domingo, agosto 20, 2006

Rosa Meditativa - Salvador Dali

Fragmentos de um discurso amoroso


Hoje resolvi acrescentar ao meu blog (na postagem logo abaixo) algo que tem me feito muita falta: LITERATURA! Sou, de fato, uma amante da filosofia, mas como meu coração é bem grande, cabe-lhe também amar a literatura. E há tempos, por conta das exigências da filosofia (que com muito gosto e prazer eu procuro satisfazer) e da vida corrida (que nem sempre tenho gosto e dou conta de satisfazer), tenho negligenciado esse meu amor. Chegou a hora de me redimir. Para tanto, apresento aqui, alguns fragmentos inspirados nos "Fragmentos de um Discurso Amoroso" de Roland Barthes.

Para quem não conhece, esse livro contém essencialmente a figura do enamorado “que fala de si mesmo, apaixonadamente, diante do outro (o objeto amado) que não fala”. Quando eu os escrevi (na verdade, fiz um recorte dos fragmentos), vivia essa figura completa e desesperadamente enamorada. Sentia-me no turbilhão de uma crise dolorosa, mórbida, da qual eu precisava me curar. Na ausência e esfacelamento do meu amor, buscava fragmentos que pudessem recompô-lo. Precisava de uma trégua, de adocicar meu coração, pois não suportava mais minha própria amargura. Assim, eu procurava incessantemente um lenitivo. E foi na literatura do discurso amoroso que o encontrei, ainda que apenas de modo fugaz. Leia aqui: http://mariliacortes.blogspot.com.br/2006/08/fragmentos.html


Fragmentos dos fragmentos



“...encontro pela vida milhões de corpos; desses milhões posso desejar centenas; mas dessas centenas, amo apenas um: você... a especialidade do meu desejo. [...] foram precisos muitos acasos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez muitas procuras) para que eu encontrasse você, que entre mil, convém ao meu desejo. [...] por que desejo você? por que o desejo por tanto tempo...? [...] espero uma chegada, uma volta, um sinal... pode ser fútil ou imensamente patético. [...] uma mulher espera seu amante, de noite, na floresta; quanto a mim, só espero um telefonema, mas é a mesma angústia. Tudo é solene, não tenho noção das proporções. [...] do sabor de uma ou outra contingência, me deixo levar pelo medo de um perigo, de uma mágoa, de um abandono, de uma reviravolta... [...] na tua ausência, sou, tristemente, uma imagem descolada, que seca, amarelece, encarquilha... [...] uma mutilada que continua a sentir dor na perna amputada... [...] pouco a pouco sufoco, meu ar se rarefaz... [...] ciúmes, angústias, posses, discursos, apetites, signos, o desejo amoroso queima por todo lado. [...] e nada mais doloroso do que uma voz amada e cansada: voz extenuada, rarefeita, exangue, poder-se-ia dizer, voz do fim do mundo, que vai ser tragada muito longe pelas águas frias: ela está no ponto de desaparecer, como o ser amado está no ponto de morrer: o cansaço é o próprio infinito: o que não acaba de acabar. Essa voz breve, curta, quase sem graça pela raridade, esse quase nada da voz amada e distante torna-se em mim uma rolha monstruosa, como se um cirurgião me enfiasse um tampão bem grosso de algodão na cabeça. [...] pois desde que te vejo, por um instante, não me é mais possível articular uma palavra: mas minha língua se quebra e um fogo sutil desliza de repente sob a minha pele: meus olhos não têm olhar, meus ouvidos zumbem, o suor escorre pelo meu corpo, um arrepio toma conta de mim; fico mais verde do que o capim, e por pouco me sinto morrer. [...] quero constantemente arrancar de você a fórmula do seu sentimento, e de minha parte digo constantemente que o amo: nada fica para ser sugerido, adivinhado: para que se saiba uma coisa é preciso que ela seja dita; mas também, desde que ela é dita, ela é provisoriamente verdadeira...”

Nota explicativa 

sexta-feira, agosto 18, 2006

Immanuel Kant [1724-1804]

A rainha metafísica

O texto abaixo consite em anotações feitas durante as aulas do Curso de Introdução ao pensamento de Kant.
Relatório do encontro de 17 de junho de 2006.
Profª. Marília Côrtes de Ferraz.
Por Carlos F. de Paula Nadalim
(obs: Os relatórios não obedecem necessariamente uma ordem seqüencial das aulas).

Retomando as discussões realizadas na aula precedente, continuamos nossas análises sobre o parágrafo 4 do prefácio A da Crítica da Razão Pura. Anteriormente, vimos o abalo denunciado por Kant, que a senhora das ciências – a Metafísica - recebera através dos ataques desferidos principalmente por Hume. Ora, se as percepções dos sentidos captam impressões sensíveis, e as transformam em idéias, a chamada “Metafísica” teria seu nascedouro nas constatações empíricas. Ou seja, seriam apenas cópias de impressões, sem um referencial exterior a elas. Estas impressões, para Hume, transformadas em idéias pela mente, não possuiriam outra origem senão das próprias impressões sensíveis. Logo, a validez da metafísica, partindo de tais pressupostos, encontrar-se-ia em maus lençóis pelo fato de ter suas bases epistemológicas colocadas em xeque.
As dúvidas levantadas sobre o texto pairaram sobre o seguinte trecho:
“Embora essa suposta rainha tivesse um nascimento vulgar, derivasse da experiência comum e, por isso, com justiça, a sua origem tornasse suspeitas as suas exigências, aconteceu, no entanto, que esta genealogia tinha sido imaginada falsamente e, assim, a metafísica continuou a afirmar as suas pretensões; pelo que de novo tudo caiu no dogmatismo arcaico e carcomido e, finalmente, no desprestígio a que se tinha querido subtrair a ciência. Agora, depois de serem tentados todos os caminhos (ao que se vê) em vão, reina o enfado e um indiferentismo, que engendram o caos e a noite nas ciências, mas também, ao mesmo tempo, são origem, ou pelo menos prelúdio, de uma próxima transformação e de uma renovação dessas ciências...” (CRP A IX-X).
Kant estaria se referindo a quais ciências? Seriam as ciências denominadas metafísicas? Ou as chamadas empíricas? Ou ainda àquelas a priori como a matemática, e a física pura? No parágrafo terceiro, encontramos uma possibilidade de resolução do problema. O mesmo nos ensina: “Houve um tempo em que esta ciência (a metafísica) era chamada rainha de todas as outras...” (CRP A VIII). Num primeiro momento, teríamos a tendência de contrapor, pela leitura do texto em tela, a ciência (metafísica) de um lado e as demais ciências (empíricas) do outro. Contudo, tal solução aparenta-se precipitada ao constatarmos, no parágrafo VI da introdução da Crítica da Razão Pura afirmações obscuras sobre tal diferenciação categórica. Se considerarmos a razão pura como aquela onde se encontram proposições metafísicas, independentemente da experiência, as ciências empíricas estariam dentro de tal classificação. Nelas, encontraríamos, segundo Kant, princípios a priori e a posteriori. Assim, a meu ver, parece que as ciências possuem princípios metafísicos por excelência para Kant, pois se encontram permeadas daquilo que Hume não havia percebido, a saber, juízos sintéticos a priori.
O segundo ponto levantado encontra-se no início do quinto parágrafo. A discussão se fundamenta na idéia de que aqueles indiferentes quanto às questões da razão seriam indiferentes a si mesmos, tendo em vista a existência do sujeito se pautar justamente nela. Logo, ao ser indiferente às questões suscitadas pela razão, mesmo adotando uma linguagem menos rigorosa para isso, o indiferentismo acaba sendo não-indiferente, na medida em que tais representações, afirmativas ou negativas sobre a importância de tais questões, acabam sendo questões sobre a questão da razão em si.