
sexta-feira, novembro 06, 2026
Sobre as paixões

domingo, agosto 09, 2026
Tempo
mas ela não me olha
nem me entende.
Já tentei falar com a formiga
com a aranha
fui ao limoeiro da horta
e ninguém liga.
Olho os objetos da sala
minhas coisas no escritório (os óculos)
e no quarto (os sapatos).
Não estão em pânico
não devem nada
e não têm planos.
O tempo é mesmo
uma doença humana.
....................................................
SANT’ANNA, Affonso Romano de | Estou dizendo para esta lagartixa | In: Vestígios | Rio de Janeiro, RJ | Rocco | 2005 | p. 15.
domingo, junho 07, 2026
Chove
A chuva cai.
Os telhados estão molhados,
Os pingos escorrem pelas vidraças.
O céu está branco,
O tempo está novo.
A cidade lavada.
A tarde entardece,
Sem o ciciar das cigarras,
Sem o jubilar dos pássaros,
Sem o sol, sem o céu.
Chove.
A chuva chove molhada,
No teto dos guarda-chuvas.
Chove.
A chuva chove ligeira,
Nos nossos olhos e molha.
O vento venta ventado,
Nos vidros que se embalançam,
Nas plantas que se desdobram.
Chove nas praias desertas,
Chove no mar que está cinza,
Chove no asfalto negro,
Chove nos corações.
Chove em cada alma,
Em cada refúgio chove;
E quando me olhaste em mim,
Com os olhos que me seguiam,
Enquanto a chuva caía
No meu coração chovia
A chuva do teu olhar.
..........................................
Ana Cristina Cesar
[In: “Inéditos e dispersos“ | org. Armando Freitas Filho | São Paulo | Editora Brasiliense | 1985]
quarta-feira, maio 13, 2026
Assombros
Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.
Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.
sábado, março 14, 2026
Flores do ofício
Em novembro de 2025, minha aluna e orientanda Isabella D’Aquino Marcondes Noronha, a quem chamo de Bella, defendeu seu TCC:
Título do trabalho: “A erotização da violência sexual como produto da socialização feminina e da ideologia queer.”
Bella foi minha aluna no primeiro e no terceiro ano. No quarto, minha orientanda de TCC. Mas, em meio a isso, de 2022 a 2024, foi minha orientanda de Iniciação Científica (PIBIC) com bolsa da Fundação Araucária, e integrante de meu grupo de estudos “Mulheres na Filosofia”. Ou seja, acompanhei sua formação em todos os anos do curso.
Ela chegou à UENP, em 2021, justamente no primeiro ano em que a disciplina sobre “Questões de Gênero e Filosofia Feminista“ havia entrado no currículo de nosso curso. E eu, por ter tido contato com essa temática num evento que coordenei em 2019, e também por ser a única mulher de nosso colegiado, fiquei encarregada de ministrá-la. Eu não sabia quase nada sobre o assunto, pois em toda a minha formação só estudei filósofos (e não filósofas) ─ bem sabemos os motivos. É claro que passei a estudar o tema como louca para dar conta da tarefa.
Logo de cara, percebi que a Bella sabia muito mais sobre o assunto do que eu. E a partir daí começamos a “trocar figurinhas”. Um dia chego à UENP e ela havia me levado de presente um livro ─ A Criação do Patriarcado, de Gerda Lerner (obra fundamental para quem pretende tratar dessas questões) ─ com uma dedicatória fofíssima. Passei a estudá-lo e começamos a discuti-lo nas reuniões do grupo de estudos. Dali para a frente, foi só parceria, amizade, trocas, orientações, confidências e muito trabalho.
As questões envolvidas nessa temática são polêmicas, sacodem crenças, inflamam opiniões, tocam feridas e toda uma gama de preconceitos. É preciso mesmo ter muita coragem para pensar, escrever e falar sobre elas. Em muitos casos, opiniões divergentes podem gerar confusões, críticas ferozes, difamações públicas, cancelamentos, processos, enfim, o assunto habita um campo minado, sobretudo quando traz para o debate questões sobre transgeneridade. Bella, compreensivelmente, titubeou várias vezes, pensou em desistir tantas outras, mas afrontou o temor e, com muita coragem, resistiu às dificuldades que o assunto e a própria vida pessoal apresentavam.
Destaco aqui alguns resultados de suas (e nossas) pesquisas: a publicação conjunta de um artigo intitulado “O problema do gênero segundo o feminismo de raiz”, publicado na PRISMA – Revista de Filosofia, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM, Vol. 6, no. 1, 2024). Resultantes desse estudo e publicação foram apresentados trabalhos em dois Encontros de Filosofia da UENP (Jornadas de Debates) e na XX ANPOF/2024, em Recife-PE, com publicação no Caderno de Resumos dos eventos. Destaco também os seguintes textos e comunicações: i) “Opressão, subordinação e privação”, publicado nos Anais do IX Encontro de Integração da UENP/2023; ii) “Da desconstrução à desarticulação: pós-estruturalismo e suas implicações para o feminismo”, publicado nos Anais da VII Jornada de Educação em Sexualidades do Paraná (JORESP) & II Congresso de Educação em Sexualidades Crítica (2024); iii) “A crise do sujeito no feminismo: reflexões a partir do pós-estruturalismo”, publicado nos Anais do X Encontro de Integração da UENP/2024.
[Por aí se vê a importância do engajamento de nossos alunos nos Programas de Iniciação Científica. Bem trabalhados, tais programas conduzem as alunas e alunos a realizarem ótimas pesquisas e seguirem, se assim desejarem, uma carreira acadêmica promissora].
Seu TCC é resultado de todo esse caminho e produção. De acordo com alguns comentários da banca, faltou muito pouco para seu TCC ser considerado uma Dissertação de Mestrado prontinha da silva. Em sua apresentação e defesa, Bella emocionou a todos e todas com um texto no qual falava de suas motivações para escrever o trabalho. Levou um 10 bem redondinho pelo texto escrito, pela apresentação oral e pelo comprometimento impecável com seus estudos. Ela colou grau em fevereiro/2026, saindo da UENP com uma bagagem mais do que suficiente para se engajar num mestrado.
Ontem soube que ela passou na seleção de mestrado da UNESP de Marília. E o mais interessante foi que, por conta das linhas de pesquisa da mencionada universidade, ela teve que produzir um novo projeto, num tema completamente distinto. E sei que ela fez isso a toque de caixa, trabalhando loucamente, quase sem tempo para respirar. Com isso quero dizer que essa moça vai longe e merece MEUS PARABÉNS em letras garrafais. Apostei muito nela e só tenho a agradecer a troca e parceria nesse amor ❤ e dedicação à sabedoria.
domingo, fevereiro 08, 2026
Delta de Vênus
“Só o batimento, em uníssono, do sexo e do coração pode criar o êxtase."
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Anaïs Nin (1903-1977), numa carta a um misterioso colecionador que, por sua vez, encomendou numerosas histórias eróticas, ao casal Henry Miller / Anaïs Nin, cuja palavra de ordem era o sexo.
Nessa carta, datada de 1941, ela explica que sem poesia não existe amor. Aliás, acho que sem poesia não existe vida (ao menos pra mim).
sábado, janeiro 31, 2026
Nu vens
... a gente acorda cedo, observa o tempo, resolve tomar um sol, bota um biquíni, prepara tudo, lambuza-se de protetor, pega o livro, a toalha, a canga, a latinha de tabaco, o filtro, a seda, o isqueiro e a garrafa de água, (lembra que não tem chapéu, boné, essas coisas, porque não gosta mesmo de usar), e desce pra piscina. Lá, abre o guarda-sol, organiza tudo embaixo dele, prepara a espreguiçadeira, sente o ventinho fresco, esconde o celular, e pensa que vai queimar o lombo...
só que não! em menos de 10 minutos as nuvens se intrometem no cenário e toda a manhã programada sob o sol foi pro beleléu, ou, como se diz também, pras cucuias.
domingo, janeiro 11, 2026
Do ofício de escrever
sábado, setembro 20, 2025
domingo, agosto 24, 2025
Na-valha-nos
Ultimamente, com as demandas, pressões e encargos burocráticos do trabalho, assim como uma certa dispersão pelas redes sociais, faltam-me tempo e foco para escrever, ou mesmo apenas para transcrever o que leio e aprecio. Diante disso, resta-me, de vez em quando, passear os olhos pelos meus diversos caderninhos de anotações. Hoje encontrei a passagem acima, que, por sua vez, me toca sobremaneira.
sábado, julho 19, 2025
Metodologia cartesiana
quinta-feira, junho 12, 2025
terça-feira, maio 13, 2025
quinta-feira, março 06, 2025
Notas aleatórias
corpo que se foi
estrela que subiu"
domingo, agosto 25, 2024
Morrer-se
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: “Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio”.
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
“Adeus! Adeus!”
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes…
(primeiro, os olhos… em seguida, os lábios… depois os cabelos…)
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo… tão leve… tão subtil… tão pólen…
como aquela nuvem além (veem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis…
...................
José Gomes Ferreira (1900-1985)
sábado, julho 20, 2024
Eu uso óculos
Acabei de viver uma situação dramática, quando estava sossegada, atirada em meu sofá, assistindo a “Os cinco diabos”, filme de Léa Mysius. Ouvi um barulho na lâmpada de minha luminária e algum bicho rapidamente passou pela minha cabeça. Saltei igual a um canguru (vocês nem imaginam como sou rápida nesse gatilho). Imediatamente acendi a luz do teto. Já imaginei o pior bicho, o mais horripilante. Quero nem dizer o nome...
Corri e peguei o veneno (morro de pena, mas não dou conta de conviver com uma). Eu mato! mas mato com dó. Mato sofrendo. Não suporto vê-la agonizando, sufocada pelo veneno. Agonizo junto. Mas não tem negociação possível. Ou eu ou ela, e, claro, sou mais eu. Sorry.
Espalhei o veneno na região do barulho: embaixo, atrás e nas laterais do sofá. Praticamente envenenei a sala e a mim mesma. Fiquei um pouco longe, de pé, esperando pra ver que bicho era aquele. De repente, vejo uma formiga, daquelas que têm asas, em completa agonia. Era essa a bichinha. No caso, nem precisaria matá-la, já que era apenas uma formiga voadora. Pensei se deveria dar a ela o golpe de misericórdia, dada a agonia da coitada. Passou pela minha cabeça jogar mais veneno. Morri de pena! Achei cruel demais. É uma morte muito lenta. Fui, então, buscar um chinelo. O método tradicional seria menos agonizante e mais fatal.
Quando voltei, tomada de comiseração, resolvi tentar salvá-la. Tava desesperada a coitadinha. Peguei um papelzinho pra ela subir. Ia jogá-la na sacada, proporcionar-lhe ar puro, mas a coitada subiu muito rápido e caiu. O papel era pequeno demais. De repente, saiu voando toda tonta e desorientada. Abri a sacada e agora não sei por onde ela anda. Não sei se conseguiu fugir. Espero que sim. Silêncio total. Não ouço nenhum bater de asas, nenhum bicho dando rasante sobre minha cabeça.
Eu poderia terminar aqui. Ficou claro que me precipitei. Porém, justifico:
Meses antes, depois de ter ouvido um barulho semelhante ao do caso acima, e ter pensado que deveria ser uma mariposa, um grilo ou uma mosquinha qualquer, um daqueles seres que me recuso a pronunciar o nome simplesmente pulou em minhas costas nuas, enquanto eu estava sossegada, esparramada em meu sofá, assistindo a um filme que não me lembro qual. Voei dali na velocidade de um raio.
Fiz o mesmo movimento. Corri pegar o veneno. Fui e voltei em segundos, temendo perdê-la de vista. Perdi! Achei que se escondeu debaixo do sofá. Lasquei veneno e fiz a mesma coisa. Observei de longe. Não a vi mais. Dei um tempo dali e depois voltei, certa de que seria impossível que ela tivesse sobrevivido. E de fato não ouvi mais nenhum barulho. O silêncio voltou a reinar. Consegui relaxar.
Quando fui dormir, vi a desgraçada ali no ralo do box do banheiro completamente imóvel, mortinha da silva. Como ela chegou ali não entendi, dado o meu olhar atento, neurótico e paranoico, dada a distância entre a sala e aquele banheiro.
E agora? Deixei pra pensar no dia seguinte. Precisava criar coragem para tirá-la de lá. Fechei o box, fechei a porta do banheiro e não entrei mais ali. No dia seguinte, fui lá com uma pazinha e uma vassoura para retirá-la. Quando cheguei perto, não era a tal asquerosa. Era um pedacinho de sabonete Phebo tradicional (daquele preto), bem no finzinho, que tinha caído da saboneteira do box.
Concluam vocês mesmos.
sábado, junho 15, 2024
Devagar
sábado, maio 25, 2024
...
a bater fotos
a deixar latas de cerveja
buscando só imensas catedrais
e estátuas transparentes
com a mochila cheia de mapas
e fazendo refeições ligeiras
há um país
sete cidades
uma cordilheira e um inverno
no coração duma mulher
não entres no avião
toma o comboio da meia-lua
não reveles ali tuas fotos na hora
se não fizer muito frio
entra nu
não leves chapéu-de-chuva
e sobretudo não cortes árvores
no coração duma mulher
não costumam voltar a crescer.
..................
[ José María Zonta | Revista NERVO/1 |Colectivo de Poesia | Tradução de Élia Calvo | Janeiro-Abril | 2018 ]
terça-feira, maio 14, 2024
Palavras e beijos
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
[Alexandre O'Neill | Poesias Completas | Assírio & Alvim]
terça-feira, abril 30, 2024
Andanças
mas ainda tenho as retinas
retidas no céu [...]
...........
domingo, abril 14, 2024
Ah!
Como seria menos linda e mais suave
minha história!
domingo, março 31, 2024
Welcome
disse ao entrar,
porque me vou imediatamente.
Não apenas incomodas,
respondi,
como pões de pés para o ar toda a minha existência.
Bem-vindo.
domingo, março 17, 2024
Filósofo feminista
"À querida e saudosa memória daquela que foi a inspiradora, e em parte a autora, de tudo que há de melhor em meus escritos - a amiga e esposa, cujo exaltado senso de verdade e justiça foi meu estímulo mais forte, e cuja aprovação foi minha principal recompensa - dedico este volume. Como tudo que escrevi por muitos anos, este livro pertence a ela tanto quanto a mim; mas esta obra, tal como está, teve em medida muito insuficiente o inestimável benefício da revisão dela; algumas das partes mais importantes haviam sido reservadas para um reexame cuidadoso, que estão agora destinadas a não receber jamais. Se fosse eu capaz de interpretar para o mundo metade dos grandes pensamentos e nobres sentimentos que estão sepultados em seu túmulo, eu seria o meio para um benefício maior do que o que se possa obter de qualquer coisa que escreva sem contar com e sem ser assistido por sua incomparável sabedoria."
(In: Sobre a liberdade, obra de John Stuart Mill [1806-1873] dedicada à sua esposa Harriet Taylor [1807-1858]).
Na verdade, H. Taylor foi o grande amor da vida de Mill, vale frisar, já que nem sempre a esposa (ou o marido) e o grande amor da vida andam juntas, quero dizer, coincidem na mesma pessoa. Mas eles têm uma bela história de amor, cumplicidade, companheirismo e parceria intelectual, tal como se pode perceber nas poucas linhas dessa tocante dedicatória.
Quanto ao fato de Mill ser aqui chamado de filósofo feminista, isso pode ser verificado, entre outros escritos, a partir da leitura de seu ensaio intitulado A sujeição das mulheres. Há uma boa edição das duas obras aqui mencionadas, com uma ótima introdução crítica, publicada pela Penguin-Companhia.
quinta-feira, fevereiro 29, 2024
Genialidade ímpar
Toda semana em que entro num certo banheiro, de um certo posto de gasolina, de uma certa estrada, não me conformo em ver que o suporte para pendurar a bolsa que, em geral, as mulheres carregam está fixado poucos centímetros acima da lixeira. Fico pensando que é muitíssimo provável que quem teve essa brilhante ideia deve ter sido um homem que não costuma usar bolsas e, portanto, não entende nada do assunto.
Pergunto: de que vale um suporte para tal fim se quando penduramos a dita cuja ali ela fica tão mais encostada naquela lixeira (cheia de papéis higiênicos sujos e outros lixos mais) quanto mais ou menos comprida for a sua alça?
Ah... mas por que você não muda a lixeira de lugar? ora bolas, já pensei nisso, mas não há outro espaço que a caiba. Do outro lado temos cravado na parede o suporte para o rolo de papel. E, no mais, qualquer outro lugar obstrui a porta. Ou seja, no way...
Anyway, é ali que sempre paro, pois o banheiro é, em geral, bem limpo. O café, apesar de muito doce, é quente e fresco. O pão-de-queijo é bem delicioso. As moças atendentes são super simpáticas. E o entorno, repleto de eucaliptos e outras vegetações, é ótimo para fumar um cigarrinho enquanto o vento sopra.
sábado, fevereiro 10, 2024
O teu silêncio
tem grandes navios.
O teu silêncio de pedra,
o teu escuro silêncio.
Silêncio do tempo,
pesado tempo,
voz dos que já morreram.
Silêncio onde se ausenta minha voz.
Eco do meio da mata,
Eco do fundo de um poço.
Palavra de Deus teu silêncio,
luz na neblina,
Teu grande silêncio de mulher.
(José de Arimatéia Silva)
terça-feira, janeiro 30, 2024
Dois corpos
são às vezes duas ondas
e a noite um oceano
Dois corpos frente a frente
são às vezes duas pedras
e a noite um deserto
Dois corpos frente a frente
são às vezes raízes
na noite enlaçadas
Dois corpos frente a frente
são às vezes navalhas
e a noite um relâmpago
Dois corpos frente a frente
são dois astros que caem
num céu vazio.
quarta-feira, janeiro 17, 2024
Carro-fantasma
Quando estive em San Francisco, em Janeiro do ano passado, vi carros que andam sozinhos pelas ruas, sem motorista e sem passageiros. É curioso e assustador ao mesmo tempo.
Numa das noites em que estive por lá, minha filha parou rapidamente em fila dupla para que eu descesse em frente ao seu apartamento, no coração da cidade, numa rua bem íngreme, feito várias que têm por lá (é um sobe e desce que não tem tamanho).
Dali minha filha ia procurar um lugar para estacionar — artigo raro; de luxo mesmo, a ponto de me fazer pensar que o metro quadrado daquela cidadezinha de terras e mares recortados deve custar uma fortuna. Há muitos predinhos de três ou quatro andares que, dadas as especificidades da cidade, têm apenas uma garagem. Muita gente tem que estacionar nas ruas.
Logo atrás de nós vinha um desses carros sem motorista e passageiro. Já havia visto, durante o dia, un passant, um ou outro mapeando a cidade, tal como minha filha me explicou. Mas esse, daquela noite, parou bem atrás de nós. Tipo freou de repente para não bater atrás, e o carro ficou enviesado. Desci e, quando o vi, tão de perto, parado com as luzes piscando, fiquei perplexa. Era tarde da noite. Umas 11 pm. Estava bem escuro. E sempre tive medo de ficar sozinha numa rua escura.
Paulinha já havia se mandado rapidinho para procurar uma vaga, plugada no 220, comme d’habitude. Corri até a porta do prédio e, ali, do lado de fora, me embananei com as chaves. Estava nervosa, com o coração na boca.
Aquele carro vazio ficou ali emperrado, piscando suas luzes como quem não está entendendo nada. Não saía do lugar. Parecia mesmo ter parado no susto, como se o script tivesse mudado. Não havia ninguém dentro dele. Nenhum motorista, nenhum passageiro.
Gentemm, parecia um carro-fantasma a me observar pelas costas.
A porta do prédio era de vidro liso e transparente. Depois de me acertar com as chaves, entrei e me tranquei. Ali fiquei a observar os próximos acontecimentos, ansiosa para que minha filha (toda destemida) chegasse logo. Ela conhece os passos da cidade. Anda tranquilamente por lá. Eu? me senti completamente estrangeira. E era mesmo. A começar pela enrolação na língua 😛 na hora de travar uma conversa, solicitar uma informação, pagar uma conta, enfim, quando precisava me comunicar com desenvoltura.
Voltando ao relato do episódio sinistro, de repente, um carro “normal”, com motorista, parou atrás, uma vez que, parado ali de soslaio, o carro-fantasma estava a obstruir a passagem. O cara de trás deu umas duas ou três buzinadas. O carro-fantasma entendeu a mensagem, deu uma rezinha, endireitou-se na rua e desceu calmamente como se nada tivesse acontecido.
Paulinha chegou. Subimos para o apto. Vida que segue.
domingo, dezembro 31, 2023
to disappear
Lissy Elle's Photography
sábado, novembro 18, 2023
Episódios do day by day
Hoje tive que ir ao shopping Catuaí e resolvi almoçar por lá mesmo. Entrei num restaurante (Original Prime Grill) e, na hora em que fui escolher o que comer na mesa de self-service, encostei numa mesinha lateral que tinha uma caixa de acrílico grande, cheia de latas de refrigerantes, sucos, garrafas de água etc… todas mergulhadas numa água com bastante gelo. Apenas toquei nela com o quadril. E eis que, não sei por que cargas d’água, a mesinha escorregou e a caixa espatifou no chão, fazendo um barulhão danado. E, claro, a água espirrou pra todo lado me dando um banho gelado. Todos do restaurante me olharam assustados. Eu apenas sorri, pedi desculpas aos funcionários (que logo se organizaram para enxugar o chão) e, meio encabulada, disse: nossa! mal encostei nela (dando a entender que não entendi como aquilo havia ocorrido). E acrescentei: tudo bem. Até que o banho foi bom, dado o calor infernal. Me servi, sentei e almocei calmamente. Quando fui pagar a conta, a moça do caixa me disse: não, você não precisa pagar nada. Ora, como assim? perguntei. E ela: dado o acidente com a caixa, o gerente pede desculpas e seu almoço fica por conta da casa. Eu insisti: imagina, não foi nada, não precisa. Olhei para o gerente e ele: faço questão, assentindo com a cabeça e um sorriso no rosto. Vi que ele não arredaria o pé da gentileza. Achei fofo demais.































