quinta-feira, janeiro 23, 2014

Ella na passarela

Ella chegou ao clube desfilando aquele seu charme habitual ─ uma delicada mistura de graça, beleza e vivacidade. E ainda que Ella fosse uma mulher madura, do alto de seus 38 anos, conservava seus trejeitos de garota marota, dada uma discreta malícia em seu sorrisinho de lado e uma evidente irreverência em seu indiscreto corpinho de moça. Onde Ella entrava, e por onde Ella passava, atraía inadvertidamente olhares de admiração (e, muitas vezes, de inveja  por parte das mulheres pobres de espírito). Ella movimentava-se com a graciosidade e leveza de quem está a bailar.

Ao caminhar toda bela e formosa pela passarela que circunda a piscina à procura de um lugar ao sol, Ella avistou de longe um tipo asqueroso (que ela mesma, outrora, já havia observado com involuntária repulsa). Era um mulato gordo, beiçudo e barrigudo, daqueles que vão, indiscriminadamente, a qualquer lugar de chinelos, bermuda e camiseta regata, sempre a transpirar gordura. Um tipo chulo, excessivamente chulo. 

Ella pensou em dar meia-volta, mudar o caminho, só pra não ter de passar por aquele sujeitinho bronco, visto que o cara, comme d’habitude, já havia lançado a distância seu olhar ordinário de macho predador. Ella percebeu aquele tipinho "eu sou o lobo mau" lamber os beiços e teve uma espécie de náusea. Controlou-se. E achou que uma vez dados os primeiros passos era melhor não hesitar e voltar. Ia dar muito na cara que desviara o caminho apenas para evitá-lo. Respirou fundo, franziu o cenho e foi em frente.

Ella sempre vira aquele sujeitinho vulgar por ali, geralmente cercado de mais uns três tipos semelhantes a ele. Já o havia visto também algumas vezes conversando sobre negócios com seu ex-marido (que raramente aparecia). E pelo fato de vê-los às vezes conversando, Ella se sentia constrangida, em virtude de sua boa educação, a cumprimentar aquele ser tosco e estulto sempre que não havia como evitá-lo. Todas as vezes Ella o cumprimentava com um gélido movimento de cabeça, justamente pra não lhe dar espaço pra dizer nada. 

Ora, o que Ella poderia esperar ouvir de um sujeitinho daquele?

Ao vê-la passar, o malandro de quinta, com ar de quem quer puxar um papinho, adiantou-se e lhe perguntou: ─ o namorado não quis vir hoje? Ella bufou diante de tal atrevimento. Ficou puta da vida, ao ponto de não conseguir disfarçar o constrangimento que sentira. Com um olhar sério e furtivo, não respondeu. Apenas deu um sorrisinho amarelo e sem graça. E continuou em frente, indignada, pensando: “não é que esse beiçudo barrigudo teve a pachola de me fazer uma pergunta dessa?”

A sorte dele foi que Ella era uma mulher bem educada. O sorrisinho glacial, seguido de um ar de desprezo, disse tudo, mas certamente Ella desejou ser suficientemente grosseira para, soltando fogo pelas ventas, lhe perguntar:

─ Por que o senhor acha que seria minimamente razoável me fazer uma pergunta tão invasiva? Que relevância tem para você e/ou para a humanidade se meu namorado quis ou não quis vir hoje? Quando é que lhe dei espaço para o senhor se dirigir a mim, assim? Ah... faça-me o favor! A você, lobo mau com cara de bobo mau, caberia apenas me observar passar, ou, no máximo, respeitosamente me cumprimentar com um brevíssimo aceno de cabeça. E mais nada! Vá lamber esses beições pra lá e comer sua vovozinha ─ seu babaca ordinário! ou melhor: vá lamber sabão! como dizia a minha avó!

2 comentários:

Amanda Garcia disse...

Professora! Adorei esse! Me identifiquei com Ella! haha
Parabéns pelo blog! Sucesso ;*

Ass.: Sua aluna polêmica de RP - NOTURNO que acredita em Deus,rs

Marília Côrtes disse...

hahaha... sabe que Ella tem mesmo a ver com você? (embora você seja bem mais novinha rs). Thanks pela visita e comentário. bjs