sexta-feira, março 25, 2016

Flutuações anímicas


O encontro havia sido marcado e o assunto anunciado. No exato momento em que ia tocar a campainha, a porta se abriu antecipadamente. Olharam-se, de modo oblíquo, antes que involuntariamente um sorriso contido cintilasse em seus rostos. Ela entrou como um vulto. Sua alma adiantara-se ao corpo, tamanha a ansiedade. 

Com a respiração oprimida e o coração descompassado, passou em rápida revista a disposição daquela sala, cujos objetos lhe eram tão familiares. O pequeno sofá eternamente desconfortável. A enorme quantidade de livros, caixas e papéis espalhados pelo chão, mesa e prateleiras.  O móvel de bebidas destiladas. O abat-jour que não funcionava há tempos, assim como o velho aparelho de som igualmente inutilizado, apenas ali, ocupando espaço, testemunhando, entre outras coisas, a longa história daquela união que constantemente desafiava o improvável. Notou a falta do belo tapete no qual, há mais de 15 anos, rolaram pela primeira vez. O lustre sobre a mesa que, sozinho, de vez em quando, bruxuleava rapidamente, e tantos outros objetos tão bem conhecidos, dentre os quais aqueles que evidenciavam a paixão dele pelo seu glorioso time de futebol.

Após sua alma retornar ao corpo, atravessou a sala como uma flecha. Não deu um beijo nele, um abraço, nada. Disse apenas um oi e sentou-se no sofá. Ele, por sua vez, puxou uma cadeira posicionando-se na diagonal. Sentindo-se incomodada, ela se virou de frente para ele e tirou os sapatos colocando os pés, espontaneamente, no pequeno e desconfortável sofá. 

Um silêncio opressor pesou sobre eles. Naquele instante, face to face, teve a mesma sensação de Humbert Humbert descrita por Nabokov em sua obra-prima Lolita: o pulso a marcar, num minuto, quarenta pulsações, no outro, cem.

Alguns meses antes, estivera madrugadas inteiras a escrever torrencialmente. Ao expressar suas flutuações anímicas diante dos sinais confusos que ele passara a transmitir após o primeiro reencontro, depois da última separação, os dedos crepitavam nos papéis. 

Replicadas à exaustão, propusera a si própria mil questões seguidas de mil respostas diferentes para cada uma. Ordenava-as, desordenava-as, reordenava-as, ruminando toda aquela parafernália de sentimentos, impressões e ideias que se sucediam em sua mente, na tentativa de concebê-las tão claras e distintas quanto as verdades matemáticas ─ uma tarefa inglória, por certo. De qualquer modo, era preciso começar a falar tudo que naquele momento estrangulava-lhe a garganta. Estava resoluta em não mais voltar. E era mister que fosse direta e reta. Porém, na imperiosa presença e argumentação dele, diante de olhares tão íntimos, suas convicções se afrouxavam, suas dúvidas voltavam a lhe atormentar, e o espelho de sua mente, tantas vezes polido pela reflexão, embaçava novamente devolvendo-lhe a angústia da incompreensão.

Queria entender por que, afinal, ele resolvera quebrar o silêncio terminal que decretara três meses antes, depois de alguns reencontros e trocas de cartas que mais trouxeram dor do que propriamente alegria e prazer a ambos, dado o tempo dilatado de separação, no qual um havia aprendido a viver sem o outro, e em virtude do acúmulo de mágoas, rancores, remorsos e arrependimentos que passaram a habitar seus corações indelevelmente feridos? 

Após seis horas de conversas entremeadas por acusações recíprocas e alguns instantes sublimes, nos quais a intimidade e cumplicidade voltavam a reinar, chegaram à conclusão de que a questão não era mais se um havia aprendido a viver sem o outro, mas se a vida de ambos seria melhor, mais rica, prazerosa, exuberante, promissora e feliz, com ou sem o outro.


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