sábado, janeiro 31, 2026

Nu vens

... a gente acorda cedo, observa o tempo, resolve tomar um sol, bota um biquíni, prepara tudo, lambuza-se de protetor, pega o livro, a toalha, a canga, a latinha de tabaco, o filtro, a seda, o isqueiro e a garrafa de água, (lembra que não tem chapéu, boné, essas coisas, porque não gosta mesmo de usar), e desce pra piscina. Lá, abre o guarda-sol, organiza tudo embaixo dele, prepara a espreguiçadeira, sente o ventinho fresco, esconde o celular, e pensa que vai queimar o lombo...

só que não! em menos de 10 minutos as nuvens se intrometem no cenário e toda a manhã programada sob o sol foi pro beleléu, ou, como se diz também, pras cucuias.


                                            Art by Joe Webb

domingo, janeiro 11, 2026

Do ofício de escrever





"Escrever, nesses estranhos momentos de leveza, é como dançar uma valsa muito complicada com alguém e dançá-la perfeitamente. Você gira e gira nos braços do acompanhante, trançando passos intrincados e belíssimos com os pés alados; e a música das palavras ressoa em seus ouvidos, e o mundo em torno é um cintilar de lustres de cristal e castiçais de prata, de sedas reluzentes e sapatos lustrosos, o mundo é uma voragem de brilhos e sua dança está à beira da mais completa beleza, uma volta e mais outra e você continua sem perder o compasso, é prodigioso, com todo o medo que você tem de perder o ritmo, de pisar no pé dele, de ser novamente desajeitada e humana; mas consegue dar mais um passo, e outro, e talvez outro, voando nos braços de sua própria escrita".

[Rosa Montero | A louca da casa | Tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman | Rio de Janeiro | Ediouro, 2004 | p. 36-37].

[imagem: Francine Van Hove]

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Well, mas quem é do ofício sabe que nem sempre é assim. Há os conhecidos momentos de dureza. Períodos vazios, travados, desertos. Dias em que a "derrota da realidade" pesa mais... e não se escreve coisíssima nenhuma.