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domingo, junho 07, 2026

Chove

A chuva cai.

Os telhados estão molhados,

Os pingos escorrem pelas vidraças.

O céu está branco,

O tempo está novo.

A cidade lavada.

A tarde entardece,

Sem o ciciar das cigarras,

Sem o jubilar dos pássaros,

Sem o sol, sem o céu.

Chove.

A chuva chove molhada,

No teto dos guarda-chuvas.

Chove.

A chuva chove ligeira,

Nos nossos olhos e molha.

O vento venta ventado,

Nos vidros que se embalançam,

Nas plantas que se desdobram.

Chove nas praias desertas,

Chove no mar que está cinza,

Chove no asfalto negro,

Chove nos corações.

Chove em cada alma,

Em cada refúgio chove;

E quando me olhaste em mim,

Com os olhos que me seguiam,

Enquanto a chuva caía

No meu coração chovia

A chuva do teu olhar.


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Ana Cristina Cesar

[In: “Inéditos e dispersos“ | org. Armando Freitas Filho | São Paulo | Editora Brasiliense | 1985]



sexta-feira, setembro 08, 2017

Delírio de arquivística


Acreditei que se amasse de novo
esqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos


Ana Cristina Cesar | 1952 - 1983 | in “Inéditos e Dispersos”




quinta-feira, janeiro 05, 2017

O corpo de um poema


  [photo by Cristina Otero]


                     olho muito tempo o corpo de um poema
                     até perder de vista o que não seja corpo
                     e sentir separado dentre os dentes
                     um filete de sangue
                     nas gengivas


                    [Ana Cristina César | A teus pés | Brasiliense | 1984]