sexta-feira, dezembro 25, 2015

Da inconstância de nossas ações


"Não somente o vento dos acidentes me agita de acordo com a sua inclinação, mas, além disso, eu me agito e perturbo a mim próprio pela instabilidade de minha postura; e quem quer que se observe atentamente, dificilmente se encontrará duas vezes no mesmo estado. Dou à minha alma ora uma face ora outra, segundo o lado para o qual me volto. Se falo de mim de diferentes maneiras é porque me vejo de diferentes maneiras. Toda as contradições, de um modo ou outro, encontram-se em mim. Envergonhado, insolente, casto, luxurioso, tagarela, taciturno, laborioso, delicado, engenhoso, atordoado, aflito, afável, mentiroso, veraz, sábio, ignorante, liberal, avaro e pródigo: tudo isso vejo em mim de algum modo, conforme o lado para o qual me viro. E quem quer que se estude muito atentamente encontrará em si, e até mesmo em seu próprio julgamento, esta volubilidade e discordância. Não há nada que eu possa dizer de mim mesmo de modo completo, simples e sólido, sem confusão ou mistura, tampouco em uma única palavra".

[Montaigne. Essais II. Chapter I, De l'inconstance de nos actions]


4 comentários:

Gonzalo Montenegro disse...

Salvem as nuances da alma, tão bem descritas por esse honesto marinheiro das interioridades!

Marília Côrtes disse...

Sim, e salve também a tua visita. Tks, bjos

Ygor Raduy disse...

Pareço estar vendo a mim mesmo nessas palavras. Estupendo.

Marília Côrtes disse...

Sim, dear, como Montaigne diz ali: "quem quer que se estude muito atentamente encontrará em si, e até mesmo em seu próprio julgamento, esta volubilidade e discordância." Sabemos que você é um cara que se estuda muito atentamente ;) .