos: hoje resolvi trazê-lo à tona! Ei-lo:

A vagina vazia
imagina
que a página (sem vaselina)
a si mesma se preenche
e se plagia

Essa língua que sempre falo
(e falo sempre)
e distraído escrevo
embora não tão frequentemente
massa falida
desmorona no papel
                               quando babo
e acabada em texto
eu acabo


Bom, é claro que não pretendo aqui cometer o crime de explicar o poema, pois ele fala por si mesmo. Mas já que eu disse que tenho predileção especial por ele, vou ao menos explicar por que a tenho.

A meu ver o poema é genial (além de sexual) por ao menos dois motivos: primeiro pela métrica poética e musical das rimas "vagina, vazia, página, vaselina, plagia (ina, ia, ina, ia, ia); segundo, pela associação entre as ideias de "vagina e falo, língua e falo", que suscita a ideia de que quem escreve, e escrever tem relação (no caso aqui ambígua) com a língua, escreve, eu dizia, como quem faz sexo, portanto, como quem, ao escrever, ejacula e, ao atingir o clímax, escorre (baba e desmorona) em palavras. Ejacular palavras é, aqui,  gerar um texto: um esforço de quem se acaba e, ao fazer assim, acaba também o poema.

Caramba, acabo de me sentir acabada!

3 comentários:

Anônimo disse...

Bravo!

Ralph Kohler disse...

Esplêndido.

Aguinaldo Pavão disse...

Paulo Leminski, bah ...Básico demais. Teu comentário, porém, profundo e deveras estimulante. Sigo o anônimo e o Ralph e digo: "bravo, esplêndido", mas digo bravo e esplendido para o que você escreveu, não para o poema.