sábado, março 14, 2026

Flores do ofício

Em novembro de 2025, minha aluna e orientanda Isabella D’Aquino Marcondes Noronha, a quem chamo de Bella, defendeu seu TCC: 

Título do trabalho: “A erotização da violência sexual como produto da socialização feminina e da ideologia queer.”

Bella foi minha aluna no primeiro e no terceiro ano. No quarto, minha orientanda de TCC. Mas, em meio a isso, de 2022 a 2024, foi minha orientanda de Iniciação Científica (PIBIC) com bolsa da Fundação Araucária, e integrante de meu grupo de estudos “Mulheres na Filosofia”. Ou seja, acompanhei sua formação em todos os anos do curso.

Ela chegou à UENP, em 2021, justamente no primeiro ano em que a disciplina sobre “Questões de Gênero e Filosofia Feminista“ havia entrado no currículo de nosso curso. E eu, por ter tido contato com essa temática num evento que coordenei em 2019, e também por ser a única mulher de nosso colegiado, fiquei encarregada de ministrá-la. Eu não sabia quase nada sobre o assunto, pois em toda a minha formação só estudei filósofos (e não filósofas) ─ bem sabemos os motivos. É claro que passei a estudar o tema como louca para dar conta da tarefa. 

Logo de cara, percebi que a Bella sabia muito mais sobre o assunto do que eu. E a partir daí começamos a “trocar figurinhas”. Um dia chego à UENP e ela havia me levado de presente um livro ─ A Criação do Patriarcado, de Gerda Lerner (obra fundamental para quem pretende tratar dessas questões) ─ com uma dedicatória fofíssima. Passei a estudá-lo e começamos a discuti-lo nas reuniões do grupo de estudos. Dali para a frente, foi só parceria, amizade, trocas, orientações, confidências e muito trabalho.

As questões envolvidas nessa temática são polêmicas, sacodem crenças, inflamam opiniões, tocam feridas e toda uma gama de preconceitos. É preciso mesmo ter muita coragem para pensar, escrever e falar sobre elas. Em muitos casos, opiniões divergentes podem gerar confusões, críticas ferozes, difamações públicas, cancelamentos, processos, enfim, o assunto habita um campo minado, sobretudo quando traz para o debate questões sobre transgeneridade. Bella, compreensivelmente, titubeou várias vezes, pensou em desistir tantas outras, mas afrontou o temor e, com muita coragem, resistiu às dificuldades que o assunto e a própria vida pessoal apresentavam. 

Destaco aqui alguns resultados de suas (e nossas) pesquisas: a publicação conjunta de um artigo intitulado “O problema do gênero segundo o feminismo de raiz”, publicado na PRISMA – Revista de Filosofia, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM, Vol. 6, no. 1, 2024). Resultantes desse estudo e publicação foram apresentados trabalhos em dois Encontros de Filosofia da UENP (Jornadas de Debates) e na XX ANPOF/2024, em Recife-PE, com publicação no Caderno de Resumos dos eventos. Destaco também os seguintes textos e comunicações: i) “Opressão, subordinação e privação”, publicado nos Anais do IX Encontro de Integração da UENP/2023; ii) “Da desconstrução à desarticulação: pós-estruturalismo e suas implicações para o feminismo”, publicado nos Anais da VII Jornada de Educação em Sexualidades do Paraná (JORESP) & II Congresso de Educação em Sexualidades Crítica (2024); iii) “A crise do sujeito no feminismo: reflexões a partir do pós-estruturalismo”, publicado nos Anais do X Encontro de Integração da UENP/2024. 

[Por aí se vê a importância do engajamento de nossos alunos nos Programas de Iniciação Científica. Bem trabalhados, tais programas conduzem as alunas e alunos a realizarem ótimas pesquisas e seguirem, se assim desejarem, uma carreira acadêmica promissora]. 

Seu TCC é resultado de todo esse caminho e produção. De acordo com alguns comentários da banca, faltou muito pouco para seu TCC ser considerado uma Dissertação de Mestrado prontinha da silva.  Em sua apresentação e defesa, Bella emocionou a todos e todas com um texto no qual falava de suas motivações para escrever o trabalho. Levou um 10 bem redondinho pelo texto escrito, pela apresentação oral e pelo comprometimento impecável com seus estudos. Ela colou grau em fevereiro/2026, saindo da UENP com uma bagagem mais do que suficiente para se engajar num mestrado.

Ontem soube que ela passou na seleção de mestrado da UNESP de Marília. E o mais interessante foi que, por conta das linhas de pesquisa da mencionada universidade, ela teve que produzir um novo projeto, num tema completamente distinto. E sei que ela fez isso a toque de caixa, trabalhando loucamente, quase sem tempo para respirar. Com isso quero dizer que essa moça vai longe e merece MEUS PARABÉNS em letras garrafais. Apostei muito nela e só tenho a agradecer a troca e parceria nesse amor ❤ e dedicação à sabedoria.

domingo, fevereiro 08, 2026

Delta de Vênus

 “Só o batimento, em uníssono, do sexo e do coração pode criar o êxtase."

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Anaïs Nin (1903-1977), numa carta a um misterioso colecionador que, por sua vez, encomendou numerosas histórias eróticas, ao casal Henry Miller / Anaïs Nin, cuja palavra de ordem era o sexo. 

Nessa carta, datada de 1941, ela explica que sem poesia não existe amor. Aliás, acho que sem poesia não existe vida (ao menos pra mim).




sábado, janeiro 31, 2026

Nu vens

... a gente acorda cedo, observa o tempo, resolve tomar um sol, bota um biquíni, prepara tudo, lambuza-se de protetor, pega o livro, a toalha, a canga, a latinha de tabaco, o filtro, a seda, o isqueiro e a garrafa de água, (lembra que não tem chapéu, boné, essas coisas, porque não gosta mesmo de usar), e desce pra piscina. Lá, abre o guarda-sol, organiza tudo embaixo dele, prepara a espreguiçadeira, sente o ventinho fresco, esconde o celular, e pensa que vai queimar o lombo...

só que não! em menos de 10 minutos as nuvens se intrometem no cenário e toda a manhã programada sob o sol foi pro beleléu, ou, como se diz também, pras cucuias.


                                            Art by Joe Webb

domingo, janeiro 11, 2026

Do ofício de escrever





"Escrever, nesses estranhos momentos de leveza, é como dançar uma valsa muito complicada com alguém e dançá-la perfeitamente. Você gira e gira nos braços do acompanhante, trançando passos intrincados e belíssimos com os pés alados; e a música das palavras ressoa em seus ouvidos, e o mundo em torno é um cintilar de lustres de cristal e castiçais de prata, de sedas reluzentes e sapatos lustrosos, o mundo é uma voragem de brilhos e sua dança está à beira da mais completa beleza, uma volta e mais outra e você continua sem perder o compasso, é prodigioso, com todo o medo que você tem de perder o ritmo, de pisar no pé dele, de ser novamente desajeitada e humana; mas consegue dar mais um passo, e outro, e talvez outro, voando nos braços de sua própria escrita".

[Rosa Montero | A louca da casa | Tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman | Rio de Janeiro | Ediouro, 2004 | p. 36-37].

[imagem: Francine Van Hove]

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Well, mas quem é do ofício sabe que nem sempre é assim. Há os conhecidos momentos de dureza. Períodos vazios, travados, desertos. Dias em que a "derrota da realidade" pesa mais... e não se escreve coisíssima nenhuma.