domingo, julho 22, 2007

A filosofia e a morte


[ Natureza Morta com Livros | Fernando Botero ]

Este pequeno espaço do meu quarto, no qual durmo, sonho e estudo, guarda muitos assuntos. Vocês sabem, uma de minhas principais atividades é estudar filosofia. Ao pensar num desses assuntos para escrever neste blog (que aliás estava formando teias de aranha, de tanto tempo faz que não escrevo) resolvi folhear uma de minhas cadernetas de anotações. Ao folheá-las encontrei várias notas sobre diversos autores e temas. Leio várias observações sobre Hume. Continuo a folhear e dou de cara com alguns parágrafos que traduzi de um texto de Penelhum, depois de J. Bricke, Barry Stroud, Georges Dicker, enfim, leio uma variedade de pequenos comentários. Percebo que quase toda ela, ao menos esta caderneta que está agora em minhas mãos (tenho várias, e elas marcam sempre um período de estudos), consiste em anotações sobre Hume e seus comentadores, ou seja, comecei a escrever nesta por ocasião do meu mestrado. Folheio mais um pouco e encontro questões, dúvidas, termos desconhecidos, expressões estrangeiras, latim, grego, inglês, francês - quase chego a acreditar que sou erudita mesmo (e principalmente modesta rsrsrsr). Mas eu não sou nada disso, nem erudita e nem modesta hahaha. Mais algumas páginas e encontro já algumas observações sobre o meu doutorado, especialmente indicações bibliográficas que deverão ser consideradas. A cada página um cabedal de digressões, divagações e excursões que vão de Heráclito, Parmênides e Platão, a Agostinho, Tomás de Aquino, Descartes... Enfim, esse caderninho contém um pequeno diálogo sobre esse grande diálogo que é a história da filosofia: ele traz uma pluralidade de vozes, autores, teorias, pensamentos e opiniões.


Bom, como quem brinca de mamãe mandou escolher aquele ali, mas como eu sou teimosa escolho este daqui, penso em expor algumas notas que fiz sobre Epicuro. A que mais me chama a atenção neste momento diz respeito à morte. Pensar na morte é para mim, num certo sentido, pensar na vida, na minha vida, na vida dos outros e na vida em geral. E eu estou particularmente inspirada pelo mais recente e nefasto acontecimento do maior acidente, até então, da história da aviação brasileira. Fiquei a pensar se as palavras de Epicuro poderiam servir de consolo àqueles que no momento sofrem a trágica perda de seus entes queridos.

Diz Epicuro (341-270 a.C): “Habitua-te a pensar que a morte nada é para nós, visto que todo o mal e todo o bem se encontram na sensibilidade: e a morte é a privação da sensibilidade" (Antologia de Textos, p.14). Quer dizer, a morte é simplesmente a dissolução do agregado corpóreo a que pertence a sensibilidade. Dessa perspectiva, a morte não existe para nós enquanto vivemos, assim como não existimos para ela quando surge, uma vez que já não existe sensibilidade ou capacidade de sofrimento.


Bom, certamente esse trecho, se não de maneira impossível, dificilmente contribuiria para amenizar a dor daqueles que sofrem a perda de pessoas queridas. Penso que essa passagem, se bem compreendida e experimentada, é capaz de tocar apenas o próprio espírito (talvez, apenas, de um espírito sobre-humano), e é apenas este, ao pensar na própria morte (e que para isso tem de estar vivo), que pode alcançar aquela imperturbabilidade de espírito (ataraxia) conquistada pelo domínio de si.

Ora, para Epicuro, a filosofia tem função terapêutica e deve libertar a alma (ou o espírito) das perturbações que a abalam. É o que se depreende da afirmação “Deves servir à filosofia para alcançar a verdadeira liberdade” (Antologia de Textos, p.13). Nesta obra encontramos também a seguinte declaração: “Assim como realmente a medicina em nada beneficia se não liberta dos males do corpo, assim também sucede com a filosofia se não liberta das paixões da alma” (p.13). Tais males e paixões que nos dominam têm suas origens naquilo que Epicuro chama de quatro erros ou falsas opiniões, a saber, o temor dos deuses, o medo da morte, o desejo ardente de prazeres e o pesar pelas dores. No caso daqueles que sofrem a morte de seus entes queridos é o pesar pelas dores da perda e a saudade que tristemente perturbam seus inconsoláveis espíritos.

13 comentários:

giselma disse...

ola marilia estou fazendo um ensaio sobre a filosofia da morte e fazendo a minha pesquisa pela internet encontrei o seu blog.
Gostaria de pedir sua ajuda.
Derá que você poderia me indicar algum material falando sobre o assunto?
de ante mão já agradeço.
um abraço
email: giselmamaria@gmail.com

maicher disse...

I think I come to the right place, because for a long time do not see such a good thing the!
jordan shoes

x-iuri disse...

Ola Marília, eu estou desenvolvendo uma pesquisa que relaciona arte e morte, e livros de psicanalise e filosofia que tratem do assunto morte seria uma ajuda e tamto. Como voce parece entendida resolvi perguntar
abraçoss

Marília Côrtes disse...

Iuri. Você pode encontrar algo sobre a filosofia e a morte em vários autores. Um que eu indicaria é a Metafísica da Morte de Arthur Schopenhauer. Mas vc pode encontrar algo sobre o assunto na Antologia de Textos de Epicuro e no capítulo XX dos Ensaios de Montaigne (ambos da edição de Os Pensadores). Enfim, acho que vc pode começar por aí.
Um abraço

x-iuri disse...

obrigado Marília

Vou pesquisar estes autores.
Eu estava lendo seu perfil e vi que você estudou na UEL. Eu tou cursando arte visual lá.
Conhecidencia

abraço

TathTequilla. disse...

Olá, estava apenas fuçando no google algumas coisas sobre filosofia e a morte e a vida para colocar em meu livro e encontrei seu blog... Confesso que de inicio fiquei com uma pontada de preguiça de ler mas acabei lendo por curiosidade. Parabéns realmente está muito bom.. Vou segui-la no blog para acompanhar novidades. Beijoos da Taaati

Marília Côrtes disse...

Ok Thati... obrigada e seja benvinda. um bj

mailson régis disse...

Oi Marília!
Meu nome é Maílson e estou fazendo licenciatura em filosofia em Recife, adorei o seu blog! Gostaria de lhe pedir alguma coisa sobre o tema da morte,mas já encontrei o que queria...Um abraço e ficarei sempre visitando seu blog!

Marília Côrtes disse...

Oi Mailson, obrigada e seja benvindo.
Um abraço

wenderson disse...

Cara Marilia , estava pensando em escrever alguma coisa relacionado a morte e seu texto foi excepcional por mostrar os caminhos aos quais poderia expandir minha linha de pensamento , assim como a giselma tambem estou no ardúo trabalho de escrever sobre a unica certeza da existencia humana e tambem necessito de material para esta empreitada , desde ja agradeço e tenho que reafirmar a qualidade do seu trabalho . EXCEPCIONAL
email; wissenchaftgayan@hotmail.com

Ana Rute disse...

Olá!
Estou a fazer mestrado na Universidade de Coimbra e também me interessa muito a abordagem da morte e do luto relacionados com a ética do herdar com que devemos consagrar o património histórico e artístico. Encontrei este blog por acaso durante a minha pesquisa e gostei muito. Aproveito para agradecer também as referências bibliográficas que sugeriu!

Patricia disse...

ola Marília Côrtes,venho aqui lhe parabenizar pelo breve comentário,que postou no seu blog,"A filosofia e a morte", adorei ler e achei muito interessante seus relatos sobre o assunto.Sou estudante de filosofia na UFC do Cariri,o que sei sobre filosofia e as relações de modo geral não é muito,pois ainda estou no 4 semestre porém, confesso que estou adorando o curso,por curiosidade minha,estava procurando alguns assuntos sobre filosofia e a morte e que relação possuem,achei o seu blog e gostei muito de ler.parabens novamente.bjoss

Atenciosamente, Patricia Rannielle

Marília Côrtes disse...

Oi Patrícia. Obrigada e seja benvinda! boa sorte em seus estudos. um beijo