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domingo, agosto 09, 2026

Tempo


Estou dizendo para esta lagartixa
na parede do meu quarto
que o século vai acabar
mas ela não me olha
nem me entende.

Já tentei falar com a formiga
com a aranha
fui ao limoeiro da horta
e ninguém liga.

Olho os objetos da sala
minhas coisas no escritório (os óculos)
e no quarto (os sapatos).

Todos indiferentes.
Não estão em pânico
não devem nada
e não têm planos.

O tempo é mesmo
uma doença humana.

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SANT’ANNA, Affonso Romano de | Estou dizendo para esta lagartixa | In: Vestígios | Rio de Janeiro, RJ | Rocco | 2005 | p. 15.



quarta-feira, maio 13, 2026

Assombros



Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.

Fora, não se dão conta os desatentos.

Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.

Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.

Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.

 
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[Affonso Romano de Sant’Anna (1937-2025) | In "Lado Esquerdo do Meu Peito" | Livro de Aprendizagens | Ed. Rocco | 1992 | RJ]

terça-feira, fevereiro 20, 2018

Indecisão Amorosa


Então me digo:
“Não vou mais vê-la”
e no dia seguinte
quero tê-la.

Então me digo:
“É a última vez”
e me resigno.
Mas quando anoitece
sou eu quem ligo.

“Começo a esquecê-la”,
me repito.
E numa esquina
invento vê-la.

De novo afirmo:
“Melhor parar”
e aí começo
a desesperar.

O tempo todo
a estou deixando
e mais a deixo
partido
ao seu amor regresso
e partindo
vou ficando.

(Affonso Romano de Sant’Anna)


terça-feira, janeiro 30, 2018

Silêncio Amoroso


Preciso do teu silêncio
cúmplice
sobre minhas falhas.
Não fale.
Um sopro, a menor vogal
pode me desamparar.
E se eu abrir a boca
minha alma vai rachar.

O silêncio, aprendo,
pode construir. É um modo
denso/tenso
— de coexistir.
Calar, às vezes,
é fina forma de amar.




Affonso Romano de Sant'Anna | Silêncio Amoroso II | In: Intervalo Amoroso e Outros Poemas Escolhidos | Porto Alegre | L&PM Pocket | 1998.


domingo, outubro 15, 2017

Reflexivo



by Christophe Charbonnel


O que não escrevi, calou-me.
O que não fiz, partiu-me.
O que não senti, doeu-se.
O que não vivi, morreu-se.
O que adiei, adeus-se.


Affonso Romano de Sant'Anna | Intervalo amoroso e outros poemas escolhidos | L&PM | 1999 | RS