quinta-feira, julho 25, 2019

Da calma e do silêncio




Quando eu morder
a palavra,
por favor,
não me apressem,
quero mascar,
rasgar entre os dentes,
a pele, os ossos, o tutano
do verbo,
para assim versejar
o âmago das coisas.

Quando meu olhar
se perder no nada,
por favor,
não me despertem,
quero reter,
no adentro da íris,
a menor sombra,
do ínfimo movimento.

Quando meus pés
abrandarem na marcha,
por favor,
não me forcem.
Caminhar para quê?
Deixem-me quedar,
deixem-me quieta,
na aparente inércia.
Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra.



[Conceição Evaristo | Poemas da recordação e outros movimentos | Belo Horizonte | Nandyala | 2008]

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fotos: Morro do Gavião | Ribeirão Claro | Represa de Chavantes | Rio Paranapanema | Paraná | Maio/2019]





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